quinta-feira, 9 de novembro de 2017

DEIXA-ME SER: o que dizem os leitores sobre o livro

Apresentação do livro na Covilhã, Janeiro de 2017.

Agora que o Deixa-me ser foi publicado também em formato digital na loja Kindle da Amazon novos leitores tiveram acesso ao livro e por isso tenho recebido muitos comentários positivos. Hoje partilho convosco alguns excertos das opiniões que me foram chegando desde a publicação do Deixa-me ser há um ano. 

Antes de passarmos às reviews, quero só agradecer a  quem escreveu estas palavras. Acreditem que a Força que aqui transmitem não é só para mim mas também para muitas outras pessoas que passaram ou ainda estão a passar por fases complicadas da sua aceitação e do seu coming out. OBRIGADO por darem a tudo isto um propósito!



Sara Cristina:
"Não tenho palavras para descrever o quanto amei este livro. Faz qualquer um entender o que é viver verdadeiramente no mundo LGBT, a nível do preconceito e homofobia e sobretudo do não aceitar por parte da família. Um dos melhores livro que já li este ano sem dúvida."

Pedro Leiria: 
"Uma excelente obra biográfica onde ficamos a conhecer melhor o autor, o rapaz frágil que conseguiu vencer 'in extremis' as dificuldades com que se deparou nos momentos mais delicados da sua existência. Vamos conhecendo o processo que o levou para uma maturidade, força e gosto pela vida que hoje o caracterizam. Um bom exemplo para aqueles que se sentem excluídos e para os que não compreendem que nem todos somos iguais."

Susana Alves:
"Apesar de o encontrarem na secção de livros LGBTI, é um livro para todos. É mais do que um livro sobre a luta pelos direitos humanos. É sobre todos nós, sobre a auto descoberta, o auto conhecimento, a auto aceitação. Um livro onde se sente a sinceridade e transparência em cada palavra, sobre a luta pelo direito de seres quem és, mesmo que esse ser vá contra as expectativas da sociedade."

Panagiotis Mell:
"Um dos melhores livros que já li! Uma abordagem sensível e realista sobre uma questão que deve interessar a todos."

Carla:
"Devorei completamente este livro do início ao fim!  Obrigada ao autor por contribuir para desmistificar o que algumas cabeças duras não compreendem, que amor é amor sob todas as formas possíveis de o ser e que o mais importante e a base de tudo é o amor-próprio."

Ana Ribeiro:
"Estava de longe de imaginar a marca que este livro iria deixar. Uma leitura incrível que recomendo para pais e filhos. Afinal entre dizer que se aceita a diferença e fazê-lo vai uma autoestrada."

Ricardo Ruaz:
"O que mais me fascinou, além da sobrevivência e da curiosidade em saber o desenrolar dos enredos amorosos... foi mesmo as semelhanças com a minha própria história de vida. Identifiquei-me com a sua fase de rebeldia de tempos académicos, liberdade, novas emoções, amigos para a vida..."

Ana Anes:
"Mais do que um livro sobre a comunidade LGBTI, é um livro sobre crescer, sobre procurar o nosso lugar no mundo e sobre lutar contra o pré-definido. É sobre esperança e sobre força. Às vezes sobre o lado negro da força, também."

Rafael Fernandes:
"É sem qualquer inibição que o autor expõe a sua intimidade e aborda temas como o suicídio, doenças mentais ou violência em relações amorosas.  Esta não é uma história negra mas sim um perfeito exemplo da técnica de pintura italiana chiaroscuro – um jogo de luz e sombras que formam um puzzle da vida de alguém que passou por tanta coisa. Deixa-me ser é o testemunho visceral e profundamente honesto do coming out do Filipe." 



Estas e outras análises ao livro podem ser lidas aqui no Goodreads.

Livro à venda aqui.

domingo, 29 de outubro de 2017

17 HORAS na sala de espera do hospital... mas o SNS funciona!

imagem roubada do pixabay, não é uma imagem real.



Por volta das 10 da manhã decidimos que era melhor ir ao hospital.


Não vou referir o nome dos dois hospitais onde fomos, para manter algum respeito pelos visados. Não vou entrar em detalhes do problema que lá nos levou, para manter a privacidade do doente, que neste caso não era eu.

Fui acompanhar. "Graças a deus", como diria a minha avó.

E eu nem sou religioso, mas acreditem que neste longo dia estive muito perto de me tornar crente. E fica o último aviso: o sarcasmo é algo bem presente neste texto.

Chegamos à porta do hospital, saio do carro e gentilmente peço uma cadeira de rodas para transportar o doente, pois este não conseguia caminhar. Primeira resposta alarmante do dia: "Não há cadeiras de rodas agora".

Como assim... não há?

E a partir daí aprendi que muitas frases começariam por "não há" a partir desse momento.

Depois lá houve, lá se achou uma cadeira e lá se levou o doente para uma sala de espera. O normal. Pouco menos de uma hora à espera para a triagem... depois de ter insistido um pouco na gravidade do caso. Eu podia ficar sempre ali dentro, como acompanhante, o que se justificava mais do que inicialmente pensara. Passam 2 e 3 horas. Médicos? Não há?

Nem por isso. Por acaso nesse dia acontecia a greve dos médicos, para complicar o que já complicado seria. Mas isso nem me chateou tanto visto que por muito que isso me afectasse no momento, estava perfeitamente consciente de que a classe tem que fazer algo para melhorar tudo isto.

Chegamos ao doutor. Muito atencioso, examina isto e aquilo, e por fim diz-nos que será melhor encaminhar o doente para outro hospital da região onde poderá fazer exames mais específicos. Mas entretanto o doente fica por ali para levar algum medicamento.

Agora uma pausa. Na minha lista de possíveis profissões, tenho a certeza de que a de médico/enfermeiro ficaria mesmo no fundo, riscada. Sou tão sensível a estas cenas de agulhas e sangue que nem vejo Anatomias de Greys e afins, só para terem uma noção. Então agora imaginem a felicidade de estar fechado num hospital a assistir a isso tudo e rodeado de pessoas em sofrimento. Claustrofóbico e horrível. Mas a alegria de ali estar só aumentaria a partir daí...

"Desculpe, não tem uma maca para deitar o doente?"

"Não há macas... estão todas ocupadas".

"Ok..."

Passado algum tempo lá vem uma maca. 

"Desculpe, não sei se é pedir muito... mas o doente está ali deitado sem uma almofada, por acaso não seria possível..."

"Não há almofadas... se houvesse já lhe tinha dado".

Respiro fundo. É talvez hora de almoçar. Vou às máquinas automáticas (não havia um bar ali). Outra desilusão. Comida super mega ultra industrial cheia de açúcares e cenas maléficas. Sandes de fiambre, queijo e fiambre, carne, carne, carne, carne, carne. Desisto, como uma de atum que sabia a 2 semanas e meia. 

Já me apetece vomitar com os cheiros. Ando para trás e para a frente no corredor entre as longas esperas. Entretanto já são 4 da tarde e vem uma enfermeira muito antipática dizer-me (ou gritar-me): "Ou está cá dentro ou está lá fora, não pode andar aqui a passear..."

"Claro, porque hoje eu até nem tinha mais nada do que fazer senão vir passear para o hospital." - e viro costas, para não me irritar. Percebi muito bem o que queria dizer, mas talvez pudesse usar um tom mais agradável. Por momentos odeio todos os enfermeiros do mundo, mas logo a seguir vem um que me faz voltar a amar e a admirar esta gente. Amável, atencioso e até divertido. Uma luz inesperada... antes da tragédia.

"Não há ambulâncias". 

Estava a dizer-me que não havia ambulâncias para levar o doente até ao outro hospital? Sim, sim, estava. Então a solução passa por ficar ali e fazer mais tratamento. O doente entretanto melhora um pouco ou pelo menos já não sente tantas dores com o efeito dos medicamentos.

Passa o tempo. Vou lendo um livro que por acaso me lembrei de levar, já conhecendo estes atrasos e velocidades do sistema. Comecei a lê-lo nesta manhã (e já vão perceber porque estou a frisar isto). Falo com as velhinhas simpáticas do lado, vou conhecendo um pouco dos problemas de cada pessoa que entra e sai. Vejo gente chorar em desespero e por momentos emociono-me também. Já não sei como estar sentado ou como estar em pé ou como falar ou como fechar os olhos. Apaga-se o telemóvel, vai-se a bateria, fico com menos uma distração. Resta-me observar e esperar.

"A ambulância vai demorar muito?"

"Há pessoas à espera há 3 horas..."

TRÊS HORAS?! Mas é que nem pensar. Pergunto se posso transportar eu o doente sem perder o direito a dar entrada no outro hospital como se fosse na ambulância e o médico diz-me que sim. Podemos ir, porque será mais rápido. No entretanto ouço-o falar ao telefone e desabafar: "Não há condições para trabalhar aqui. Não há".

Mas... se até aí eu achava que estava nos confins do inferno... não estava mesmo preparado para o que ia encontrar a seguir.

Meio hora a conduzir até ao segundo hospital. Entramos. E o que vejo é algo muito semelhante a um cenário de guerra, um daqueles cenários dos filmes catástrofe... com macas espalhadas pelos corredores, sofás "cama" a improvisar lugares para doentes se deitarem, outros em pé. Não há cadeiras suficientes. Familiares e acompanhantes amontoados, encostados pelas paredes fora. O caos. 

E nós pensávamos que aqui tudo seria mais rápido, visto termos já sido enviados pelo outro médico, mas estávamos muito bem enganados. Mais triagem. Mais espera. Mais desespera. 

São 10 da noite. Forço-me a comer mais qualquer coisa intragável da única máquina que tenho ali perto. E é aí que sinto que já estou a perder a paciência para tudo, mas já nem os gritos ou murmúrios de outros doentes em sofrimento me fazem impressão. 

É quase meia-noite quando finalmente se consegue chegar a uma outra médica.

E aqui vão os elogios para todos os profissionais por quem nós passámos neste dia, porque é impressionante tudo o que fizeram e o que quiseram fazer mesmo sem terem meios ou condições para isso. É realmente de pasmar quando percebemos como esta gente trabalha e faz tudo num ambiente tão caótico, tão cheio de tantos não há, tão... precário.

Mas fizeram tudo. Não escapou um único exame. Por momentos pensei que nos mandariam embora sem respostas, mas não. Quiseram testar tudo, ter a certeza de tudo.

Talvez por isso a fila de espera para o último e derradeiro exame fosse tanta. "Pelo menos mais umas 3 ou 4 horas à espera pelos resultados... porque não há técnicos suficientes para tantos pedidos" - disse-me uma auxiliar, que me aconselhou depois a ir-me sentar e descansar na sala de espera que a esta hora já começava a ficar deserta.

Fiquei eu e outra família que aguardava o mesmo. Deitei-me nas cadeiras para tentar dormir um pouco. Era uma da manhã (hey!). Nem 30 minutos resisti. Era impossível descansar ali, com as costas a partirem-se ao meio. Leio mais um pouco e entretanto termino o livro que tinha começado nesse dia. Apeteceu-me ir escrever no livro de sugestões: "O Serviço Nacional de Saúde devia fazer qualquer parceria com o Plano Nacional de Leitura".

Na sala de espera ecoa a voz irritante de uma daquelas apresentadoras dos programas de jogos por telefone que se prolongam pela madrugada.

E nisto são 4 e tal da manhã. Fecho os olhos, ouço uma voz: "Vá para casa."

"Hmm?!"

"Vá para casa. Os resultados do exame só chegam de manhã. Vá, que nós depois ligamos quando puder vir buscar o doente".

Posso ir pelo menos lá dentro ao corredor que parece um hospital militar. O doente dorme num cadeirão que improvisadamente faz de cama, porque NÃO HÁ macas. Despeço-me. Dou-lhe um beijo e alguma força. E preparo-me para fazer o caminho de volta sozinho e cheio de sono. Para não adormecer, ponho-me a cantar as músicas que vão tocando no carro, pois sempre ouvi dizer que quem canta seus males espanta

Nisto relembro que, como por grande ironia, o capítulo final do livro que li naquelas 17 longuíssimas horas retratava exactamente uma paciente que a todo o custo queria fugir do hospital onde estava internada, agredindo médicos, enfermeiros, auxiliares e seguranças no caminho. E por fim ela conseguiu mesmo fugir, acreditam?

Depois relembro um cartaz que li centenas de vezes, porque estava afixado por toda a parte no hospital, e que apelava à não violência contra os profissionais de saúde. 

Mas brincamos? É sério que se precisa apelar a isso?

É verdade que passei duas fases da divina comédia ali, inferno e purgatório, mas no fim só me apetecia abraçar quem lá trabalhava. 

Estive lá um dia. Não invejo quem lá está todos os dias a trabalhar. 

E a mal ou a bem ou muito a mal vá, o serviço prestado foi exemplar. Repito que fizeram tudo, mas mesmo tudo para que não saíssemos dali com dúvidas. Exames atrás de exames, questões atrás de questões, mesmo quando as respostas demoravam.

E é por isso que digo, sim, o Serviço Nacional de Saúde funciona... mas talvez devesse funcionar melhor para a força matriz que o faz andar.

Entendam. O "SNS português está entre os quinze melhores da Europa, à frente do inglês e espanhol". Não estou a inventar, quem é o diz é a notícia de 30 de Janeiro de 2017 no Jornal Económico (podem ler aqui). 

E só pode estar mesmo entre os melhores, porque com condições por vezes tão precárias, tão complicadas, com tanta falta de material e etc, só pode mesmo ser dos melhores para ainda assim conseguir dar tanta resposta a todos os nossos problemas. 

E já agora, ficou tudo bem. Não era nada de grave, mas (e repito, repito e repito) não nos deixaram sair de lá sem essa certeza bem vincada.


Não há nada que pague isso.




sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Marraquexe: uma coisa que amei e outra que detestei [ Aventura em Marrocos, PARTE II ]



Depois de resolvido o drama inicial (que contei aqui), saímos finalmente para as ruas de Marraquexe à descoberta da cidade.

O nosso primeiro objectivo era chegar à Medersa Ali Ben Youssef, depois de vaguearmos por algumas ruas repletas de pequenas lojas e comerciantes ávidos para nos venderem lenços coloridos e outras coisas tipicamente marroquinas. 

Marracache.

Pelo caminho ainda compramos um lenço lindíssimo para a nossa mãe enquanto fazíamos geocaching... porque Marroquinos gonna be Marroquinos e a cache estava escondida dentro de uma loja (esta da foto). A senhora vendedora, sentada à porta, fez-nos logo sinal de que era ali, quando nos viu meio à procura do objecto. E obviamente que o objectivo deles é fazer negócio com isso e o senhor vendedor, que estava lá dentro, fez-nos então um "desconto especial para geocachers". Mas... como não amar isto?


E da Medersa o que posso dizer?

Adicionar legenda

Esta é uma antiga escola onde ensinavam o Corão (ou Alcorão) e é um lugar absolutamente fascinante por tudo o que representa na cultura islâmica ou muçulmana, passando também pela história de Marrocos e pela arquitectura visualmente arrebatadora que podemos encontrar pelas várias salas e pátios do extenso edifício. Podemos visitar os quartos onde ficavam os alunos e assim perceber melhor como se vivia ali. Fiquei absolutamente encantado.

Pagámos 10 dirhams (cerca de 1€) para entrar. É super barato!  E por todos estes motivos este local leva um: Obrigatório visitar! 

As fotos de resto falam por si.

Apaixonado! Amei!

Depois disso seguimos para o almoço e aventurei-me a comer pela primeira vez tajine de legumes. Tajine é um prato típico marroquino e pelo que percebi tajine é mesmo o nome da panela de barro onde são cozidos e servidos os legumes (e a carne para quem optar comer assim). Os legumes e o que leva dentro acaba sempre por variar um pouco. Pelo menos nunca comi um tajine igual nos dias que se seguiram. Para acompanhar... sumo de laranja natural, pois parecia quase obrigatório bebê-lo numa terra onde este fruto é rei. E ainda bem, porque é um hábito muito saudável e... delicioso!

O almoço!


Dedicamos a tarde a explorar as ruas e cruzamentos dos souks que conduziam à praça central da cidade. Os souks são basicamente muitas lojas, tendas e tudo o mais onde se consiga enfiar algo para vender... copos, souvenirs, frutos secos, panos, etc. Vi literalmente "lojas" que eram o espaço da parede entre uma loja a sério e outra (não mais que um metro e meio). E isto foi-me confirmado por um dos vendedores quando perguntei até onde ia o seu espaço. Só rir! Mas aqui vale tudo para fazer alguns trocos. Por acaso não achei que nos souks fossem muito insistentes para vender, apesar de termos sempre alguns que nos chamavam para "só ver". 

E chegamos então à praça Jemaa el-Fna e à minha primeira e única desilusão. A praça é bonita e histórica, entenda-se. Mas daí a ser parte da lista de Património Mundial da UNESCO...
Bem, não gostei do ambiente da praça no geral. Os músicos tradicionais ao vivo? Giro. Os encantadores de serpentes? Giro ver no primeiro impacto. Depois torna-se aborrecido quando literalmente andam atrás das pessoas com as cobras na mão para sacarem dinheiro por fotos (não podemos nem fotografar as cobras de longe sem que peçam logo moedas). Tive mesmo que fugir de um. 

Os homens que vêm com os macacos para cima de ti? Horrendo! Os macacos estão em sofrimento, em jaulas, magros, com uma aparência horrível. Um dos homens pegou-me na mão para eu tocar no macaco e obrigou-me, diga-se, mas de volta só levou um berro de "NÃO! NÃO QUERO FAZER ISSO!" e dinheiro... nenhum, apesar de ter pedido, claro! Nem vou falar das chatas e enfadonhas senhoras que querem fazer-te tatuagens de henna a cada cinco passos que dás...

Percebo o valor histórico da praça. Achei icónico ver ali tanto comércio, tanta vida e principalmente ouvir os sons típicos e os chamamentos para a oração num lugar com séculos de história, mas são os comerciantes e as suas vendas extremamente agressivas e invasivas que atribuem àquele lugar uma carga bastante negativa. Talvez a UNESCO queira rever alguns conceitos no que diz respeito à explícita exploração daqueles animais, só para começar...

não muito longe das cobras e macacos, a mesquita.


Depois disso, caminhando alguns metros, chegámos felizmente à Mesquita de Koutoubia e aí sim vale a pena sentar-se um pouco e respirar a tranquilidade, principalmente no jardim nas suas traseiras, onde por acaso naquele momento não havia praticamente ninguém. 

Foi aí que me voltei a ligar a Marraquexe, foi aí que não deixei que o fascínio se perdesse.

E no dia seguinte esperavam-me os momentos mais arrebatadores numa longa viagem até ao deserto... mas isso vou contar-vos na Parte III desta aventura.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Marraquexe, 23:17h: sem um quarto para dormir [ Aventura em Marrocos, PARTE I ]

fotos da Riad onde dormi... inesperadamente.


Primeira vez em Marrocos. Era já tarde, perto das 23h, e eu e a minha irmã tínhamos acabado de chegar a Marraquexe, depois de uma pequena escala em Casablanca. À porta do aeroporto Marrakech-Menara esperava-nos o nosso transfer, uma espécie de táxi mais moderno que nos iria levar até à nossa Riad (casa tradicional marroquina que funciona como um hotel).

Simpático e conversador, o nosso motorista foi falando connosco no seu inglês não perfeito mas compreensível e levou-nos pelas avenidas mais glamourosas da cidade até à zona da Medina, que é o que podemos chamar de zona antiga, o coração de Marraquexe envolvido por uma muralha extensa que separa as duas realidades contrastantes: a riqueza e a pobreza. Aí foi onde percebi logo que estava num cenário completamente diferente, mas também mais interessante. Motos, carros, bicicletas e até carroças avançavam ao mesmo por entre ruas diminutas, em movimentos arriscados e doidos que me deixaram pasmado.

E foi num parque de estacionamento rodeado por essa estonteante confusão que o nosso transfer parou para nos deixar. Mas antes disso o condutor perguntou-nos se sabíamos ir até à rua da Riad e nós dissemos que não (só sabíamos que era numa rua ali perto e usar internet ou o goggle maps estava fora de questão, visto que se pagavam 12€ por Mb... mas mesmo a sério!). Então ele ligou para a recepção da Riad e pediu para enviarem alguém para nos vir buscar. Assim ficamos à espera. Passam mais de 10 minutos. Ninguém vem. Ele volta a ligar e começa uma pequena discussão em árabe. Só consegui perceber pelo tom, porque percebo nada mas absolutamente nada da língua. De repente passa-me o telemóvel e diz-me alguém do outro lado num inglês muito mas muito mau que a nossa reserva naquela Riad tinha sido cancelada porque já eram 23:15h. Já não tínhamos um quarto para dormir ali. SOCORRO! Tentei manter a calma ao telefone, falando num inglês muito pausado, para me fazer compreender. Lá lhe expliquei que no site e nos documentos da reserva estava escrito que o check-in podia ser feito até à meia-noite (aliás esse tinha sido um dos motivos para escolher aquele alojamento, sabendo que já chegaríamos tarde). Mas o homem diz-me que seria impossível ficar ali. O quarto já estava ocupado com outros hóspedes. Como assim?!

A minha irmã olha para mim em pânico e eu em pânico estava. Olhava à volta e só via um mundo completamente desconhecido, de ruelas escuras e cheio de gente que conduzia de forma doida. Como é que era suposto aventurar-me por ali com as nossas malas pesadas e ir ainda à procura de um alojamento àquela hora?!  O homem desliga depois de falar com o condutor outra vez (em árabe). Nisto eu pergunto-lhe se por acaso não conhece outra Riad que ainda aceite check-ins àquela hora. Ele diz-me que talvez sim, que tem de fazer umas chamadas, mas diz-me para esperar mais um pouco porque o outro vai tentar resolver a situação... encontrando um sítio para dormirmos pelo menos nessa noite.

E aqui faço uma pausa para elogiar o nosso condutor, que foi absolutamente um anjo, nunca nos deixou e ainda me tranquilizou. Lá chega um rapazito da Riad para nos levar até lá, mas eu digo-lhe logo: "Só saio deste carro se me confirmares aqui que tenho um quarto onde dormir, senão vou já para outro hotel". Ele diz-me que sim, que tinha. Peço ao condutor para o confirmar em árabe, não fosse ter perdido algo na tradução, e ele confirma que sim, posso estar descansado: já há um local onde ficar.

Damos uma gorjeta ao motorista, embora estivesse escrito na reserva para não o fazer, mas nesta situação eu estava já disposto a dar-lhe o mundo. 

Lá seguimos o rapaz, que pega na mala da minha irmã e nos encaminha pelo caos da tal rua onde ficava a Riad. Pelo caminho, entre os "Ah Portugal" e os Cristiano Ronaldo, pergunta-me se não tenho sede e se não quero comprar água numa das muitas lojas da rua, que obviamente seria de algum amigo seu... pois faz questão de parar à porta (eu já sabia destes esquemas engraçados que os marroquinos usam para venderem tudo e mais alguma coisa numa espécie de antiquado cross-selling). Mas disse que não, mesmo só porque queria era resolver aquilo o mais rápido possível. Bem... lá chegamos a um local, ele abre uma porta, subimos umas escadas e está uma senhora marroquina nos seus 60 anos vestida com um tipo de pijama (claramente tinha saído da cama agora), ao seu lado está uma rapariga nos seus 20 e um homem que então percebo ser aquele que falou comigo ao telefone. 

Uma "sala" da Riad para onde nos levaram. Era aqui que se fazia o pequeno-almoço. 


Não sei como, mas não odiava este homem, mesmo sabendo que tinha cancelado erradamente e sem razão a nossa reserva, causando todo aquele transtorno, mas nos seus olhos havia qualquer misto de incompreensão e confusão, que não me deixaram tratá-lo mal. Bem... se ao telefone o seu inglês era sofrível, acho que ao vivo ainda era pior. Tentei explicar que a agência de viagens tinha pago tudo para a reserva, que àquela hora não podia falar com ninguém, que precisava de pelo menos wi-fi para puder enviar imediatamente um e-mail a explicar tudo. E mal ou bem lá nos entendemos. Tentámos entrar em mais detalhes sobre a reserva, mas ele não conseguia mesmo compreender o inglês para além de algumas frases-chave básicas. Ainda falou algum francês e eu compreendi, mas para mim era extremamente difícil responder-lhe nessa língua. Então o nosso problema linguístico era tremendo.

Lá me diz onde vamos dormir, vejo o quarto, era bom. E é aí que percebo que de facto aquela não era a nossa Riad original, mas que pertencia à senhora e raparigas que ali estavam. Também elas só falavam árabe ou francês. Ao pedir-me os passaportes para um rápido check-in, a rapariga soltou um tímido "Sorry" por toda a situação e os seus olhos foram tão explícitos, que tive que dar um passo atrás e relaxar-me aceitando aquilo... e pronto. Sim, perante essas dificuldades, aceitei dormir ali e... na manhã seguinte logo se via. E claro que no entretanto ainda tive que pagar 200 dirham (20 euros) para dormir ali porque... MARROCOS e marroquinos! A sério, o descaramento e os pedidos de dinheiro não têm limites, mas... como não amar isso?  :D Obviamente que paguei na condição de ter esse valor devolvido pela agência (que já foi devolvido e até em maior quantia, depois desta linda situação). 

Entro no quarto e só me dá para rir. Não estava a acreditar que tinha apenas acabado de chegar e já tinha tanto para contar. A minha irmã estava mais irritada, com completa razão, e diz-me: "Não tenho vontade nenhuma de me rir", mas isso só me fez dar mais gargalhadas porque eu tinha passado a semana anterior a perguntar-lhe "Mana, tu tens a certeza de que queres ir viajar sozinha comigo? Olha que acontecem sempre cenas...".

MAL EU SABIA! Mal eu imaginava o que estava para vir. 

E eu dizia isso porque depois da história no Hostel em Napoli, depois de me perder na Eslovénia e de quase me ter afundado no mediterrâneo, etc, etc, eu já esperava tudo... mas aparentemente não esperava isto. 

O que nos valeu foi que aquela temporária Riad era muito bonita, como se pode ver pelas fotos. 

À porta de um dos quartos. Aqui ainda não tinha sido nada resolvido, mas porque não tirar umas fotos como recordação? :P


E pronto, no dia seguinte acordámos às 6 da manhã com todas as mesquitas da cidade a ecoar as vozes do Almuadem (chamamento muçulmano para a oração). Por toda Marraquexe se ouvia "Alla hu Akbar... Allaaaaaaa huuuuu Akbar", que significa "Alá é grande!". E realmente não sei se foi Alá ou a força de acreditar, mas a verdade é que nessa mesma manhã tomei tranquilamente o meu pequeno-almoço de chá verde e smemen com mel (uma espécie de crepe marroquino) e tudo ficou resolvido com a agência em poucos minutos, pois conseguiram fazer com que nos transferissem para o nosso alojamento, que na verdade era uma outra Riad... ainda mais bonita do que esta. Mas juro... naquela fase estava até já disposto a dormir no deserto debaixo de uma pedra. 

E agora recordo ainda as palavras simples mas sábias do nosso magnífico condutor quando lhe disse que já há muito muito tempo queria visitar o seu país. Respondeu-me então ele assim no seu inglês acentuado com o tom árabe que confere a tudo um significado ainda mais profundo: "Now your dream came true" / "Agora o teu sonho realizou-se".

Bem... por pouco não era um pesadelo, não é? Mas também se fosse tudo certinho, que aventuras teria para vos contar?

E foi entre essa questão e risos ainda incrédulos que saímos para o caos da manhã quente de Marraquexe prontos a descobrir uma das cidades mais fascinantes onde já estive. Mas disso falarei noutro post, quando vos contar como afinal me apaixonei por este lugar que inicialmente me quis receber tão mal.


O nosso improvisado amigo, hóspede frequente da Riad que nos alojou por uma noite. Chamei-lhe Youssef. 


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

MISTÉRIO: comer pasta todos os dias faz emagrecer?



Este post terá altos níveis de hidratos de carbono. Fica já o aviso!


Não é propriamente uma novidade para mim, visto que já tinha vivido 10 meses em Itália e já nessa altura fiquei espantado com o facto de que praticamente todos os italianos são super magros... tendo em conta aquilo que comem diariamente (pasta, pizza, lasagna...). Falei disso neste post do ano passado. 

Mas agora que voltei lá, por 4 meses, tive mais tempo para explorar esta minha dúvida. Cheguei à ilha da Sardenha com um Índice de Massa Corporal  (IMC) de 21.6, que estava bom, e voltei de lá com um IMC de 20.2... o que significa que no entretanto perdi entre 4 a 5kg! Não sou muito obcecado com essas coisas, mas gosto sempre de saber se mantenho os meus níveis naquilo que é considerado ideal e é algo que controlo regularmente com o senhor doutor. Bem... para a  minha altura, antes ou depois, mantive-me sempre dentro do ideal.



A surpresa? Vou explicar agora e vocês não vão acreditar no que eu comia...

Desta vez, não cozinhava. Basicamente tínhamos um refeitório para o staff e todas as refeições nos eram dadas ali. Nós podíamos escolher de tudo e havia muita variedade... mas estávamos em Itália e não havia nada melhor do que pasta como prato principal todos os dias (porque os italianos comem assim, pasta como entrada e depois outro prato). Sim, eu comia pasta ao almoço e ao jantar todos mas absolutamente todos os dias, porque realmente era tão mas tão boa, não resistia. Depois como segundo prato comia sempre algo com vegetais ou peixe (obs: não como carne), mas também devorava muitas batatas fritas e às vezes o meu segundo prato era pizza ou lasagna (ou seja: mais pasta). 

* PASTA + PIZZA! * 

Comia sempre fruta, sempre, ok?



É verdade que o meu trabalho envolvia esforço físico, mas não demasiado. Caminhava muito por dia, isso sim, muito! E, principalmente ao início, tinha vários ensaios de dança (mas com coreografias muito fáceis, que não podem ser consideradas como esforço, mas como um exercício muito leve). Claro que todos os dias entrava na piscina ou no mar por uma hora, e talvez isso se considere actividade física (fazia parte do trabalho btw). Transpirava muito, principalmente nos dias de muito calor em Julho/Agosto e estou certo de que queimava muitas calorias assim.

Mas repito que todos os santos dias me alimentava com montes de hidratos de carbono... às vezes repetia o prato. E mesmo quando dei por estar a perder peso, tentei recuperá-lo, comendo ainda mais, e era impossível. 

Ok! Há estudos científicos que afirmam que comer pasta não engorda, como este aqui e este aqui. E é certo que muitas vezes a verdadeira pasta italiana é comida de uma forma bastante saudável, com um simples molho de tomate e manjericão, por exemplo. Mas e se falarmos da pasta 4 formaggi... com aquele molho espesso de 4 queijos super hiper mega calórico? E esta é a minha favorita, por sinal!

A questão aqui é que estou mais do que certo de que realmente este hábito pode ajudar-te a emagrecer. E é a única explicação que tenho para o facto de ter ficado muito mais em forma. Relembro que apesar do tipo de trabalho, nunca fazia exercício físico (como correr, etc) e pelo ginásio passei muitas vezes... do lado de fora.

Então? É do ar italiano ou da água? Só sei que há qualquer mistério ali, talvez nas formas tradicionais que são mantidas até hoje na preparação de pratos básicos. 

E eu nem vou começar aqui a falar da quantidade de vinho prosecco, birra e aperol spritz que bebíamos nas nossas folgas, porque teria que escrever outro post sobre os possíveis malefícios do álcool na dieta mediterrânea.

Ou então era isso? OH MIO DIO! Será? Querem ver que o milagre não é da pasta, mas dos cocktails bebidos nos fins de tarde na esplanada da praia? :D 




  

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

MILANO: corrida infernal pela estação central



Terça-feira, 12 de Setembro de 2017. Eu e outra amiga estávamos já em Milão. Uma outra amiga nossa chegaria de Portugal ao aeroporto de Bergamo, nessa manhã, para se juntar a nós e assim partirmos os 3 para Veneza

Tendo em conta os restritos horários, a ideia era esperarmos por ela na stazione centrale e almoçar por aí (tínhamos já comprado os bilhetes de comboio para Veneza e umas 2h para almoçarmos tranquilamente)

8 da manhã em Itália (7 em Portugal). O escuro do quarto do hotel ilumina-se com a luz do meu telemóvel que não pára de tocar com aquela música medieval que escolhi como toque de chamada. Nunca tinha percebido como era irritante... até este momento. Mas fosse esse o meu maior problema.

Inesperadamente ouvi a voz da minha amiga dizer: "Fi... a Ryanair acabou de informar que o meu voo vai atrasar 2h porque há uma greve qualquer em França, dos controladores aéreos..."

Ao início nem estava a acreditar, ainda meio a dormir. Depois o meu cérebro fez as contas. Se o voo atrasava 2h... ela não chegaria a tempo de apanharmos o nosso comboio.

Pânico! Combinamos manter-nos em contacto e a primeira coisa que faço nessa manhã é ir ao centro de apoio da Trenitalia na estação de Milão (por muita sorte, o meu hotel ficava mesmo ao lado!). Habituado a viajar com os comboios italianos, sabia que havia possibilidade de trocar o horário dos bilhetes, pagando a diferença. Mas também sabia que tinha comprado os bilhetes low cost (a Trenitalia tem vários tipos de bilhetes, que vão do economy, premium, prima classe, etc, etc). E a resposta que tive por parte do funcionário no balcão de atendimento foi exactamente a que já esperava: por ter comprado os bilhetes numa promoção, estes não se podiam mudar. 

Em Portugal o atraso da Ryanair mantinha-se igual. Em Itália o preço para comprar novos bilhetes de comboio para Veneza, à última hora, era altíssimo (no mínimo 50€ por pessoa!). Mas lá me lembrei de um serviço económico, que é o Flixbus: autocarros low cost que fazem várias ligações pela Europa (chegou há pouco tempo a Portugal, por acaso). E lá havia uma ligação Milão - Veneza por 9,90€. Demorava mais tempo a chegar e iríamos perder metade do dia para nada, mas pelo menos ela também chegaria a tempo de o apanharmos. Decidimos então comprar 3 bilhetes através da app, sem termos que nos descolar da estação (Viva o século XXI e a sua tecnologia!). Talvez até conseguíssemos ir no comboio, mas era melhor não arriscar mais, certo?

E eis que chega uma novidade: afinal o voo partiria imediatamente, reduzindo o atraso assim para pouco mais de 1h. ESPERANÇA!! Talvez chegasse a tempo do comboio então! 


regionais, intercidades, de alta velocidade, comboios para todos os gostos!


Aqui o que nos salvou foi que eu já conhecia Milão, a estação e os serviços italianos de trás para a frente (mais de 1 ano a viver lá teria servido para alguma coisa). 

Pus então em prática um plano estudado ao pormenor. A amiga que estava comigo ficaria com as malas à porta do Gate C, onde devíamos apanhar o comboio. E aqui complicava-se um pouco. Naquela estação não é só passar para o comboio e finito. Temos que passar o Gate, o portão de segurança, procurar a linha (de dezenas de linhas disponíveis!) e ainda mostrar o bilhete novamente antes de subir para o treno. Mas ok, relaxei-me, não seria nada. A outra amiga, que aterraria no aeroporto de Bergamo, iria chegar à estação num autocarro shuttle e pararia mesmo ali à frente. Então decidi ir comprar logo o nosso almoço para o fazermos depois no comboio. Focaccia, pizza, panino. Podíamos até perder o comboio mas fome não passaríamos. E depois disso posicionei-me estrategicamente à porta, onde paravam os autocarros. Daí teríamos só que atravessar toda a estação, subir 3 pisos numas escadas de mais de 50 degraus, passar a "sala de espera" e correr para apanhar o treno às 12:45h. SÓ ISTO!! 

A linda (e enorme) estação de Milano Centrale.

Ligo-lhe. Já aterrou em Itália. Ligo outra vez. Já está no autocarro. Este demora cerca de 1h a chegar ao centro da cidade. Ligo outra vez. Já está numa avenida de Milão. 12:25h. Mantemo-nos ao telefone. Conhecendo bem o tradicional ritardo dos comboios em Itália, começo a rezar para que o nosso se atrase pelo menos uns 15 minutos. O placar amarelo vai actualizando de minuto em minuto, há vários em atraso, mas o nosso? Nem um segundo de ritardo. 12:32h. "Como é a tua mala? Assim quando o autocarro parar, tiro-a logo do 'porão' e perdemos menos tempo". Parecia uma operação da Máfia Italiana. 12:37h. Faltam menos de 10 minutos para o comboio partir. Vejo um autocarro a fazer a curva para estacionar: "Diz-me que és tu, diz-me que me estás a ver, tenho o braço no ar!!". 

"ESTOU A VER-TE!" - diz-me ela. Ponho-me a correr em direcção ao autocarro enquanto grito "Sai depressa! VAMOS CONSEGUIR! VAMOS CONSEGUIR!". 

Parecia um maluquinho. O condutor desce, abre o compartimento das bagagens. Vejo logo a mala dela. Tiro-a, vejo-a a descer do autocarro. "Segue-me. Temos que correr. Não pares nem um segundo". Era a primeira vez dela em Milão, imaginem esta bonita recepção de boas-vindas.

Subo as escadas com a mala na mão. Primeiro piso, segundo piso, terceiro piso. A outra nossa amiga grita-nos toda contente quando nos vê ao fundo. A estação a abarrotar de gente, mas conseguimos esquivarmo-nos de todos à nossa rápida passagem. Passamos o Gate C. 12:43h. O comboio é enorme, enormeeeeeeee. Tem mais de 15 carruagens e a nossa é a número 11, mesmo ao fundo. Mais um corrida. Mas já mostramos o bilhete. E nem sei como mas já estamos dentro do comboio. Mal respiro, estou a suar, o coração acelerado, mas conseguimos. CONSEGUIMOS! Contrariando todos os atrasos possíveis e imaginários,  conseguimos! 

"Fogo... dá-me pelo menos um abraço agora", diz-me ela.

Não nos víamos há mais de 4 meses. E foi este o nosso reencontro. Inesquecível, não? :D

E sim, chegamos a Veneza (onde eu ia pela terceira vez). E o que me fez mais feliz foi chegar à Piazza San Marco e ouvi-las dizer:

"Isto é lindo. Estou sem palavras. Valeu todo o stress". 


Diria até que se pode repetir um dia destes, não?


Depois da meia maratona milanese, toda a tranquilidade de um spritz aperol na ilha de Torcello (em Veneza). 

sábado, 12 de agosto de 2017

O dia em que quase nos afundamos no mediterrâneo



Dia de folga. Eu e os meus colegas de trabalho decidimos todos que seria um bom dia para fazer um passeio de barco no mediterrâneo. 

Então fomos até à nossa praia favorita e alugamos um pequeno barco para 7.

 O mar estava super calmo, como sempre está aqui no sul da ilha da Sardenha. O sol brilhava. Tudo perfeito para uma tarde bem passada a descobrir praias selvagens ao longo da costa com o nosso barquinho fantástico. 

Dois de nós já tinham experiência a conduzir este tipo de barco, então muito simpaticamente no aluguer lá nos explicaram, os responsáveis, como chegar aqui e ali, o que fazer e o que não fazer. Até nos deram um mapa.

Agora vamos olhar para esta foto que tirei na praia momentos antes de embarcamos. O mar era este. Uma piscina, por assim dizer. 



Mas realmente durante a explicação de segurança... fomos avisados de que algures no lado direito da ilha poderíamos encontrar alguma turbulência no mar. Então...

Lá partimos. Sorrisos, sorrisos. Uma vista fantástica sobre a costa. E avançamos mar adentro.

Do mar tranquilo começam a surgir algumas ondas. A água tem de repente uma movimentação diferente. Em menos de 10 minutos já estamos todos molhados dos pés à cabeça. Mas ok, faz parte, pensamos. Ao fundo vemos já a praia escondida onde queremos chegar. Falta pouco. O mar agita-se mais. Vem outro barco, bem maior e mais imponente, que passa demasiado  próximo de nós, fazendo com que as ondas aumentem. 

Uma colega aperta-me a mão com medo e eu rio, digo que devemos estar tranquilos, que não é nada.

De repente vem uma onda tremenda e o barco enche-se de água. Os nossos pés estão imersos. E mais, cada vez mais água.

A tranquilidade no grupo está quase acabada, à parte de duas pessoas. Eu e outra colega... que decide estender-se na proa a apanhar sol... ENQUANTO O BARCO CONTINUA A METER ÁGUA! Curiosamente, de todo o grupo nós somos os únicos que por hábito fazemos meditação. Então acho que a terapia zen afinal tem mesmo efeitos práticos (tendo em conta que estava quase a morrer e não estava muito preocupado NÉ!).

A única foto que consegui registar na atribulada viagem.


Volto a rir, digo que pelo menos é divertido, enquanto tento mandar água de volta ao mar com as mãos em conchinha, com outro dois colegas. É um pouco ridículo mas estranhamente tem efeito. O volume de água diminiu. E já estamos a voltar para trás, fugindo da turbulência. O mar acalma. Vejo um saco de plástico das compras a boiar e uso-o para tirar litros da água aos nossos pés. Saco a saco, a água começa a desaparecer. Uma ideia de génio, se me permitem dizê-lo.

A tranquilidade parece voltar mas... o motor começa a fazer barulhos estranhos. De repente parece não querer avançar. A marcha torna-se lenta. E o barco pára no meio do mar! Ao fundo vemos a praia de onde partimos.

Tentamos ligar para o número de segurança. A rede telemóvel não funciona. Tentamos outra vez. Ouvem-nos mal. Parece um filme. Ficamos sem uma resposta e sem saber que fazer.

Já estava a imaginar tudo. O barco afunda-se, que nem um Titanic improvisado. "Jack, Jack..."
Penso se não será melhor abrir o facebook e escrever um post de despedida aos amigos e família... mas Oops, o meu telemóvel está todo molhado e não se liga sequer. 

Aceito o meu destino. Outro colega ri. Outros estão quase em pânico. "Não é mau de todo submergir no fundo do mar com uma panorâmica lindíssima sobre a costa sul da Sardenha..." - penso. 

E então vemos ao fundo uma moto de água que acelera na nossa direcção. É o nosso salvador, um dos responsáveis pela segurança dos barcos. Em poucos minutos já está connosco, abre tudo, examina, vê o motor, faz caras de preocupação. 

"É uma avaria. Temos que voltar a terra" - diz-nos.

E com uma corda atracada à sua moto de água lá nos vai puxando o barquinho, cujo motor insiste em não dar sinais de vida.

Desembarcamos. E aqui o verdadeiro medo chega. Será que vamos ter que pagar pelo arranjo do motor?!

Será que vamos ter que ficar a trabalhar aqui para resto da vida para pagarmos os estragos causados?

Não! Todos os responsáveis pelo aluguer nos vêm falar. Super simpaticos e preocupados, profissionais, de um cuidado que (nota-se bem) é parte de uma família que vive deste trabalho há muitos anos. 

Para além de nos devolverem o valor do aluguer, algo que nós nem pedimos, ainda nos oferecem um passeio num dos insufláveis e outro desconto para a próxima vez que alugarmos outro serviço.

É inacreditável. E logo aí sobem para o topo da nossa consideração. Acabamos em mil agradecimentos. Grazie grazie grazie!

Ao fim já rimos todos, meio incrédulos, meio em êxtase, mas seguros de que temos agora uma bela aventura para contar aos amigos... ou aos filhos e netinhos.

Lá confesso a minha alegria. "Finalmente tenho uma história para escrever no blog!! Há tanto tempo que não acontecia nada e eu bem pedi qualquer coisa que me inspirasse..."

É um coro: "FILIPE A CULPA É TUA!!!".

Se a culpa é por ter tido um dos dias mais divertidos aqui, então eu assumo. :)