Mostrar mensagens com a etiqueta itália. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta itália. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Diário de Bordo #11: Sardenha, o regresso prometido

 



19/09/2020 - 7:50h

Estou a aterrar na Sardenha.

Até a mim custa a acreditar, não sei se pelo cansaço de ter dormido apenas umas 3 horas (voos de madrugada dão sempre nisto), se por ter marcado esta viagem tão inesperadamente. Foi há uns dias, na verdade. Visto que não estou a trabalhar em Setembro (os efeitos drásticos do covid na aviação continuam...) e como o Peter vai 4 dias à Polónia, decidi ir a algum sítio novo (enquanto as restrições do covid ainda permitem). Mas na verdade os voos e preços para a Sardenha eram os mais convenientes. Por isso cá estou de regresso à ilha que me acolheu naquele Verão de 2017. E acho que só neste exacto momento me dei conta de que já passaram 3 anos.

Foi um Verão de muito trabalho e cansativo mas, apesar de tudo, fui tão feliz aqui e aprendi tanto sobre os meus limites.

Talvez tenha chegado a hora de vir agradecer por isso.



a imponente montanha na ilha Tavolara


13:40h

Do avião corri para o autocarro e do autocarro corri para um barco e lá consegui vir até à ilha de Tavolara. É um sítio incrível, com uma montanha que se impõe altiva sobre o mar. As águas, como em toda a Sardenha, são cristalinas. Já nadei, na companhia dos peixes, e em quase toda a manhã tive a praia só para mim. Precisava mesmo disto, destes momentos num sítio novo, só comigo e os meus pensamentos e os meus horários e desejos.

Quando cá vivi em 2017, estava mesmo no sul, na zona de Cagliari, e agora vim para o norte em Olbia, na Costa Esmeralda. Ainda não consegui decidir que zona é mais bonita, mas se calhar nem é possível fazê-lo. 



Isola Tavolara ao fundo.


A verdade é que aqui, como de resto em toda a Itália, sinto-me em casa. É mesmo muito intenso o amor que tenho por esta cultura, pela língua, pela comida (claro!), mas sobretudo há uma ligação qualquer que jamais conseguirei explicar. O ano que reparti entre Bolonha e a Sardenha poderia justificar isso, e talvez todas as vezes que voltei ao país depois também tenham ajudado a cimentar este sentimento. De resto, neste 2020 tão atípico, em que tudo se virou ao contrário, quando vi Itália sofrer tanto com notícias tão tristes, julguei que não seria possível estar aqui tão depressa. Mas o vento e o mar trouxeram-me de volta.


15:14h

Almoço com vista para o mar. Podia pedir mais? Bebo uma Ichnusa, a cerveja típica da ilha, e o sabor traz-me tantas memórias como saudades. Acho que nem eu próprio sabia quanto precisava disto. 





20/09/2020 - 10:12h

Entrei numa igreja. Não sou religioso, mas às vezes rezo, não propriamente uma reza, mas mais uma conversa muito pessoal entre mim e o silêncio que há nestes lugares. Num sonho recente, muito agitado, estava dentro de uma igreja com a minha mãe. Hoje ela não está aqui, mas enviei-lhe uma foto do interior. Tecnologias ao serviço de deus.





14:00h

Praia de Pittulongu, que vista magnífica tenho diante de mim. Cheguei aqui de manhã e fui logo nadar. Um senhor italiano meteu conversa comigo dentro de água e fiquei a saber que conhece Portugal de norte a sul. Era um belo personagem este senhor, a contar-me histórias de quando jantou em Lisboa com uma família portuguesa muito rica e, disse-me ele, muito poderosa. Não me mostrei muito interessado neste tipo de ostentação e ele não me quis dizer que família era, mesmo que eu não tenha perguntado, e fez questão de dizer que não me diria, como que a ver se eu lhe perguntava. Acho que percebeu perfeitamente que não me atraio muito por este tipo de vaidades, de resto muito típicas da classe média-alta italiana, por isso a nossa conversa esmoreceu aí e voltei aos meus nados. 

Mas isto é um dos pontos positivos de viajar sozinho. As pessoas são muito mais propensas a vir falar contigo se te g só. E a verdade é que, seja alguém mais interessante ou mais chato, ou mesmo mais estranho, há sempre algo que fica... e que se aprende.



15:40h

Vim almoçar uma bela pizza e, como já se esperava, começou a chover. Já tinha saudades destas mudanças drásticas da ilha, ainda que para hoje houvesse um alerta de ciclone no mediterrâneo, mas vá...





15:45h

A verdade é que já me emocionei hoje, ao almoço, num momento em que olhei e reparei no mar à minha frente. Tenho saudades da vida que vivi em Itália, não sei se isso significa que seria capaz de cá voltar a viver, porque entretanto passaram 3 anos e descobri tantas outras coisas na Alemanha, sobretudo a liberdade em Berlim. É quase como se fossem duas vidas opostas, mas que até se complementam. Nestes 3 anos regressei a Itália tantas vezes. Voltei duas vezes a Napoli, Veneza, fui pela primeira vez a Treviso e Padova, e até passei por Bergamo uns dias para o meu curso prático de comissário de bordo. Isso acaba por me dar uma sensação de que nunca fui embora e de cada vez que regresso fico sempre com vontade de descobrir mais e alimentar esta vida que, mesmo tendo seguido outros caminhos, não deixou nunca de parte esta passione italiana.





21/09/2020 18:41h

Estarei já perto de aterrar em Berlim, mas esta manhã ainda fui dar os últimos mergulhos no mar tirreno. Fui conhecer a praia de Porto Istana e, como sempre, não me desiludi. Chega a ser impressionante tanta beleza que a Sardenha esconde em cada canto. Porto Istana fica muito perto de onde fui no primeiro dia, por isso via-se ao longe a Isola Tavolara. Essa ilha vista assim de longe até parece impor mais respeito, como se fosse uma autoridade, uma sentinela que tem sempre a Sardenha debaixo de guarda. 

Quando o sol brilha alto e Tavalora se ergue sobre as águas azuis e claras lá ao fundo, é um cenário de tirar o fôlego. E é essa a imagem que levo da minha querida Sardenha, que agora me permitiu conhecer o seu norte. 

Voltar é, claro, uma vontade certa. Quando? Não sei. Mas certamente ouvirei outro chamamento. 

A natureza dos lugares por onde passamos, daqueles que amamos, tem sobre nós um poder inexplicável.





segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Diário de Bordo #9: regresso a Nápoles e subida ao Vesúvio



É a quarta vez em Nápoles e finalmente consegui subir ao vulcão.


A primeira vez que visitei (e me apaixonei) por Nápoles foi em Fevereiro de 2015, voltei depois em Junho do mesmo ano e mais tarde em Janeiro de 2018.

De todas as vezes apanhei nuvens no Vesúvio, o que não facilitou a visita ao icónico marco da paisagem napolitana. 

Desta vez fiquei só por duas noites. 

Aproveitei o primeiro para regressar às ruas históricas e me deliciar novamente com os sabores do sul de Itália. 

Parmigiana bianca, Pizza (claro), Pasta e Patate... e nem vou continuar com a extensa lista de tudo o que comi porque acho que vos aumentava o colesterol só com as descrições. 

Digamos que já conheço a cidade de trás para a frente, por isso afastei-me um pouco dos locais mais turísticos e perdi-me por ruas mais escondidas, onde se sente e vive o verdadeiro espírito napolitano e onde consegui misturar-me com os locais e ter conversas mais ou menos banais com eles (o facto de falar italiano ajuda muito, obviamente).

Há quem deteste esta cidade e eu sei exactamente porquê. É caótica e nisso o trânsito mete medo. É suja e nem os monumentos antigos estão bem preservados como noutras cidades italianas bem famosas.

Mas há algo nesta honestidade do não querer saber e no calor das pessoas do sul que me apaixonou desde o primeiro instante. 

E foi com essa paixão que no segundo dia me emocionei ao chegar ao topo do Vesúvio contemplando lá de cima a beleza natural e única do Golfo de Nápoles. A calma do mar Tirreno. As ilhas. Pompeia ao fundo. Enfim... uma paisagem de nos deixar sem palavras.

A subida custa um pouco, mas com calma até se faz bem. Optei por marcar com uma agência e assim fui numa carrinha com mais 7 pessoas. O motorista deixou-nos mais ou menos a meio da montanha, até onde podem ir os autocarros e depois tivemos que subir uns 2 km a pé. Fui aproveitando para descansar em certos pontos e apreciar a paisagem e tirar umas fotos (levem água e uns snacks para o caminho). Tínhamos cerca de 2 horas livres para a visita até o motorista nos ir buscar novamente no mesmo ponto. Diria que para subir foram cerca de 30 minutos e para descer um pouco menos. 

Chegar à cratera do vulcão é uma sensação sem igual ou pelo menos para mim assim foi, pois era a primeira vez a visitar algo do género e fiquei abismado com o tamanho e profundidade da mesma. Imponente e majestosa... no mínimo. Neste dia até estava a fumegar e foi impressionante ver isso.

Quero lá voltar, num mês de mais calor talvez, pois agora em Janeiro notou-se bem a diferença de temperatura da cidade para o topo do Vesúvio, cerca de 10 graus a menos...

Ainda assim, foi um dia inesquecível e já posso riscar esta da bucket list.

Depois desci e fui comer mais, porque ir a Nápoles e não se deixar perder pelo prazer de comer é praticamente um pecado mortal.

No dia seguinte deixei a cidade já só a pensar num futuro regresso. Nunca sei explicar bem isso mas a música talvez o faça. That's amore.



quinta-feira, 17 de março de 2016

Serviço Voluntário em Itália: como é trabalhar com as crianças?

No Centro Educativo não fazemos só os trabalhos de casa, também pintamos, jogamos, inventamos...

Mesmo antes de eu vir para aqui, a minha mãe disse-me assim: "Ó filho... tenta não te apegar demasiado às crianças com que vais trabalhar porque depois vai custar-te mais quando tiveres de vir embora". 

Bem... tarde demais. E a mãe, quando me disse aquilo, também já sabia que era impossível isso não acontecer. Afinal, ela conhece-me melhor do que ninguém.

E, ao fim de 5 meses neste projecto de voluntariado europeu, a verdade é que já tenho uma ligação muito, muito grande a alguns dos miúdos com quem trabalho todos os dias. 

E digo alguns, pois são muitos (em alguns dias passam os 40) e claro que acabo por estar mais tempo com uns do que com outros.

Mas como é afinal estar a apoiar estas crianças todos os dias?

Resumindo já: é brutal, brutal, brutal!

Falar com eles tornou-se, com o tempo, muito fácil. Dominar o italiano tem sido uma grande mais valia na nossa comunicação e por isso mesmo já consegui criar uma relação muito gira com os bambini.

Eu já sei do que eles gostam, que filmes preferem, que jogo lhes rouba o tempo em que deviam estar a estudar (ahah!!), etc, etc.

Ser voluntário, com e para eles, tem sido por isso uma aprendizagem diária

Tenho já comigo momentos inesquecíveis, que vou guardar bem dentro do meu coração, como um dia em que cheguei ao trabalho e um deles veio e disse com um grande sorriso:

"Lembras-te da matéria de francês que me ajudaste a estudar para o teste? Tive muito bom".

A sensação de conquista que se tem ao ouvir uma coisa destas é tremenda, mesmo daquelas coisas fortes que te fazem feliz subitamente

E a grande verdade é que eu não me lembro de algum dia ter-me sentido feliz por ir trabalhar, como sinto quando vou entrar neste Centro Educativo, e só isso será suficiente para justificar o quanto eu estou a gostar desta experiência.

E... é inevitável, fatal como o destino, não pensar que este projecto de facto tem um fim. Dura 10 meses. Já fiz 5. Estou a meio. E estou a fazer tudo, tudo, tudo, para o aproveitar ao máximo. 

Todos os dias tento guardar as minhas energias todas para aqueles miúdos e para as horas que passo com eles. É cansativo, por vezes são irrequietos, difíceis, complicados como qualquer criança, mas no fim das contas o resultado é sempre muito, mas mesmo muito positivo

Eu não podia ter tido um Projecto de voluntário melhor do que este. Não tenho qualquer dúvida. 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Serviço Voluntário em Itália - o meu propósito




Hoje venho contar-vos algo tão simples como o diálogo que tive com um dos bambini (crianças) nesta tarde de trabalho no Centro Educativo onde sou voluntário.

Estávamos a fazer os compiti (trabalhos de casa) e ele escreve uma frase sobre o seu gato. Digo eu:

"Também tenho um gato."
E pergunta ele: "Aqui em Itália?"
"Não. Em Portugal."
"Então e ele está lá sozinho?" 
"Não está sozinho. Está com a minha avó, os meus pais e a minha irmã".
"Então e não sentes a falta deles?" (a palavra saudade não existe em italiano)
"Claro que sinto. Mas agora tenho que estar aqui para te obrigar a fazer os compiti."

Rimos os dois.  

"Tu depois voltas para Portugal ou ficas aqui?"
"Volto."
"Então tens que prometer uma coisa."
"O quê?"
"Quando estiveres em Portugal fazes uma chamada de vídeo aqui para o Centro e mostras-me o teu gato no computador."

Como não amar? COMO? :') :') :') 

Só consegui sorrir e prosseguir com a nossa tarefa. Mas com uma motivação extra.

Todos os dias há algo assim, algo especial que se diz ou faz. E são estes momentos que me dão um propósito para aqui estar. O propósito. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Serviço Voluntário: o bloco de notas

Anda sempre comigo. 

Escrevi este texto no bloco de notas há cerca de 4 meses. São as primeiras palavras que publico daquilo que tenho escrito neste meu fiel companheiro. E talvez as únicas. 


"5/11/2015 - Forlì - 13:48h

Já estou há um mês em Itália. Na verdade completa-se exactamente um mês só daqui a dois dias... mas que são afinal os dias no calendário? Se já parece que estou aqui há bem mais tempo...
Esta coisa da passagem do tempo é mesmo muito relativa.
Agora já tenho mesmo a sensação de estar mesmo a viver aqui. Não estou em visita. 
Há um mês deixei para trás tudo o que era meu. Trouxe comigo a roupa, alguns objectos como recordação. Trouxe-me a mim. Mas os amigos ficaram. A família também. Os meus livros, os meus jogos, o meu quarto. 
E aqui comecei do zero.
Se há momentos em que sinto uma infinita solidão por necessidades tão básicas como a de querer falar a minha língua-mãe e não poder; também há outros (e muito mais intensos!) em que sinto que todos os dias isto é uma conquista. Todos os dias, sem escapar nenhum, há sempre algo inesperado. E se todos os dias sinto saudade, também me sinto um guerreiro, em luta para construir um novo eu que está em evolução constante a cada passo que aqui dá."