segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

[ opinião - cinema ] Hush



Ela não consegue ouvir. Ela não consegue falar. A escritora Maddie Toung vive isolada da sociedade desde que perdeu a sua audição quando era adolescente, remetendo-se para um mundo de total silêncio na sua casa no meio de uma floresta. Mas quando o rosto mascarado de um assassino psicopata aparece na sua janela, Maddie precisa ir além dos seus limites físicos e mentais para conseguir sobreviver.


Hush é um filme que nos apresenta logo uma ideia original, com a colocação de uma personagem surda-muda em confronto com um psicopata que detém sobre ela muitas vantagens. Sendo assim, o enredo simples de uma típica invasão de propriedade depressa se torna em algo que nos deixa ansiosos, ao serem utilizadas várias técnicas que evidenciam as dificuldades de Maddie. Nisso, a realização e produção acertaram em cheio. Chega a ser arrepiante vermos o sofrimento dela ao não conseguir ouvir sequer os passos do assassino que a persegue (para não revelar demais...).

Para além disso, esse homem psicótico não quer só invadir-lhe a casa e matá-la, o que seria até muito fácil, mas quer sim fazer um jogo de terror psicológico que deixaria qualquer um em desespero total. 

Como antagonista, ele é um dos meus favoritos de qualquer filme de terror que já vi e até bastante original na sua concepção.

O suspense e a construção das cenas de perseguição, que mostram bem o sofrimento da protagonista, mas também a sua extrema vontade de sobreviver, são assim alguns dos pontos fortes do filme.

Infelizmente, a caminho do fim nota-se alguma repetição de ideias (e atenção que o filme é curto, com uma duração de 1:20h). Por isso mesmo, o final em si cai um pouco no cliché do género e não é tão satisfatório.

Mas nem assim Hush deixa de ser um dos filmes de terror mais bem construídos dos últimos anos.  


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

[ opinião ] Rogue One: Uma História Star Wars




Para um fã... escrever uma crítica a um filme Star Wars é algo extremamente difícil. Ainda por cima sou daqueles (poucos) fãs que não odeia as prequelas e que vê em todos os filmes da saga algo de valor.


Foi, por isso, bastante ansioso que me sentei na sala de cinema para ver este Rogue One

Montes de SPOILERS a seguir. 

Com o início fiquei logo apreensivo e ao mesmo tempo entusiasmado. Afinal o filme arriscou a abrir logo de forma diferente, sem as tradicionais letrinhas amarelas a arrastarem-se pelo ecrã como uma nave espacial... e afirmando-nos logo que este sim seria completamente diferente dos filmes numerados da saga (actualmente dos episódios I ao VII)

E daí poderia vir algo mau ou bom, pensei.

A primeira hora do filme desenrolou-se sem grande êxtase para mim, mas mesmo assim estava a adorar os novos personagens muito carismáticos e originais (o lado negro e o lado da luz de alguns deles, a forma como não são só bons ou maus, é fenomenal). Só que faltava-me ali qualquer coisa... apesar de já ter havido alguns hints óbvios à saga (como a surpresa da presença do senador Organa, pai adoptivo da Leia)

Curiosamente, até a banda-sonora (sempre tão importante nestes filmes) não estava assim a deliciar-me tanto como deveria.

Mas é então que chega a grande reviravolta que veio tornar Rogue One num dos melhores filmes Star Wars.

Quando tudo se junta e a rebelião ganha Força, começa um festival de fan service como nem o The Force Awakens (TFA) conseguiu ter. Por fan service entenda-se algo como o filme fazer referências atrás de referências a personagens, eventos, locais, etc, que marcaram de tal forma o imaginário da saga que causam logo arrepios nos fãs à medida que vão aparecendo. 

Mas não vou debruçar-me sobre todos os easter eggs e cenas óbvias que ligaram este filme ao episódio IV (e restantes). 

A música melhora a partir da primeira metade do filme, enquanto este nos leva para uma das mais épicas batalhas espaciais (e terrestres) de sempre. 

Resta-me apenas dizer que para mim este foi o Star Wars mais negro que vi no cinema. Pela primeira vez senti mesmo medo do Darth Vader, pois o seu dark side foi levado para níveis que nem na trilogia original eu vi (por mais assustador que fosse nos episódios originais, nunca me pareceu totalmente cruel e malvado como vi nesta última cena). E depois da humanização do personagem que foi feita nos episódios I, II e III, conseguir torná-lo completamente terrificante ao fim de tantos filmes (de tantas décadas) é talvez o maior feito de Rogue One, do seu realizador e de toda a equipa brilhantes por detrás disto.




Há fãs e críticos que dizem que este é o melhor Star Wars de sempre. Não concordo nem discordo, por agora, pois apenas posso dizer que senti aqui muito mais liberdade criativa do que no The Force Awakens, o que acaba por ser um pouco estranho, visto que este filme estava entalado entre dois episódios e assim mais limitado em tempo e espaço, quando o TFA tinha muito mais por onde evoluir e seguir.

E atenção que eu amei o TFA e considero-o (ao fim de um ano) um sólido número 3 no meu TOP da saga.

Como não gosto de julgamentos no calor do momento, irei ver e rever este Rogue One e daqui a muito, muito tempo, decidirei onde irá encaixar no meu exigente ranking de fã. 

Mas posso já adiantar o seguinte, com toda a certeza, os fãs desta saga estão a viver tempos fantásticos. 

The Force is strong with this one!


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Supergirl, DC Comics e a visibilidade LGBTI



Para a editora e produtora DC Comics as questões LGBTI não são de todo uma novidade, tendo sido feitas já várias abordagens dentro desses temas nos seus variados produtos de entretimento. Assim de repente lembro-me de alguns personagens gay e lésbicas da série de tv Arrow, do livro Batwoman: Elegia (sobre o coming out da Batwoman), recordo-me do assumir da bissexualidade da icónica Catwoman e até da discussão sobre igualdade de género já referida várias vezes em Legends of Tomorrow (série de tv). No cinema, Ezra Miller fez história ao ser o primeiro actor openly queer a ser escolhido para protagonizar o super-herói The Flash, derrubando assim outro preconceito: o de que actores assumidamente lgbti não teriam esta oportunidade.

E há muitas outras provas de que a DC luta bastante pela visibilidade destes assuntos no seu vasto universo de heróis e heroínas. De facto há tantas provas disso que não sairia daqui hoje para as nomear. 




Mas hoje venho falar-vos de SupergirlAtenção aos SPOILERS para quem ainda não viu a season 2.  Sendo um programava de tv sobre uma rapariga que tem super poderes, ao ponto de ser quase invencível, esta série sempre teve desde o início um tom muito feminista, mais ou menos directo. Os produtores não esconderam de ninguém que tinham intenção de tocar em vários pontos da discriminação de género no local de trabalho (por exemplo). Portanto, logo aí foram dados passos em frente, fazendo do guião não só algo de puro entretenimento, mas também algo que poderia levantar questões e provocar o pensamento dos espectadores. 

Chegamos à segunda temporada. E a DC e o canal The CW parecem cada vez mais apostados em levar à frente a sua (super) luta pela igualdade.

Antes de continuar, convém dizer que já vi muitas séries e filmes onde foram abordadas situações de coming out. Mas penso que nenhuma cena me tocou tanto como a que vi recentemente em Supergirl.

O guião começou a desenvolver-se nesse sentido aos poucos, subtilmente revelando que uma personagem que já conhecíamos desde o primeiríssimo episódio poderia afinal não ser bem aquilo que todos tinham concebido dentro das nossas mentes mais ou menos estereotipadas (como de resto acontece na sociedade em geral).

As pistas para o que viria a seguira intensificam-se, quando num certo episódio essa personagem descobre que há um bar na cidade onde se encontram todos os aliens (neste caso, literalmente, seres de outros planetas), porque só aí se sentiam seguros... e longe do preconceito e da alienfobia que viviam lá fora. O paralelismo aqui presente é mais do que óbvio, certo?

Mas para não deixar escapar isso a ninguém, logo nessa cena uma outra personagem revela ser lésbica (num diálogo absolutamente natural) e deixa logo assente aquilo a que se propõe o show a partir daí.




Ao ser exposta a tanta liberdade e abertura de espírito, a agente Danvers (irmã da Supergirl) começa então a questionar a sua vida até então. E o espectador acompanha-a. De facto foi sempre uma personagem que desde o início nunca teve uma vida social para além da convivência com a sua irmã e amigos, sendo sempre muito focada no trabalho, sem grande tempo para nos dar sequer espaço para indagar sobre a sua vida pessoal mais íntima. E então tudo começa a fazer sentido. 

Ao perceber que afinal é também ela própria diferente da maioria, ao ver que há ali naqueles aliens algo que se aproxima de si, a agente Danvers leva-nos para algumas das cenas de coming out mais bonitas e tocantes de que há memória.

E porquê?

No vídeo que vou partilhar aqui podem entender melhor, ouvindo o diálogo das duas irmãs, mas aquilo que mais me emocionou foi ver que os guionistas tiveram a audácia de tocar aqui num ponto que muitas vezes é posto de lado, injustamente. E esse é o ponto de vista é o das pessoas a quem nós fazemos o nosso coming out, que nem sempre sabem como reagir (mesmo quando nos aceitam plenamente). Mas a Kara Zor-El, a Supergirl, vai mais longe e pede desculpa por nunca ter dado espaço para que no seu crescimento juntas pudessem falar naturalmente sobre a homossexualidade, mesmo quando ela própria vivia algo semelhante ao ter de esconder do mundo uma parte de si própria (afinal ninguém poderia saber que ela tinha superpoderes)

A vida é cheia de metáforas e artifícios que usamos para contornarmos várias dificuldades do nosso dia-a-dia, tornando-as assim muitas vezes mais aceitáveis. Não é que tenhamos um poder especial para o fazer. E aqui está uma das heroínas mais poderosas da terra a mostrar-nos que até ela não sabia como lidar com uma situação destas. O seu desconforto é perfeitamente justificado. 





Talvez muitos e muitas não saibam, mas a DC Comics sofreu um vil ataque nos anos 50 do século XX, quando o conceituado psiquiatra Frederic Wertham publicou uma tese em que afirmava que as histórias de Batman e Robin estavam a tornar as crianças homossexuais. Sim, isto aconteceu e foi dito e escrito por um dos psiquiatras mais reconhecidos da altura! E foi tão grave que a DC, para não perder nas vendas de livros,  teve que reformular os seus comics e introduzir à força a personagem Batwoman, como par romântico do Batman, de forma a afastar essas afirmações falsas de que haveria um romance gay entre o Batman e o Robin. Só que a introdução da Batwoman foi tão forçada que a própria DC decidiu matá-la anos depois... para a fazer reaparecer no seu universo, muitas décadas passadas (e já nos anos 2000), como uma heroína lésbica.

Não é brutal? A DC encontrou uma forma de se vingar de tamanha injustiça e não só o fez em grande estilo criando uma obra de referência, como aproveitou para afirmar com toda a garra que luta e lutará pela visibilidade das minorias.

Agora digam-me, como poderei não amar? Não escondo de ninguém, no mundo da banda-desenhada a DC e o Batman sempre foram os meus amores desde criança (se aquele psiquiatrazinho descobre isto!). Então imaginem o que é perceberes que a tua editora favorita tem vindo a mostrar cada vez mais apoio à tua própria causa? É que quando me apaixonei pelo trabalho que desenvolviam não fazia a mínima ideia de que um dia sentiria toda esta abertura em relação a temas tão frágeis. 

Os heróis são reais, afinal. E não me digam o contrário. Pois sei bem a esperança que pode significar, no seio de uma família, ver uma cena destas na televisão a mostrar-nos que não há nada a temer em sermos nós próprios... com super poderes ou não.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

[ livro em destaque ] Olhos de cão azul - Gabriel García Márquez



Todas as quintas-feiras vou trazer-vos uma sugestão de leitura, que pode ser de um livro clássico ou mais recente, independentemente do género ou autor, desde que não seja um dos livros mais falados do momento (vocês sabem, aqueles que geram o buzz mediático entre leitores). A ideia é dar destaque a obras que não devem ser esquecidas. 


Hoje trago-vos um livro de Gabriel García Márquez (prémio Nobel da Literatura em 1982)

Olhos de cão azul é uma colectânea de vários contos que o autor publicou entre 1947 e 1955, sendo que um dos temas principais destas histórias é a morte.

Pelo menos é essa a ideia com que ficamos quando já vamos a meio da leitura e começamos a entender que os contos parecem sempre debruçar-se sobre esse tema, de uma forma por vezes muito fantasiada e plena de imaginação, mas que ainda assim não escapa ao realismo das questões humanas que rodeiam a finitude da vida. 

Destaca-se uma escrita que penetra na consciência (pós-morte ou em vida) de alguns personagens, com um estilo a que nenhum leitor ficará indiferente.

É um óptimo livro para quem quiser experimentar pela primeira vez algo deste autor e ficar assim a conhecer melhor os seus devaneios sobre os problemas existenciais numa escrita embrenhada em fantasia realista. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

[ opinião - música ] Lady Gaga - Joanne




Em 2016 cumpriu-se a temida profecia, Lady Gaga afastou-se da Pop e trouxe-nos um álbum de rock (com muito country e indie-rock), deixando assim milhares de fãs desesperados pelo hino pop que não veio para agitar as pistas de dança habituais. O Apocalipse Pop chegou!

É verdade que Joanne é muito diferente de tudo o que já fez, mas não esqueçamos as suas incursões no jazz (ao lado de Tony Bennet) ou mesmo os diferentes estilos musicais que já tinham sido experimentados em Born This Way e versões live de alguns dos seus hits

E atente-se no seguinte. Gaga acaba de provar, mais uma vez, que é provavelmente a artista mais versátil destes tempos. Dona de uma voz poderosa, ela será também dona da sua carreira e este álbum parece ser mais uma afirmação disso do que um querer seguir as tendências musicais do momento.

Talvez seja injusto comparar trabalhos tão diferentes entre si, mas há algo em Joanne que se destaca logo. É a música Sinner's Prayer, muito melhor do que qualquer faixa do terrível ARTPOP.

A-yo, Diamond HeartDancin' in CirclesMillion Reasons são outras faixas que se juntam para justificar que este é um álbum magnífico

Não lhe escrevi uma crítica aquando do seu lançamento por uma razão óbvia. Tive logo a certeza de que precisaria de algumas semanas para largar a Gaga do Pop (que afinal nem me tinha convencido com os excessos electrónicos do último álbum). E assim Joanne começou a crescer em mim.

O facto de apreciar rock e algumas sonoridades do country ajudaram muito a que assim fosse.




Desengane-se quem achar que encontrará aqui a extravagância de outros tempos, seja a nível visual ou sonoro. Prova disso é a simples dive tour, desprovida do grande aparato, que fez pelos bares em Nova Iorque.  E talvez nenhuma canção se destaque ao nível de se tornar um hit intemporal como Bad Romance ou Poker Face (e lá vimos nós com as comparações!)

Mas a produção é de ouro, com melodias e letras que dificilmente nos largam.

E nisso devemos louvar-lhe o seguinte, não há uma única faixa que não tenha a assinatura Germanotta, como prova de que ela foi maestra desta criação.

Só o tempo dirá onde cairá este trabalho, se no esquecimento ou nos tops dos fãs (novos e antigos)

No meu top pessoal este fica, para já, só atrás do épico ep The Fame Monster.

E noutras considerações, nunca vi esta artista ao vivo porque não existia apelo suficiente, e se a oportunidade chegar, não deixarei escapar um espectáculo de promoção deste álbum. Com isto disto, escusado será acrescentar mais qualquer coisa. 

Hereee we go!







domingo, 27 de novembro de 2016

[ opinião - cinema ] Arrival: O Primeiro Encontro





"Doze naves extraterrestres chegam a vários pontos do mundo e uma tradutora e especialista em linguística é chamada pelo governo dos EUA para se deslocar com uma equipa ao interior de uma das naves, de forma a tentar entrar em contacto com os alienígenas e entender o propósito da sua visita. Vêm em paz? São uma ameaça?"


Arrival (O Primeiro Encontro) é provavelmente o melhor filme deste ano. E um dos filmes mais inteligentes que já vi. 

Dizê-lo assim pode parecer suficiente para levar qualquer um a vê-lo, mas agora entramos noutro campo. Este é um filme de ficção científica pura e dura, daquela que te obriga a pensar, que te dá mais questões do que respostas óbvias, mas que te faz sair da sala de cinema completamente atordoado.

Foi o que senti. Saí de lá incrédulo com o que tinha acabado de ver.

Não esperam explosões de 5 em 5 minutos nem naves supersónicas a sobrevoar os céus a cada cena. 

Elas, as naves, estão ali paradas... com a mesma inércia que o filme parece ter na primeira metade, quando tudo ainda nos parece estranho, confuso e escuro, ainda que empolgante. 

Depois vem a revelação final, quando o filme inicia gradualmente a ganhar mais cor e tu começas aos poucos a entender tudo o que te estão a contar desde o início. E é arrebatador.




Afinal esta poderá ser uma história mais sobre a família, a dedicação e a (in)compreensão humana. Mas debater isso aqui seria levantar demasiados spoilers e não o quero fazer.

Por ser uma obra de um género muito específico, esta película e as questões que levanta passarão ao lado dos espectadores menos atentos e que não buscam este tipo de filosofia numa sala de cinema. Mas aí está Arrival a dizer-nos que nem tudo está perdido no cinema americano das grandes bilheteiras.

Destaque ainda para a actriz Amy Adams e o actor Jeremy Renner, que nos trazem prestações de peso e ajudam a acrescentar muita densidade à história. E um grande aplauso também para a direcção e realização com planos e perspectivas que enchem a vista, sempre acompanhadas por uma banda-sonora de excelência. 

Para ver. Pensar. Rever. E repensar. 

E que venham daí as merecidas nomeações aos Globos de Ouro e Óscares. 


sábado, 26 de novembro de 2016

DEIXA-ME SER: comentário sobre o livro



Acredita quando digo que tenho recebido só amor e uma força muito positiva sobre o livro. Muitas mensagens foram escritas, daquelas de arrepiar. Muitas palavras me foram ditas frontalmente, sempre vindas de pessoas de lágrimas nos olhos, orgulhosas de puderem mostrar-me o seu apoio.

E a todas estas pessoas estou muito agradecido. Escrever é bonito. Publicar um livro, dá-lo a ler toda a gente, é muito mais do que bonito. É outro nível da tua existência como escritor. É receber pensamentos que te levam mais adiante, que te fazem questionar e repensar aquilo que tu próprio escreveste. Há uma certa magia nisso, sabem? Como se fosse alguma partilha transcendente entre quem inventou aqueles textos e quem os quis ler. Então neste livro, por ser de cariz biográfico, isto intensifica-se. E hoje trago-vos parte de um longo texto que me foi enviado por um dos leitores deste "Deixa-me ser".

Com a devida autorização, partilho-o aqui, juntamente com algumas informações. O Pawel, quem escreveu o que vão ler, é um jovem que eu não conhecia... até ao dia do lançamento do livro em Lisboa. Ele foi lá para assistir e comprou um livro no final. O Pawel não é português (já tinhas desconfiado pelo nome, não é?). Por que friso esse aspecto? Bem, tal como ele, eu sei muito bem o que é estar longe do teu país, da tua língua, da tua zona de conforto, etc. Também sei o que é chegar a outro país e de repente surgir aquele receio de "Como serão tratados os temas LGBT aqui? Que tipo de aceitação há? Que tipo de discussão se levanta?". É que nós, os diferentes, teremos sempre que pensar nesses pormenores, sabes? 

Logo tenho muito Orgulho de que ele tenha lido o meu livro numa língua que não é a sua... e de que me tenha dirigido palavras tão certas e tão bem redigidas sobre a minha obra. É disto que falei antes, de levantarmos novas questões, de analisarmos outros pontos de vista. E de assim andarmos todos juntos em frente.

A ele agradeço por tudo o que me disse, porque embora eu não seja religioso, devo reconhecer o seguinte: sou um ser muito abençoado. E quando lerem as palavras dele, já vão entender porque digo isto.

Seja sorte, resultado da minha luta, seja o amor. Ninguém me convence do contrário, há uma Força muito grande por detrás disto tudo.

E ele escreveu então assim:

"Caro Filipe,
Há duas horas terminei a leitura da tua autobiografia e, se não te importares, queria partilhar contigo algumas das minhas impressões e observações. (...)
A meu ver, todo o relato daqueles (quase) dez anos da tua vida é muito comovedor, especialmente as primeiras páginas onde descreves as tuas experiências que de todas as formas foram muito dramáticas. Nem eu desejava ao meu pior inimigo que tivesse passado por coisas parecidas. Graças a Deus, foste salvo, tanto por ti mesmo como pelos teus familiares e amigos, para realizar vários projectos de grande valor, entre os quais se encontra o teu livro.
(...) Primeiro, é um facto indiscutível que a homofobia e o discurso de ódio em relação às pessoas não-heterosexuais continuam a ser presentes na nossa sociedade, seja em Portugal, seja na minha terra natal, ou em qualquer outra parte do mundo. Felizmente, cada vez há mais pessoas como tu, que começam a falar em voz alta sobre a necessidade de reconhecer os direitos das pessoas LGBT para que elas sejam aceites plenamente na nossa sociedade. Tenho a certeza absoluta de que o teu livro será um grande apoio para muitas pessoas, ajudando-as a acreditar que ser pessoa LGBT é algo absolutamente normal.
Depois hei-de te confessar algo mais privado acerca das minhas observações: acredita... nunca tive problemas nem dificuldades por ser gay, seja em família, seja entre amigos. Sem dúvida, o maior contraste entre as nossas experiências consta na atitude do pai: o meu aceitou-me sem maior obstáculo. Claro, tenho a certeza de que ele preferia que eu tivesse uma namorada e, em seguida, um lar com futuros filhos que seriam seus netos, pois ele sempre sonhou em ter uma família numerosa. Mas sabe que a minha vida é só minha e que os dois precisamos um do outro.
O que quero dizer é que a leitura do teu livro me permitiu apreciar de maneira completa e evidente a vida e as experiências positivas que tenho tido nos assuntos que uma pessoa homossexual pode ter.
Termino já esta pequena redacção para não cansar demais os teus olhos. Fica a saber que és um grande herói, podes crer!
Mando-te um grande abraço."