sábado, 12 de agosto de 2017

O dia em que quase nos afundamos no mediterrâneo



Dia de folga. Eu e os meus colegas de trabalho decidimos todos que seria um bom dia para fazer um passeio de barco no mediterrâneo. 

Então fomos até à nossa praia favorita e alugamos um pequeno barco para 7.

 O mar estava super calmo, como sempre está aqui no sul da ilha da Sardenha. O sol brilhava. Tudo perfeito para uma tarde bem passada a descobrir praias selvagens ao longo da costa com o nosso barquinho fantástico. 

Dois de nós já tinham experiência a conduzir este tipo de barco, então muito simpaticamente no aluguer lá nos explicaram, os responsáveis, como chegar aqui e ali, o que fazer e o que não fazer. Até nos deram um mapa.

Agora vamos olhar para esta foto que tirei na praia momentos antes de embarcamos. O mar era este. Uma piscina, por assim dizer. 



Mas realmente durante a explicação de segurança... fomos avisados de que algures no lado direito da ilha poderíamos encontrar alguma turbulência no mar. Então...

Lá partimos. Sorrisos, sorrisos. Uma vista fantástica sobre a costa. E avançamos mar adentro.

Do mar tranquilo começam a surgir algumas ondas. A água tem de repente uma movimentação diferente. Em menos de 10 minutos já estamos todos molhados dos pés à cabeça. Mas ok, faz parte, pensamos. Ao fundo vemos já a praia escondida onde queremos chegar. Falta pouco. O mar agita-se mais. Vem outro barco, bem maior e mais imponente, que passa demasiado  próximo de nós, fazendo com que as ondas aumentem. 

Uma colega aperta-me a mão com medo e eu rio, digo que devemos estar tranquilos, que não é nada.

De repente vem uma onda tremenda e o barco enche-se de água. Os nossos pés estão imersos. E mais, cada vez mais água.

A tranquilidade no grupo está quase acabada, à parte de duas pessoas. Eu e outra colega... que decide estender-se na proa a apanhar sol... ENQUANTO O BARCO CONTINUA A METER ÁGUA! Curiosamente, de todo o grupo nós somos os únicos que por hábito fazemos meditação. Então acho que a terapia zen afinal tem mesmo efeitos práticos (tendo em conta que estava quase a morrer e não estava muito preocupado NÉ!).

A única foto que consegui registar na atribulada viagem.


Volto a rir, digo que pelo menos é divertido, enquanto tento mandar água de volta ao mar com as mãos em conchinha, com outro dois colegas. É um pouco ridículo mas estranhamente tem efeito. O volume de água diminiu. E já estamos a voltar para trás, fugindo da turbulência. O mar acalma. Vejo um saco de plástico das compras a boiar e uso-o para tirar litros da água aos nossos pés. Saco a saco, a água começa a desaparecer. Uma ideia de génio, se me permitem dizê-lo.

A tranquilidade parece voltar mas... o motor começa a fazer barulhos estranhos. De repente parece não querer avançar. A marcha torna-se lenta. E o barco pára no meio do mar! Ao fundo vemos a praia de onde partimos.

Tentamos ligar para o número de segurança. A rede telemóvel não funciona. Tentamos outra vez. Ouvem-nos mal. Parece um filme. Ficamos sem uma resposta e sem saber que fazer.

Já estava a imaginar tudo. O barco afunda-se, que nem um Titanic improvisado. "Jack, Jack..."
Penso se não será melhor abrir o facebook e escrever um post de despedida aos amigos e família... mas Oops, o meu telemóvel está todo molhado e não se liga sequer. 

Aceito o meu destino. Outro colega ri. Outros estão quase em pânico. "Não é mau de todo submergir no fundo do mar com uma panorâmica lindíssima sobre a costa sul da Sardenha..." - penso. 

E então vemos ao fundo uma moto de água que acelera na nossa direcção. É o nosso salvador, um dos responsáveis pela segurança dos barcos. Em poucos minutos já está connosco, abre tudo, examina, vê o motor, faz caras de preocupação. 

"É uma avaria. Temos que voltar a terra" - diz-nos.

E com uma corda atracada à sua moto de água lá nos vai puxando o barquinho, cujo motor insiste em não dar sinais de vida.

Desembarcamos. E aqui o verdadeiro medo chega. Será que vamos ter que pagar pelo arranjo do motor?!

Será que vamos ter que ficar a trabalhar aqui para resto da vida para pagarmos os estragos causados?

Não! Todos os responsáveis pelo aluguer nos vêm falar. Super simpaticos e preocupados, profissionais, de um cuidado que (nota-se bem) é parte de uma família que vive deste trabalho há muitos anos. 

Para além de nos devolverem o valor do aluguer, algo que nós nem pedimos, ainda nos oferecem um passeio num dos insufláveis e outro desconto para a próxima vez que alugarmos outro serviço.

É inacreditável. E logo aí sobem para o topo da nossa consideração. Acabamos em mil agradecimentos. Grazie grazie grazie!

Ao fim já rimos todos, meio incrédulos, meio em êxtase, mas seguros de que temos agora uma bela aventura para contar aos amigos... ou aos filhos e netinhos.

Lá confesso a minha alegria. "Finalmente tenho uma história para escrever no blog!! Há tanto tempo que não acontecia nada e eu bem pedi qualquer coisa que me inspirasse..."

É um coro: "FILIPE A CULPA É TUA!!!".

Se a culpa é por ter tido um dos dias mais divertidos aqui, então eu assumo. :)



sexta-feira, 16 de junho de 2017

19 dias a viver na Sardenha: primeiras impressões




O primeiro impacto aconteceu quando ainda estava a sobrevoar a ilha nos momentos que antecederam a minha aterragem no aeroporto de Cagliari.
Já com os pés assentes em solo italiano, dei por mim envolvido na emoção de regressar a um país que me roubou o coração no ano passado.
Sabia de antemão que este regresso e esta nova experiência seriam diferentes de tudo o que já tinha vivido aqui.

E essa diferença começa logo num factor físico ou geográfico,  pelo facto de estar na Sardenha,  uma ilha que em tudo é diferente daquilo que conheci em Itália  (continente).

Neste post não falarei do trabalho que estou a desenvolver e vou antes concentrar-me na natureza que aqui encontrei.

Praia Le Dune

Praia Le Dune.


Sem rodeios. De tudo o que vi nestes 19 dias e considerando que talvez tenho visto uns 5% da ilha (é enorme), posso afirmar que a beleza das paisagens sardas é algo que não tem comparação.

Das praias com água cristalina às montanhas que rodeiam a costa, onde se esconde o Sol ao fim da tarde, não há um único canto que não te deixe rendido. O verde contrasta com o azul claro do mar e estares a relaxar num banho na praia Sul Giudeu enquanto observas os montes altos que se estendem ilha adentro é uma sensação indescritível. Mas há mais. Caminhando para fora da areia branca, em direcção ao verde, encontra-se uma lagoa grande com flamingos. É difícil explicar e nem há fotos que lhe façam justiça,  mas vou tentar: a lagoa e o mar estão separados pelo areal numa pequena distância de 500 metros. Do mar vê-se a lagoa e da lagoa vê-se o mar. É absolutamente arrasador.

Algumas fotos da praia Sul Giudeu, na localidade de Domus Maria, Chia.



A lagoa!





Por curiosidade esta foi eleita a praia mais bonita de Itália no ano passado. E percebe-se exactamente porquê quando ali se chega.

Eu emocionei-me e rendi-me.

Toda a tranquilidade estava ali.

terça-feira, 16 de maio de 2017

"Até namorava contigo"



Certo dia... estava a jantar com dois amigos e a nossa conversa foi revisitar o capítulo que falava sobre nós estarmos solteiros

Essas passagens, para mim, tinham tanto de aborrecidas como de imprevisíveis. Sabia sempre o que vinha a seguir, mas podíamos terminar em lamentos ou em festejos. Um de nós podia estar perfeitamente feliz assim, enquanto outro podia ver-se perdidamente triste por não estar numa relação. 

Mas dessa vez houve uma frase que nos levou a uma profunda discussão, que espero não replicar. 

"Eu até namorava com ele." - disse-nos.

"Até? No sentido de que te submetias a isso? Como quem seria capaz de ir até aí só porque tem de ser?" - perguntámos. 

E daí veio então uma infinita desconstrução dos problemas mais ou menos sérios que podiam vir de um "até o fazia".  

Só concordámos que essa afirmação estava mesmo ligada a uma certa pressão para que tenhamos uma vida a dois. Mas nos nossos e em tantos casos não nos parecia muito aceitável essa ditadura do 1+1

Fazíamos outras contas. E o resultado nem sempre era 2. Variava muito, porque se tratava de uma ciência pouco exacta. 

E continuando com a matemática, já perdi as contas aos números de vezes em que alguém chegou e perguntou "Então JÁ namoras?", calcando novamente aquela obrigação de o fazer.

Muitas vezes respondo mas nem desenvolvo. Primeiro porque posso de facto estar numa relação e não ter que a declarar num género de actualização no perfil do facebook. E depois porque essa questão traz sempre muitos pressupostos que me chateiam. 

Tens uma certa idade. Tens isto, tens aquilo. Devias ter mais juízo. É porque tens medo. É porque sofreste no passado. É porque está na hora. É porque sabe-se lá porquê. 

E até é engraçado observar as razões que te apontam, quanto tu nem sabes exactamente justificar o quereres estar assim.

Mas isso de querer mesmo começar algo, a sério, não deve vir do teu íntimo? Não é um sentimento qualquer que deve despoletar isso? Ou é realmente um "até" baseado numa frágil regra social que deve levar-te ao refúgio em qualquer coisa só porque tens que entrar numa determinada normalidade formatada?

Será que a maioria das pessoas sabe que é possível ser-se feliz sozinho? 

Seriamente, às vezes coloco essa pergunta à minha frente e acabo sempre a rir de mim próprio e dos outros, porque parece-me demasiado rebuscado imaginar que uma maioria não chegou nunca a perceber tudo o que de bom há em viveres só contigo, embora isso possa ser mesmo efémero, como um ano, um mês, uma semana, umas horas. 

E isso pode até ser uma viagem, um descobrir de um lugar onde vais tu e onde aprendes algo novo, nem que seja que os teus pensamentos, ausentes dos ruídos e rumores de outras vozes, podem mesmo ser teus bons e fiéis companheiros. 

Basta que seja só o tempo suficiente para pelo menos descobrires que jamais deves deixar que o medo da solidão te guie por onde não deves ir. 

No fundo é básico. Cada um deve é estar como se sentir bem. E o resto são só aborrecidas contas que não resolvem problemas. 


terça-feira, 25 de abril de 2017

O mundo pode ser um lugar horrível



"13 Reasons Why conta a história de Clay Jensen, um rapaz que encontra na porta da sua casa um misterioso pacote com o seu nome. Dentro, descobre várias cassetes áudio. Ao ouvir dá-se conta de que elas foram gravadas por Hannah Baker, uma amiga que cometeu suicídio. Nas cassetes, Hannah explica que existem 13 motivos que a levaram à decisão de se matar. Clay é um desses motivos. Agora ele terá de ouvir tudo até o fim para descobrir como contribuiu para esse trágico acontecimento." (Wikipédia)

SEM SPOILERS


Ironicamente, a questão que tinha sempre era "Porquê?", exactamente o título assim escancarado na minha mente. Por que é que a Hannah tinha decidido morrer? As razões (as 13 cassetes) iam sendo reveladas e eu sabia que tinha que haver algo pior, muito grave, para o justificar. Quando chegas aos episódios finais só dá para ficares destruído, num limbo qualquer entre a realidade e a ficção.

Não é uma série que possa aconselhar vagamente a alguém. Vê, mas só se estiveres emocionalmente e psicologicamente preparado/a para o fazer. Há cenas demasiado fortes, que podem despertar sentimentos terríveis, principalmente a quem já passou ou está a passar por algo semelhante (como uma depressão). Mas por outro lado este é um trabalho excelente sobre a necessidade de chamarmos a atenção para um assunto tão delicado como o suicídio. E não só. Não quero fazer spoilers, mas há aqui tantos assuntos que são explorados de uma forma brutal.

Disseram-me que não devíamos permitir que jovens vissem esta série sozinhos. E há alguma verdade nesse erro de não querermos expô-los a estes temas. Mas talvez o devam então fazer com os pais, professores, amigos, etc. Talvez não seja apropriada para quem esteja a viver momentos em que questiona a sua própria existência. E o suicídio é afinal um tema de que ninguém sabe falar. Ninguém consegue falar-te directamente disso. E quando tu o fazes, é mais fácil camuflar e "get over it". E até isso é literalmente retratado num episódio.

Aconteceu comigo o mês passado. Estava num auditório a apresentar o meu livro "Deixa-me Ser", onde falo abertamente da minha tentativa de suicídio, e quando tirei um momento para falar disso à centena de alunos e professores ali presentes, instaurou-se logo um silêncio congelante. A minha confissão, o meu "sim, eu fiz isso" caiu como uma bomba que alterou subitamente as suas expressões, colocando-me logo naquele papel de não saber se devia insistir para ver se obtinha outra reacção ou se devia simplesmente fazer uma piada ligeira e avançar para outro assunto um pouco mais confortável.

Adivinha o que fiz.

Mas a verdade é que o assunto ficou lá, como algum alerta, não tenho dúvidas disso. 

E 13 Reasons Why deve ser vista exactamente como esse alerta, esse grito de compreensão e que apela a um trabalho conjunto mais eficaz entre filhos, pais, professores, psicólogos e... autoridades. 

Por vezes temos que chocar assim de frente com o realismo para sermos capazes de nos entender a tempo, sim, antes que seja tarde demais.




quinta-feira, 20 de abril de 2017

A homofobia mata: testemunho de uma mãe


Com a publicação do Deixa-me ser, um livro autobiográfico aberto e directo, tenho recebido muitos e-mails de outras pessoas que se revêem na minha história ou que simplesmente querem aproveitar para desabafar sobre as suas próprias histórias nesta sociedade que, embora muitas vezes se pense o contrário, continua a ser ainda muito homofóbica e transfóbica. Assim, recebi um testemunho muito tocante de uma mãe que faz parte da AMPLOS (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual). É uma "mãe da AMPLOS", com nós gostamos de lhes chamar, porque lhes dá logo um sentido mais terno, que nos aproxima, como se fôssemos todos uma extensa família. 

Com a devida autorização, partilho aqui o seu texto, sem referir nomes, datas ou locais, por questões de privacidade.

Da minha parte, um imenso Obrigado, pois é extremamente gratificante receber estas palavras e poder partilhá-las, sabendo que elas poderão ser a esperança de alguém que passe pelo mesmo. Que se reflicta, que se pense bem sobre a enorme injustiça que é uma família inteira passar por isto só porque uma maioria continua a achar correcto que se perpetue o preconceito. 

E a carta que me escreveu dizia assim:

“Enquanto lia as tuas páginas de vida, no teu livro, fizeste-me reviver o meu passado, devido às impressionantes semelhanças em quase todos os aspectos. Na mesma cidade onde tu viveste, também eu deixei o meu filho num apartamento a ser partilhado com mais dois estudantes. Foi nessa cidade que o P. com 18 anos descobriu quem era. Estava sozinho. Com 19 anos decidiu sair do armário e revelou-o à sua família. O pai não aceitou, tal como o teu. Assim, as portas do armário abriram-se novamente para entrar toda a família e ficarmos lá por um tempo, fechados.
O P. ficou muito doente. Focaste o espelho na tua história. O P. tinha um pequeno espelho que nunca largava e constantemente via o seu reflexo nele, mas nunca gostava do que via. Maquilhava-se, usava um batom vermelho vivo, mas tentava esconder-se, sempre de cabeça baixa para ninguém o encarar. Não se deitava sem o batom. Quando voltou para fazer o 2º ano, o P. estava num estado lastimável, todos os dias telefonava-me em pânico. Eu mandava-lhe mensagens a qualquer hora na tentativa de acalmá-lo. 
Nas férias de Verão o P. também fez o mesmo que tu, tentou suicidar-se. Tomou à volta de 60 comprimidos, antidepressivos, receitados pelo médico de família. Levei-o ao hospital. Quando os médicos me deixaram vê-lo, ele só queria que lhe desse o espelho e o batom. Teve de abandonar os estudos. Enquanto isto, a irmã dele sofria em silêncio. Senti que estava a negligenciar a minha filha, a minha atenção era toda para o P. Mas ela nunca me cobrou nada. Ela sem o saber dava-me ânimo para continuar a lutar. 
Imagino o que deve ter sentido a tua mãe, repara, lidar com a homofobia do marido, a preocupação de se tudo isso estava a afectar a filha e ter de cuidar do filho que se encontrava em sofrimento, doente. 
Por tudo isso, também cheguei ao meu limite (chorava de noite e de dia). Não aguentava mais ver o meu filho naquele estado de sofrimento. Não adiantou o tratamento nem o internamento no hospital psiquiátrico, de onde o P. chegou a fugir, imagina! Nada estava a resultar. Cada vez ficava pior. Eu já começava a desistir, sentia-me tremendamente sozinha. Uma vez falei com uma amiga e começo a chorar, ela sabia mais ou menos pelo que estava a passar, não tudo. Essa amiga só me dizia que eu não me podia ir abaixo pois eu era o pilar da casa, se eu desistisse a minha família desmoronava. Por essa altura já tinha contactado a AMPLOS e era muito apoiada moralmente. Davam-me força, mas claro, só eu podia resolver a minha situação. A homossexualidade não era problema para mim, o problema era a doença mental, depressão, que o P. tinha e que me estava a preocupar bastante.
(...) Resolvi levar o P. a outro psiquiatra. Por essa altura, ele não falava com ninguém, não saía de casa, fechava as persianas com medo de ver gente, mal comia, não dormia nem de noite nem de dia. Para sair de casa e se apresentar na consulta, usava uma camisola com capuz, amarrava o capuz para tapar o máximo da face dele e punha uns óculos escuros, não se via a sua cara. Na primeira consulta falei com o psiquiatra a explicar tudo. Quando acabei, o médico, em primeiro lugar diz que a homossexualidade não é considerada doença e que para isso não há tratamento algum. Também a medicação que o P. andava a tomar não seria a mais indicada, não se via nenhuma melhoria no seu estado de saúde depois de passado tanto tempo de tratamento. Posto isto, soube que estava em boas mãos. Aos poucos ele foi melhorando. Trocou várias vezes de medicação até acertar. Até hoje continua em tratamento.
A cumplicidade entre o P. e a irmã aos poucos foi restabelecida. Sempre foram muito chegados, mas com a doença até da irmã se tinha afastado.  A relação com o pai nunca foi muito chegada e continua assim. Hoje falamos abertamente uns com os outros, mas o pai do P. ainda só espreita através do armário. Isso entristece-me muito. Por isso, fico muito feliz por ti e pelo teu pai, por ele por fim ter aceite e se terem tornado mais próximos.
Chorei quando li aquela parte do teu pai em que muito simpaticamente cumprimentou o teu namorado como se nunca tivesse existido um passado desolador. Chorei quando mencionaste que foste fazer uma formação em Aveiro (formação de oradores para o Projecto Educação  LGTBI da rede ex aequo). Formação essa em que só havia pessoas como tu (como descreves no livro), mas onde não estavam sós, pois tinham ido duas mães e um pai da associação chamada AMPLOS. Foi o melhor fim de semana da tua vida (como o referiste). E para mim também foi. Nunca me tinha sentido tão à vontade num grupo, apesar de ser a minoria entre vocês. É uma recordação muito bonita que vou ter para sempre.
Hoje sinto-me uma afortunada de ter um filho gay. Se assim não fosse, desperdiçava a oportunidade de abrir os olhos e ver o mundo como realmente é. Nunca teria conhecido pessoas fantásticas como tenho conhecido até aqui. Tenho aprendido imenso. Obrigada por existires, a tua atitude perante a vida vai ajudar muitos jovens e vai ajudar a mudar mentalidades para melhor.”

_
Links:
site da AMPLOS: http://www.amplos.pt/
site da rede ex aequo: https://www.rea.pt/

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Podia ficar




"Tu podias ficar".

É a frase que mais ouvi e mais vi nos olhos de quem se preocupa comigo e me queria ao seu lado. Nestas vésperas de ir embora e seguir outros sonhos é isso que mais escuto.

E é claro que sim, eu podia ficar. 

Podia evitar as despedidas e deixar-me estar no lugar de (quase) sempre. Podia perfeitamente não ter que passar por aquele imenso trabalho de fazer as malas e escolher todas as t-shirts de que mais gosto, mesmo sabendo que no fim nem vai caber tudo nos limites restritos da companhia aérea. 

Também fugiria ao peso das datas em que já não estarei por cá. No outro dia, ao caminhar pela rua, vi o cartaz de um evento onde queria mesmo ir e depois... a data. "Esquece. Já não estás cá", disse a mim mesmo enquanto revirava os olhos naquele recordar de que estou constantemente a passar por isto.

Mas porque quero. A minha mãe costuma dizer que desde que saí de casa, quando fui para a universidade, nunca mais me deixei ficar por muito tempo no mesmo sítio. 

Hoje já perco as contas sobre quantas vezes fui e voltei, de quantas malas desfiz, de quantos lugares quis conhecer pela primeiríssima vez sempre naquele misto de esperança e confusão sobre todas as novidades, os novos hábitos, novas pessoas... e até novas línguas. 

É óbvio que é incomparável o que foi ir viver para a Covilhã e o que foi voar até Forlì na Itália, só para pegar em dois exemplos.

E mais incomparável será este novo passo, que é voltar a Itália mas abraçando um projecto totalmente diferente de tudo o que já fiz.

Às vezes surge um leve sentimento de culpa, o de saberes que vais deixar outra vez tudo o que é teu, para procurares, sabe-se lá onde, algo mais que te venha a pertencer.

Mas depois lembro-me que a vida é tão curta para não correr atrás da aventura enquanto tenho condições para o fazer. E compreendo quem quer ficar, tal como tento compreender as mil e umas razões para eu não o fazer. Uma delas é bastante espiritual ou metafísica, tão forte quanto haver um ser que quer procurar novas energias que lhe tragam outro equilíbrio. 

E nesse equilibrar pesarão todas as saudades que irei ter. Aquela falta da família, dos amigos e da minha irmã vai voltar, mas com ela deverei (uma vez mais) aprender a conviver. Aprende-se tanto, mas tanto com isso. Digo-o com bastantes anos de experiência, posso até fazer um CV sobre isso se quiserem.

Mas como não tenciono escrever aqui um livro sobre o assunto, correndo o risco de justificar ainda mais esta leve loucura, rendo-me então a uma música italiana que diz muito sobre isto. Arrisco aqui uma pequena tradução que diz assim:

"Leva-me daqui
de cada ângulo de tempo onde não encontro mais energia.
Amore mio, leva-me daqui
se houver um muro demasiado alto para ver o meu amanhã
e me encontrares aos seus pés com a cabeça entre as mãos.
Leva-me, se entre tantas vias de saída eu me pergunto qual será a certa.
Quem sabe qual é?
É imprevisível". 

É... Imprevisível devia ser o meu nome do meio. :P









quarta-feira, 5 de abril de 2017

7 coisas de que NÃO GOSTEI em Itália



Já toda a gente sabe que amei Itália de uma forma muito especial, tal como já mostrei muitas vezes noutros post. Mas não há amores perfeitos e chegou a altura de falar de algumas coisas que me fizeram arrabbiare (ou ficar de nervos em franja)  durante os 10 meses que lá vivi no meu projecto do Serviço Voluntário Europeu. 

Uma vez que estou tão perto de regressar àquele que considero já ser o meu segundo país, nada melhor do que olhar para estes pontos e preparar-me para (pacificamente) viver diariamente com eles... outra vez! :D



1 - O trânsito. Há preconceitos e estereótipos que por muito que se queiram negar estão sempre lá para nos lembrarem que, sim, há uma razão para a sua existência. Em cidades grandes, como Roma, é o caos! Mas caótico mesmo, ao ponto de não seres religioso e ainda assim rezares pela vida de cada vez que vais atravessar a estrada... na passadeira! Os carros muitas vezes não param no vermelho, muitos infringem outros sinais de proibido, as tradicionais vespas conduzem por todo o lado a grande velocidade (e se aplicares isto à cidade de Nápoles prepara-te para rir muito enquanto tentas sobreviver, desviando-te dos velocistas que passam a fundo!). Cristo Santo! Madonna!!

2 - Ritardo (o atraso). Outro estereótipo que se confirma, o de que os transportes públicos estão sempre em atraso. Foram raros os comboios que apanhei que não estivessem em atraso! Por vezes eram 10 minutos di ritardo, por vezes 30, por vezes horas! De início achei que era só má sorte minha mas depois com o tempo fui percebendo que era absolutamente normal, ao ponto de num dia estar atrasado para o comboio e ir super tranquilo a caminho da estação porque já sabia que mesmo assim ainda chegaria a tempo. Cheguei 10 minutos depois da hora de partida e ainda tive que esperar mais 15. Mamma mia!!




3 - Cinema. Não o cinema italiano em si. Amo os filmes italianos, sempre gostei, mas depois de lá estar aprendi a apreciá-los ainda de outra forma. Refiro-me neste caso ao cinema estrangeiro em que todos os filmes - TODOS OS FILMES - são dobrados para a língua italiana. Todos sabemos como é linda esta língua, mas ver Os Guardiões da Galáxia falarem em italiano é pedir-me demais. E vi vários filmes assim, desde clássicos do Scorcese aos blockbusters mais recentes. Mas não, não conseguia sequer levar os filmes a sério. Coloquei ali como exemplo o trailer do La La Land dobrado em italiano. Carrega lá no play! Nada se aproxima da versão original, seja em que filme for. Para alguém que ama ir ao cinema, como eu, isto foi uma tortura porque não conseguia sequer pagar para ver isso! E a verdade é que as únicas vezes em que fui mesmo a uma sala de cinema foi para ver os belos filmes italianos, não filmes estrangeiros com uma dobragem bastante duvidosa. Porca miseria!




4 - Vendedores de turistas. Não, não andava ninguém pela rua a vender turistas a peso. Refiro-me àqueles comerciantes extremamente chatos que nas cidades mais turísticas como Roma, Florença e Veneza, andam pela rua a impingir-te selfie sticks, pulseiras, flores e toda uma gama de produtos que tu não vais comprar. Cheguei ao ponto de ter um vendedor a colocar-me, sem permissão, uma pulseira de couro no pulso com uma mestria assustadora. É óbvio que não a comprei! Eles são tão chatos que muitas vezes fazem-te perder as estribeiras. No Vaticano, lugar de suposta tranquilidade ou altar sagrado, juro que tive vontade de agredir um homem que não nos largava com a pergunta "Queres um selfie stick por 20€? Queres um selfie stick por 20€?" enquanto me enfiava o tal stick pelos olhos adentro (salvo seja!). BASTA!

5 - Racismo, xenofobia e afins. Uma das coisas que mais gostei em Itália foi a sua diversidade, primeiro entre italianos digamos, e depois com todas as pessoas de outras nacionalidades que escolheram este país para recomeçarem a sua vida. Mas... a grande maioria dos italianos odeia estes estrangeiros e faz mesmo questão de o mostrar com orgulho. Itália tem muitos romenos, por exemplo, e estes trabalham e descontam para o Estado como todas as outras pessoas, mas a verdade é que são sempre alvo de uma xenofobia perigosa. Isto daria para um texto enorme sobre o assunto, mas como quero referir outros aspectos sociais tenho que resumir. A verdade é que a nível social e até legal, ainda há muito por evoluir lá. Os direitos LGBTI são muitas vezes uma miragem. A homofobia, o preconceito e o machismo são evidentes demais. Simplesmente esperei que de uma terra com tanta diversidade houvesse mais aceitação geral em relação ao que é diferente, mas parece que funcionou ao contrário. E nem vou entrar na guerra italiana de Nord VS Sud (Norte VS Sul) porque então teria que escrever un libro...


6 - Inglês. Mas é suposto existir outra língua para além do italiano? Como assim? Foi assustador perceber logo nas primeiras semanas que quase ninguém fala inglês decentemente, nem que seja só ao ponto de manter uma conversa de 6 ou 7 frases. Nem mesmo os mais novos estão à vontade para isso. Aqui pego novamente na questão do cinema (e da TV), pois tenho a certeza de que o facto de não ouvirem os filmes e séries de TV em inglês não os ajuda a estarem habituados à língua. É que eles estudam-na nas escolas, tal como nós em Portugal, mas depois parece que há ali uma barreira - talvez a tal falta de hábito de a escutarem - que faz com que as palavras fiquem presas e enroladas na garganta. Para quem chega e não consegue logo falar italiano, isto pode ser um sério problema. Dai ragazzi!

7 - Horários. Ir a um festival de música e arte que termina à meia-noite? Sair para festejar o teu aniversário num club que fecha à uma da manhã? EI! Um concerto de rock num bar que começa às 21h? Perfeitamente normal! Jantar às 19h? Completamente aceitável, se queres ir ao concerto no horário que já te disse antes. Não é que isto fossem coisas essenciais para a minha sobrevivência, mas digamos que em Portugal o normal seria estar a sair de casa à meia-noite para ainda encontrar os amigos e ir para um bar, nem que fosse só conversar vá, e ainda assim jamais seria aceitável estarmos a voltar de lá tão cedo. Mas a verdade é que ao fim isto já era tão banal para mim que só me restava rir de cada vez que via anunciar uma grande festa na praia que às 2h já estaria acabada. È vero!


Uma foto que tirei em Bolonha, só porque é linda esta cidade.


Italianos, por favor não me matem, e vão por favor ler aqui os textos em que explico por que é que afinal me apaixonei por este belo país.