quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Diário de Bordo #10: aventura na Grécia




Em Setembro de 2019, assim meio num de repente decidi ir sozinho para a ilha de Rodes na Grécia durante 7 dias. Queria afastar-me o mais possível da confusão... ou da civilização, por isso escolhi um camping que era na verdade um tipo de retiro isolado na pequena vila de Theologos, imerso num bosque e junto à praia. Precisava de paz, de tempo... e de curar algo que em mim não estava bem. Fui sozinho mas logo encontrei pessoas que também para lá foram assim... e as nossas almas encontraram-se e alinharam-se naquela que para mim foi uma viagem inesquecível. Hoje partilho com vocês as notas que fui escrevendo durante a minha estadia. 

"Algo mágico acabou de acontecer. Então depois de passear pela cidade velha de Rodes e de me ter já apaixonado por isto e pela forma como os gregos têm falado comigo, não só com questões banais mas sempre com admiração e perguntas sobre de onde venho e porquê, finalmente entro num restaurante tradicional e como a minha primeira Moussaka. O facto de viajar sozinho causa-lhes surpresa e por isso um dos empregados de mesa diz-me para ir falar com o dono do restaurante. É um senhor de 70 anos, cansado, sentado numa cadeira à sombra. Primeiro diz-me logo que está com problemas familiares e eu lamento a dor dele. Depois comenta as notícias locais comigo e por fim quer saber como se dizem certas coisas em português, como Obrigado. Explico-lhe e digo também que sei 4 ou 5 palavras em grego. Conto-lhe sobre o meu trabalho e que tenho muitos colegas gregos e que faço muitos voos para a Grécia. De olhos tristes ele diz-me que nunca viajou, que nunca saiu desta ilha e que só trabalhou a vida toda, que aprendeu inglês, mas que não viu o mundo. Depois pega-me na mão e diz assim: "Tu vive. Pensas que já não és muito jovem, mas és. Olha para mim com 70 anos. Explora o mundo e vive. Sempre com limites, sem extremos, sempre com alguns limites, mas vive tudo o que queres viver". Eu fico em silêncio. Tenho uma impressão ligeira nos olhos. Depois digo-lhe que vim aqui mesmo, à sua ilha, ao lugar de onde ele nunca saiu, porque me sentia confuso, às vezes triste, porque perdas recentes me magoaram, porque nesses momentos questionei tantas vezes o estar longe de Casa, e porque precisava de ouvir estas exactas palavras. Ainda nem passei aqui um dia e será possível que tenha já encontrado o que procurava? Algumas pessoas têm um dom, a capacidade de olhar directamente no mais profundo da tua alma. Aquele homem conhecia-me ou foi enviado por alguém, uma protecção, uma Força, algo que me conhece tão bem. Só assim se explicam as coisas que não têm explicação. Sei que nunca vou entender ou saber absorver isto complemente. Mas não preciso."






"Conheci a M. na primeira noite em que cheguei ao acampamento aqui na Grécia. Ela está num projecto de voluntariado aqui e desde o primeiro instante que conversámos muito sobre a minha vida de voluntário no passado. E aos poucos descobrimos que tínhamos muitas ideias em comum. A M. tem um carro e hoje convidou-me para ir com ela explorar o sul da ilha, para onde não há qualquer transporte público. Aceitei logo. Queria descobrir o lado mais selvagem de Rodes, as praias desertas, estar longe da confusão turística. Mas o que encontrei foi um tesouro de um valor incalculável. Andávamos à procura de um sítio para almoçar, por estradas tão estreitas, caminhos tão difíceis... até descermos a montanha até uma praia mais escondida. Havia apenas 3 ou 4 casas. E uma delas era um "restaurante". Na verdade era uma casa de família mas preparavam comida e vendiam. Tinham mesas improvisadas e um menu traduzido num inglês rabiscado. Tratavam do negócio dois senhores e uma senhora, todos já passaram dos 70 anos... logo nos explicaram que tudo o que se comia ali vinha da horta deles, mesmo em frente à casa, ao lado do mar. Lamento por não conseguir transcrever em palavras quanto aqueles olhos me tocaram. Aqueles olhos que já viram e viveram muito tinham uma ternura que não tem explicação. Tinham aquilo que falta tantas vezes no mundo. Mesmo com a barreira linguística (e um dos senhores falava um bocadinho de inglês), mesmo com as minhas limitações alimentares, bastou dizer o que comia ou não e foi me logo trazida comida. Sem porquês, sem isto, sem aquilo. E que comida, e que sabores tão fortes, tão naturais. A verdadeira Grécia toda ali naquela mesa. Ficámos ali imenso tempo na conversa, eu e M., como se já o tivéssemos feito centenas de vezes antes. À nossa volta dezenas de gatos, às vezes vinham e pediam-nos comida. E nós comemos e bebemos. E os senhores sempre preocupados... queriam saber se estávamos a gostar. No fim ainda me ofereceram melancia. E quando fui pedir café, entrei na casa deles e pedi para tirar uma foto às imensas memórias que tinham ali expostas. Depois saí e fui ao pé do mar. Emocionei-me, claro, agradeci tanto pela sorte que tenho, pelas pessoas incríveis que se cruzam no meu caminho. Já passei muito na minha vida, já viajei muito, já fiz tanto, mas uma coisa posso dizer-vos... este dia foi um dos momentos mais bonitos que já vivi. Antes de vir para aqui, brincava, dizia que vinha e já não voltava. Mal sabia. Mas é verdade. O Filipe que aqui chegou não é o mesmo que vai sair daqui. Viajar é muita coisa, é também os lugares comuns e turísticos, mas o tipo de viagem que te transforma... que te leva ao coração profundo das pessoas, dos lugares e das culturas é isto."

"Encontrei aqui também a S., que veio da Polónia, também sozinha. Hoje fomos os 3, eu, a M. e a S. à descoberta das 7 cascatas na ilha de Rodes. Percebem agora quando digo que quando se viaja sozinho nunca se está completamente só? Acabámos por descobrir um túnel que passa por debaixo da montanha... e claro que tínhamos de passar lá por dentro. São 186 metros de pura escuridão com água que nos corre pelos tornozelos e em certas partes quase pelos joelhos! A meio do túnel não se via nada, só via negro à minha frente. Sabem o que é abrir e fechar os olhos e não haver diferença nenhuma? E absolutamente ninguém se atreveu a usar a lanterna do telemóvel com medo que caísse à água. Foi um bocadinho assustador mas ao mesmo tempo uma experiência brutal. O túnel é tão estreito que só tem espaço para uma pessoa, tivemos que ir em fila. O que se encontra quando se sai é tão lindo! Acho que foi uma bela metáfora para as nossas zonas de conforto e para os medos da vida. E aquela comida? E aquela praia com água a 26 graus ali ao fim? Ai Grécia, Grécia."






"São apenas dois dos animais que me fazem companhia no bosque onde estou a dormir aqui na Grécia. Ainda há mais... uns 4 gatos e 3 cães. A este gato chamei Atreus e à burra chamei Hipólita (quem me conhecer mesmo muito bem vai saber porquê). A Hipólita quando me sente a subir ou a descer o monte sai sempre da sua casinha para me vir ver e fazer uns sons, penso eu que a dizer Olá. Também dei nomes aos outros animais, menos a uma. É uma cadelinha de 4 meses e foi me apresentada pela sua dona. Chama-se Drolma. Contei-lhe da minha cadelinha... que nos deixou há pouco tempo e ela diz-me logo "oh... podes ficar com esta, é tua". Mas por questões práticas não a posso levar, claro, nem no meu avião a permitiam. Mas diz-me ela: "Então enquanto cá estiveres é tua". A Drolma vem fazer-me uma festa sempre que chego ao acampamento, ao jantar senta-se ao meu lado, de manhã vem à minha procura. Por curiosidade perguntei: "Qual é o significado de Drolma?". Vem do budismo, significa... libertadora, foi me explicado.  Podia mostrar-vos as praias da ilha (e que praias!) mas hoje queria mostrar-vos estes amores e perguntar: como é que há pessoas capazes de maltratar seres tão puros como os animais?"



"Ontem fui sozinho explorar o lado este da ilha e a vila de Lindos. Acabei por falar com tantas pessoas. Primeiro com 3 senhoras brasileiras a quem, em inglês, pedi para me tirarem uma foto. Depois, percebendo os sotaques da nossa língua misturados no inglês, lá nos pusemos a falar português. Fizeram-me algumas perguntas, admiradas por estar ali sozinho, e descobri que amam Lisboa... e Berlim. Mais tarde conheci um casal alemão que fui reencontrando pelas ruelas da vila. Falei com um senhor grego que andava por ali a tirar fotos. E fartei-me de falar com o rapaz que trabalhava no restaurante tradicional onde fui almoçar. Passou 20 dias em Portugal e diz-me que adorou tudo, principalmente a comida (mas com certeza). Vi o orgulho brilhar nos olhos dele quando lhe disse que me tinha apaixonado completamente pela Grécia. E só queria dizer isto. Não tenham medo de ir sozinhos. Descobre-se tanto dos nossos próprios limites e da coragem que às vezes desconhecemos. E encontram-se sempre pessoas boas com quem podemos partilhar pequenos momentos e conversas tão interessantes. Não se deixem ir nessa narrativa dramática do jornal das 9 que nos quer impingir um mundo inseguro onde só há violência e perigos. Claro que isso existe, mas a uma escala bem menor do que se pensa. E nós, humanos, precisamos é de nos dar mais e de confiar mais uns nos outros, com menos inseguranças e mais empatia. Tantas vezes me perguntam "Mas tu não tens medo?". Hoje respondo, tenho sim, o meu maior medo é de não conseguir fazer isto um dia. Mas até lá vou sorrindo assim, um pouco parvo, um pouco feliz, cem por cento livre."






"Eu na Grécia. E esta foto é tudo menos aquela típica imagem de terras gregas. Engraçado como passamos tanto tempo a fazer poses e depois as nossas favoritas são as fotos que nos tiram sem sabermos. Este sou eu sem qualquer filtro enquanto caminhava descalço pela natureza com a minha mochila de sonhos às costas. Nem quero muito desta vida, só peço que nunca me falte esta força e esta vontade de ir e descobrir."



"Sobre o Drolma Ling Camp... situado num bosque no topo de um monte com vista para o mar, é o lugar perfeito para quem quer relaxar e estar longe da confusão turística da ilha. No camping há vários cães e gatos, que se aproximam e passam muito tempo connosco. Óptimo para quem gosta da companhia destes animais. A vila de Theologos fica a 500 metros com alguns restaurantes, um supermercado e a praia (muito famosa pelos praticantes de windsurf). Funcionários 5 estrelas. A cozinha comum tem tudo o que precisamos para nos servir. Resumindo, é um local silencioso, que convida à reflexão e proporciona o ambiente perfeito para quem quer descansar em contacto com o que há de mais puro na natureza."








"Agora a verdade. Quando decidi ir para a Grécia quis fazer algo diferente. Tinha 7 dias, por isso não queria só visitar a Grécia, mas sim viver a Grécia profunda. Assim em vez de correr 3 ilhas, como planeado, centrei-me só na ilha de Rodes e num sítio muito especial. Uma pequena vila longe da confusão turística. Aí encontrei um acampamento isolado num bosque e que entre muitas coisas oferece a possibilidade de fazermos yoga e meditação (sozinho, claro, ou em grupo). Achei que ia fazer meditação todos os dias. Mas lá não senti essa necessidade. Meditei duas vezes. Uma durante o dia. E outra à noite no bosque. De resto toda a envolvência do lugar foi suficiente para me transformar e equilibrar. Este é um tipo de turismo sustentável, por isso assim que chegamos somos instruídos sobre como poupar água nos banhos, na lavagem da louça, etc. Duas voluntárias trabalhavam diariamente 3 horas por dia a tratar das plantas, uvas e animais. 3 cães, 4 gatos, uma burra e até... pequenos sapos, imaginem, faziam-nos companhia dia e noite. E estes animais deram-me tanto amor, mesmo sem me terem visto antes. Também eu tratei deles todos os dias. Quando cheguei tinha um coração "desenhado" com pinhas em frente à minha tenda, deixado para mim pelo ocupante anterior. E quando parti, deixei o mesmo coração. Curioso, nunca fechei a minha tenda com um cadeado. E acreditem que deixei lá dentro todos os dias não só o meu tablet mas também um documento importantíssimo e sem o qual não poderia trabalhar. No acampamento estavam outras pessoas mas havia esta intuição colectiva de que devíamos confiar uns nos outros. Não devia ser sempre assim? A Ifigenia, que criou e administra o lugar, é uma pessoa iluminada que nos incentivou a ir à mercearia local fazer as nossas compras. Ali toda a fruta, azeite, pão e doces tradicionais vêm de produtores locais. Dessa forma ajudamos a economia da ilha e não propriamente a economia das bugigangas chinesas que se vendem perto dos hotéis de luxo e nos locais mais visitados como se fossem artigos gregos originais. Tudo isto foi acontecendo naturalmente. Com a ajuda das pessoas locais descobri lugares incríveis, comi nos melhores restaurantes, os mais simples e caricatos, os verdadeiros, a preços muito mais baixos, sempre com um ambiente familiar. Também vi os lugares mais cobiçados, mas foi nos mais selvagens que me reencontrei. Quando decidi fazer esta viagem, fi-lo porque os últimos 6 meses foram duros, com muitas coisas boas e um trabalho de sonho, mas com muitos desafios também. Precisava de me desligar de certa forma, mas não sabia como. Este lugar ensinou-me e mostrou-me o caminho. Conheci pessoas incríveis de vários países, de várias gerações e de variados contextos sociais. E eu cheguei ali sozinho, literalmente perdido, mas fui recebido de braços abertos. Conversámos muito, sempre sem medo, com honestidade. A completos estranhos confessei coisas que só eu sei. E eles fizeram o mesmo comigo. E foi libertador. No fim percebi uma coisa. Eu adoro viajar, mas muitas vezes o turismo em massa tem prejudicado e muito as experiências que eu queria que fossem mais autênticas. E bem sei, o meu próprio trabalho está ligado a isso, mas talvez daí mesmo tenha partido esta necessidade de mudar. Agora voltei a casa com outros olhos. Não é que nunca tenha pensado nisto antes, mas faltava-me ser encaminhado e guiado por quem sabe e faz já bem mais do que eu. Nós temos que ajudar os mais pequenos, que lutam todos os dias contra os grandes centros e as grandes cadeias de turismo, temos que nos ligar mais à natureza e uns aos outros. Não chegam as fotos tiradas à pressa porque estão dezenas de pessoas à espera para fazer o mesmo naquele local que já vimos dezenas de vezes no instagram e que é trendy e in e que vai gerar muitos likes e pouca interação humana. Essas imagens também são precisas, também nos fazem bem ao ego, mas é preciso ir muito mais longe, esquecendo nem que seja por um dia os pacotes, tours e os "tudo incluído" que são vendidos a todos de igual forma como se fossem muito únicos e originais. Tudo isto se pode completar. Mas tem de haver um equilíbrio se não queremos destruir os lugares lindos e únicos que a Natureza e a História e a Humanidade nos deram. E agora respondendo à questão «gostaste da Grécia?' vou só dizer que do alto de um monte olhando o mar fiz uma promessa: voltarei todos os anos, para visitar outras ilhas, outras vilas e outras cidades. Assim profundo foi o nosso primeiro encontro."

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Diário de Bordo #9: regresso a Nápoles e subida ao Vesúvio



É a quarta vez em Nápoles e finalmente consegui subir ao vulcão.


A primeira vez que visitei (e me apaixonei) por Nápoles foi em Fevereiro de 2015, voltei depois em Junho do mesmo ano e mais tarde em Janeiro de 2018.

De todas as vezes apanhei nuvens no Vesúvio, o que não facilitou a visita ao icónico marco da paisagem napolitana. 

Desta vez fiquei só por duas noites. 

Aproveitei o primeiro para regressar às ruas históricas e me deliciar novamente com os sabores do sul de Itália. 

Parmigiana bianca, Pizza (claro), Pasta e Patate... e nem vou continuar com a extensa lista de tudo o que comi porque acho que vos aumentava o colesterol só com as descrições. 

Digamos que já conheço a cidade de trás para a frente, por isso afastei-me um pouco dos locais mais turísticos e perdi-me por ruas mais escondidas, onde se sente e vive o verdadeiro espírito napolitano e onde consegui misturar-me com os locais e ter conversas mais ou menos banais com eles (o facto de falar italiano ajuda muito, obviamente).

Há quem deteste esta cidade e eu sei exactamente porquê. É caótica e nisso o trânsito mete medo. É suja e nem os monumentos antigos estão bem preservados como noutras cidades italianas bem famosas.

Mas há algo nesta honestidade do não querer saber e no calor das pessoas do sul que me apaixonou desde o primeiro instante. 

E foi com essa paixão que no segundo dia me emocionei ao chegar ao topo do Vesúvio contemplando lá de cima a beleza natural e única do Golfo de Nápoles. A calma do mar Tirreno. As ilhas. Pompeia ao fundo. Enfim... uma paisagem de nos deixar sem palavras.

A subida custa um pouco, mas com calma até se faz bem. Optei por marcar com uma agência e assim fui numa carrinha com mais 7 pessoas. O motorista deixou-nos mais ou menos a meio da montanha, até onde podem ir os autocarros e depois tivemos que subir uns 2 km a pé. Fui aproveitando para descansar em certos pontos e apreciar a paisagem e tirar umas fotos (levem água e uns snacks para o caminho). Tínhamos cerca de 2 horas livres para a visita até o motorista nos ir buscar novamente no mesmo ponto. Diria que para subir foram cerca de 30 minutos e para descer um pouco menos. 

Chegar à cratera do vulcão é uma sensação sem igual ou pelo menos para mim assim foi, pois era a primeira vez a visitar algo do género e fiquei abismado com o tamanho e profundidade da mesma. Imponente e majestosa... no mínimo. Neste dia até estava a fumegar e foi impressionante ver isso.

Quero lá voltar, num mês de mais calor talvez, pois agora em Janeiro notou-se bem a diferença de temperatura da cidade para o topo do Vesúvio, cerca de 10 graus a menos...

Ainda assim, foi um dia inesquecível e já posso riscar esta da bucket list.

Depois desci e fui comer mais, porque ir a Nápoles e não se deixar perder pelo prazer de comer é praticamente um pecado mortal.

No dia seguinte deixei a cidade já só a pensar num futuro regresso. Nunca sei explicar bem isso mas a música talvez o faça. That's amore.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Diário de Bordo #8: doar roupa aos sem-abrigo em Berlim e o perigo de o fazer sozinho

foto: "Toleranz" by Sascha Kohlmann, flickr


Qualquer pessoa que já fez algum tipo de trabalho voluntário com os sem-abrigo ou pessoas em extrema pobreza sabe que uma situação aparentemente "simples" pode escalar rapidamente para a rejeição... ou até mesmo para a violência.

É por isso que esse trabalho é (quase) sempre feito em grupos.

As pessoas que vivem nessas condições têm por vezes um grande conflito de sentimentos quando são abordadas, muitas vezes apenas por vergonha, porque não querem sentir-se "expostas", etc.

E eu que já fui voluntário antes em acções com adultos e crianças sabia perfeitamente que não me devia aventurar nisso sozinho.

Mesmo assim decidi fazê-lo agora.

Aproveitando a mudança de casa, escolhi alguma roupa e sapatos que já não usava e aproveitei para limpar o antigo apartamento e levar roupa que outros colegas de casa foram deixando para trás nas suas mudanças. Tínhamos casacos de inverno, camisolas muito quentes e tantas coisas boas que estavam ali sem uso, como é possível não termos pensado nisso antes?

Juntei também bastantes garrafas de plástico. Aqui na Alemanha cada garrafa de plástico tem aquilo a que chamam um código "pfand", ou seja, pagamos 25 cêntimos em cada compra (por exemplo uma água custa 1eur, pagamos mais 25 cêntimos). E depois voltando ao supermercado existem máquinas para a reciclagem que lêem esses códigos e nos dão o valor total num voucher que podemos gastar nas compras ou trocar por dinheiro.

Muitos sem-abrigo e pessoas com muitas dificuldades económicas vasculham os lixos pela cidade à procura dessas garrafas pois é uma forma de juntarem algum dinheiro e comprar alguma comida no supermercado.

Por isso decidi doar as muitas garrafas que fui juntando no último mês. Fui à estação de metro mais perto da minha casa e lá conversei com um dos sem-abrigo que lá estava. Normalmente são um grupo grande mas desta vez só encontrei um deles que não teria mais de 30 anos. Dei-lhe 2 sacos com roupa e calçado e ainda um saco cheio dessas garrafas. Ele praticamente ignorou-me, com vergonha, e eu entendi isso perfeitamente. Mesmo assim agradeceu-me timidamente... e a chorar, algo que me partiu o coração... nunca irei habituar-me a isto, nunca. Para não lhe causar mais "pressão", afastei-me um pouco, mas já conhecendo como estas coisas funcionam, fiquei a observar um pouco de longe, porque já sabia que alguém iria tentar roubá-lo. E foi exactamente o que aconteceu.

Vi um rapaz, um pouco mais jovem que o primeiro, a pegar no saco das garrafas e sair dali. Fui a correr atrás dele. Tirei-lhe o saco e disse-lhe que não o tinha dado a ele... ao que ele me explica que era irmão do primeiro rapaz e que estavam juntos. Desconfiei. Obriguei-o a voltar lá comigo para o provar. Aqui vi a situação escalar para outro nível, ele olhou-me desconfiado, puxou-me o saco outra vez e recusou ao início, mas depois lá me seguiu. Eram mesmo irmãos. E fiquei mais descansado.


Sobre este assunto não posso senão recomendar o livro do George Orwell "Na Penúria em Paris e em Londres". Li-o no ano passado e é um dos meus livros favoritos dele, juntamente com "A Quinta dos Animais" e, claro, o "1984"


O livro é autobiográfico, conta os anos em que o autor viveu como sem-abrigo em Paris e Londres, antes do reconhecimento mundial, e fala exactamente destas terríveis condições de viver na rua, das "máfias" que se aproveitam e roubam os mais desfavorecidos e dos perigos de quem por vezes quer ajudar e mesmo de quem recusa ajuda.


Continua tão actual hoje como no dia em que foi escrito. Aprendi isso, mais uma vez.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Berlin b964: techno química underground



Não é que neste caso haja um dress code, mas escolho vestir só preto, porque, digo-lhe, "combina com o meu estado de espírito".

Ao local não posso chamar bar ou nightclub porque talvez seja uma mistura ambígua dos dois. 

A entrada é fácil, embora haja alguma selecção, e o espaço não é muito extenso. É escuro, muito escuro, quase labiríntico, quase um bunker, quase um esconderijo que sobreviveu a alguma guerra. Os meus olhos demoram a habituar-se à escuridão, pois na rua ainda havia alguma claridade. Lentamente deixo a luz esvair-se por completo.

O meu amigo pergunta-me se quero beber uma cerveja e eu digo que sim. 

Quando já vejo, a primeira impressão é que ninguém se importa contigo, como estás vestido, quem és, com quem entras. Há gente de todos os tipos e feitios.

A techno marca um beat pesado que faz estremecer a parede onde me encosto. E com uma leve surpresa é um som que acalma e não enfurece. 

Música electrónica não é o meu forte, mas faz todo o sentido aqui. A ausência de vozes que nos distraiam, permitem-nos falar e não demora muito até eu decidir avançar para o spot onde uma luz vermelha ilumina o chão e as paredes em várias rotações arrítmicas. As luzes são só vermelhas. Tudo é vermelho e preto. Não há outra cor. É o lado negro de uma cidade que vibra por isto. E eu vim aqui para entender porquê. 

Não passou nem meia hora e já sinto que conhecemos toda a gente, mesmo sem nos falarmos. Há algo sedutor num local que parece proibido, mas onde tudo é permitido. Há algo fascinante num local que não se identifica com x ou y, que não parece ter um código de conduta, que não é masculino nem feminino, nem rico nem pobre.

Ninguém tem de o dizer, basta observar. Há um rapaz que vem falar comigo. E é aqui que me apercebo de que o volume da música foi adequado para nos permitir interagir. Fala mal inglês e eu não falo alemão. Por isso a conversa não flui. Quando se despede de mim e tenta sorrir, vejo tudo nos seus olhos. A alegria e o entusiasmo, mas também uma alma apática, desprendida e solta. Há alguma substância que o mantém vivo. Qual, não sei. 

Há uma espécie de jaula no meio da pista, ou antes uma grade que faz de conta ser uma prisão. 

É tão simbólico para mim que arrasto o meu amigo para lá, colocando-nos separados. Um de cada lado. O meu sorriso malicioso confessa logo tudo. Estranhamente o metal nem é frio quando o agarro com as mãos fingindo ser um prisioneiro. E é aí que acontece o beijo, com uma grade que nos separa. Parece uma cena de um filme indie sem grande orçamento. Parece uma bonita metáfora para as nossas existências. Tenho de escrever sobre isso mais tarde. Começo a imaginar as primeiras palavras... mas a techno que nos envolve é tão forte que me perco nos meus pensamentos. Há nisto algum tipo de amor instantâneo, um sentimento subitamente tão forte que causa arrepios nos nossos poros, numa pele agora tão sensível ao toque. Há mesmo qualquer coisa de química nisto, tanto no sentido científico quanto no figurado.

E ninguém quer saber. Ninguém questiona. Ninguém deixa as suas danças para se importar. 

É como se toda a liberdade do mundo estivesse ali e pela primeira vez em muitas semanas sinto os meus músculos relaxar e uma espécie de felicidade que não me visitava há demasiado tempo. 

Antes de entrar disseram-me: "aqui dentro cada um faz o que quer...".

E eu só acrescentei: "...e ninguém é obrigado a nada"

Estava certo.

Quando volto a sair para a rua já não tenho a certeza se a luz violeta no horizonte é o amanhecer ou ainda o crepúsculo. Depois caminho sozinho em direcção à estação e meto-me num comboio que me leva a casa. 

A minha rua não é a mesma. Está diferente. Demoro algum tempo a perceber porquê.

Só entendo tudo quando a minha cama me abraça e olho uma última vez pela janela para ver as cores do céu antes de fechar os olhos.

Somos corpos vazios em caixas rectangulares que se conectam por estímulos exteriores e impulsos eléctricos que nos dão vida antes do cansaço nos derrubar. Tento sorrir ao adormecer. O meu corpo ainda vibra com o bass daquela música estranha que me embala. Deixo-me ir. Quando acordar saberei melhor quem sou. 











sábado, 13 de abril de 2019

Como cheguei aqui... e como foi o curso na easyJet?




Como cheguei à easyJet?

Esta história começa há muito mais tempo do que se imagina. Em 2017 trabalhava num hotel na ilha da Sardenha e juntamente com um grupo de amigos tentei o teste online (o primeiro passo) para me candidatar como comissário de bordo (cabin crew). Falhei esse primeiro teste. E aqui fica a primeira dica. NUNCA façam esse teste com outras pessoas e no meio de barulho e confusão de outras conversas. Façam-no sozinhos, concentrados e vão ver que é muito melhor.

Como sou muito teimoso, não desisti. Aqui fica a segunda dica. NUNCA desistam de ir atrás do que vocês querem realmente.

Entretanto tinha de esperar mais 6 meses para candidatar-me outra vez e  surgiu uma oportunidade de entrar na Ryanair. Fui à entrevista, passei e atirei-me a isso com toda a garra.

Em Abril de 2018 voltei a candidatar-me à easyJet. Na altura ainda só estava há um mês na Ryanair... mas o meu objectivo sempre foi só ganhar experiência e procurar algo... diferente. 

O convite para ir a um "open day" da easyJet só chegou bem mais tarde, em Novembro desse mesmo ano.

Esse dia aconteceu num hotel em Berlim e depois de passar em todos os testes de grupo, individuais, online e na entrevista final, foi-me oferecido um lugar na easyJet

No dia em que chegou a notícia estava a operar um voo com a Ryanair e foi depois de aterrar que abri o mail e vi que tinha sido seleccionado. Primeiro gritei eufórico. Depois chorei de felicidade. Afinal, tanto tempo passado, tinha finalmente conseguido o que queria. 




Como foi o curso de cabin crew?

Digamos que para quem já tinha feito um curso de comissário de bordo antes, não foi propriamente uma novidade. Mas existem várias diferenças. Começando pelo mais óbvio... os aviões. Antes trabalhava num Boeing 737 e passei para a família Airbus, onde aprendi as especificações para operar voos em Airbus 319, Airbus 320 e 320-186. Parece simples, mas acreditem que todos têm configurações diferentes e o mais difícil foi esquecer tudo o que aprendi antes no Boeing.

Na easyJet o curso teve a duração de 3 semanas e aconteceu no aeroporto de Gatwick em Londres. A companhia paga-nos o voo até Londres, o alojamento (neste caso ficamos no Hilton) e desde o primeiro dia somos funcionários da empresa e estamos a ser pagos enquanto fazemos o curso (maravilhoso, não é?)

Por questões óbvias de segurança não posso dar muitos detalhes sobre o programa do curso, mas posso dizer que as 3 semanas são muito bem divididas entre os temas de Segurança na Aviação, First Aid (Primeiros Socorros) e Customer Service

E temos que estudar muito. Muito. Normalmente as aulas aconteciam das 8 às 17h mas em alguns dias tínhamos alterações no horário. Tivemos 2 dias off e depois outro off, basicamente para estudar e rever matéria. 

Por estarmos na Academia easyJet o curso é muito prático e todos os dias íamos treinar para o simulador, que é basicamente um avião montado só para o curso. Mas os bancos, portas, etc, etc, simulam (lá está) um avião real e isso é excelente para aprendermos onde está o equipamento de segurança, onde são as saídas de emergência, como se combate um fogo dentro do avião, como se entra no flight deck, como devemos agir em caso de descompressão da cabine,  etc, etc.

Essas 3 semanas são muito intensas, principalmente porque passamos muito tempo fechados. E já sei que vão dizer que estou a queixar-me de ficar alojado num hotel Hilton (fancy!), mas acreditem que cheguei a um momento em que já não aguentava aquelas paredes. Safava-se o pequeno-almoço que era brutal. O melhor que já vi em qualquer hotel sem sobra de dúvida. E bem sabemos a energia que era precisa logo de manhã para aguentar tanta matéria.

Tivemos no total 5 exames distribuídos por essas 3 semanas. Dois exames sobre procedimentos de Segurança (Safety e Security), um sobre Dangerous Goods, outro sobre Primeiros Socorros (First Aid) e o final sobre Customer Service.

Quanto aos instructores que tive... só posso dizer coisas boas. Vou levar memórias muito bonitas para o resto da vida. Afinal foram eles que me deram toda a formação e inspiração para fazer o que estou a fazer agora.

Depois de completarmos a formação e passarmos em todos os exames, temos a graduação e esta carinha de felicidade aqui em baixo diz tudo o que palavras não conseguem dizer sobre o que senti nesse dia. Estava pleno, completo, realizado.

É tão bom estar aqui. Dei um passo gigantesco na minha carreira na aviação... e nem eu tinha muita noção do quanto iria ser diferente aqui na easyJet. Mas sobre isso falarei no próximo post.






domingo, 7 de abril de 2019

O meu bairro em Berlim.



Acho que nem podia ter sido de outra forma, mas vim mesmo parar a um bairro muito cool, artístico e alternativo em Berlim. 

Não é que não existam outros bairros mais na onda hipster nesta cidade, como o bonito Kreuzberg (do qual falarei mais tarde)

Mas o bairro de Wedding (lê-se "Ve-ding") é uma mistura única de passado e modernidade, de cultura alemã com cultura turca e de outros países.

Estima-se que 30% da população do meu bairro seja composta por estrangeiros. Muitos são estudantes, de passagem, muitos são artistas e freelancers à procura do sonho alemão. Outros viveram aqui uma vida inteira.

Outros são como eu e caíram aqui por acaso. Não foi nada fácil encontrar uma casa em Berlim e este sítio acabou por ser quase a última hipótese, mas tive sorte porque está bem localizado no que diz respeito a transportes para o aeroporto (onde trabalho).

Pelas fotos já dá para ver. Wedding tem muita cor nos seus edifícios. E também tem muitas casas velhas, mas que a arte urbana tratou de colorir. 

Quando se pensa na história de Berlim, é impossível esquecer que a Segunda Guerra Mundial aconteceu aqui e que a Guerra Fria e o Muro prolongaram anos de tensão e separaram uma cidade brutalmente. 

Esta região fazia parte da zona ocidental, mais concretamente da divisão francesa, e desde que o muro caiu (há 30 anos!) acredito que a reconstrução e transformação destes bairros deve ter sido uma constante. Nota-se que há zonas que ainda não decidiram muito bem se são modernas ou retro. 

Mas é por isso que gosto de viver aqui.

Vaguear por estas ruas num final de tarde de sábado é deixar-se levar pelos aromas fortes da comida dos restaurantes alternativos que estamparam a palavra vegan na porta, é desviar-se de bicicletas e skates que passam acelerados, é reparar nos estilos alternativos de quem passa e chegar a um ponto em que já nada te surpreende, é entrar no supermercado turco para comprar fruta fresca e sair de lá com 3 tipos diferentes de couscous e bulgur, é parar para fotografar prédios da arquitectura moderna do pós-guerra, sentindo que tudo parece ter parado no tempo e depois reparar no café hipster com a bandeira arco-íris na janela e apaixonar-se por esta incrível mistura cultural e de valores.

E isto é apenas uma pequena percentagem de uma cidade vibrante com 3,5 milhões de habitantes.

Ainda haverá tanto por descobrir.

Mas algo já descobri. Mesmo antes de viver aqui, este já era o meu bairro. 




segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Diário de Bordo #7: o jogo recomeça

imagem: flickr


"Ano novo, vida nova" - dizem por aí. 

Talvez eu tenha levado isso demasiado a peito. Ainda Janeiro começou e já estou com os pés na mudança. Deixo a cidade que me recebeu e acolheu nos últimos 10 meses. Deixo o meu local de trabalho, por minha decisão, exactamente um ano depois de ter começado o curso que fez de mim um comissário de bordo.

E deixo tanto mais para trás.

Há uma canção italiana que ouço frequentemente e que, traduzida, diz assim: "Leva-me daqui, se houver um muro demasiado alto para ver o meu amanhã".

E é isso. Mais do que um "ano novo, vida nova", é isso. Não acredito que o calendário nos imponha alguma obrigação de mudar, mesmo que subtilmente, acredito sim que quando sentimos que um lugar ou uma ocupação já nos deram tudo o que podiam dar, quando o tal muro é demasiado alto para nos deixar ver um futuro, aí sim, tenho a certeza de que uma Força dentro de nós faz com que se procure recomeçar.

Há quem diga que só estou bem assim. A mudar. E é verdade que nos últimos 4 anos tenho experimentado muito. E com muito orgulho. Tenho aprendido mais do que às vezes queria, é verdade, pois às vezes até sabe bem aquela confiança de já conhecer tudo e todos no lugar onde se está, mas no meio disso tudo tenho sido exposto a situações completamente novas e desafiantes. 

Lembram-se de 2017? Passei o Verão a trabalhar na Sardenha em Itália. E a expressão "parece que foi ontem" tem muito peso de cada vez que ainda hoje dou por mim a reviver intensamente momentos fortes desse Verão exaustivo. Só que daqui a pouco já lá vão 2 anos e parece que ainda nem tive tempo de me sentar para resolver esses conflitos de uma vez por todas. 


É como se, com o que acontece agora, estivesse sempre num certo modo de comparação em que pensamentos por vezes inofensivos se transformam em verdadeiras lições diárias.

E é claro que sinto saudades disso. Matava-me a trabalhar, sim, mas sinto falta de ser feliz assim. Tal como sinto falta de ajudar as crianças que fizeram parte do meu Projecto de Voluntariado Europeu em 2015/2016. E tal como provavelmente daqui a uns meses sentirei falta do que estou a deixar agora. 

Talvez sentir falta de alguma coisa que me fez feliz por momentos, ainda que por breve momentos, seja exactamente o que procuro.

Como diz outra canção italiana que aqui deixo, é mais ou menos isto:

"La città è piena di fontane 
Ma non sparisce mai la sete 
Sarà la distrazione 
Sarà, sarà, sarà 
Che ho sempre il Sahara in bocca"