segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

[ opinião ] Spotlight: ou o jornalismo de investigação


Baseado numa história real, este filme mostra como um grupo de jornalistas do Boston Globe conseguiu reunir provas sobre casos de pedofilia na Igreja, expondo o pesadelo através de um acto de jornalismo de investigação. 

Spotlight tem momentos de génio, como a cena em que uma das vítimas está a falar do seu caso, com uma igreja e um parque infantil como pano de fundo. Isso não escapa facilmente ao espectador, mas num diálogo simples e tão natural, o personagem carrega-nos ainda mais com o forte peso da imagem.

O filme tem, também por isso, muitas vezes mais um ar de documentário do que estória que, apesar de basear-se em factos reais, é ficcionada. Destacam-se outros momentos assim (que prefiro não revelar) e ainda um elenco de luxo, de onde destaco a interpretação excepcional de Mark Rufallo, que volta a mostrar todo o talento que tem como actor. 

Não atribuiria a Spotlight o Oscar de Melhor Filme, pois apesar de ter gostado muito, notei-lhe alguns momentos que podiam ter sido melhor explorados. E também porque na corrida estão outros filmes que têm mais valor. Mas dava facilmente o prémio ao Mark Rufallo, pelas razões que já indiquei. Ele será inesquecível neste papel.





[ opinião sobre livro ] - O Príncipe - Niccolò Machiavelli




Quando escreveu O Príncipe, Maquiavel queria mostrar ao mundo como era dotado para a política (é uma longa estória, mas vale a pena pesquisar mais). Estaria longe de saber que a sua obra seria admirada, estudada, seguida e posta em prática durante todos os séculos que se seguiriam à sua publicação.

Falamos de um livro que foi escrito no século XVI em (e para) Firenze (Florença). Todo o livro é dirigido a um dos Medici, família que então governava a cidade, numa Itália que ainda nem estava unificada. 

E eu escrevo estas linhas no século XXI, tanto mas tanto tempo depois. 

Só isso bastaria para sublinhar (uma vez mais, já que tanta gente já o fez) a real importância que tem esta obra nos nossos dias, principalmente depois de termos assistido à ascensão e queda de vários regimes ditatoriais (de várias espécies) no decorrer do século passado. 

Se o termo maquiavélico se tornou um adjectivo com um peso brutal, deve-o de facto a este autor, que frontalmente se atreveu a escrever sobre os actos e esquemas da política de uma forma absolutamente assustadora mas que nos dias que correm... já não assusta tanto. Vivemos numa era em que temos acesso a muita informação, em que já presenciamos escândalos políticos de todo o tipo e se por um lado isso tira algum peso ao livro, por outro ajuda a justificar ainda mais a sua importância e relevância na actualidade. 

Outro pequeno problema é que nota-se perfeitamente que muito se perdeu na tradução, pois muito era também fruto da visão do autor sobre o seu tempo, escrito para alguém que vivia na mesma época. E com certeza que ele não esperava que o texto chegasse tão longe no tempo, certo?

Deixou-me literalmente de boca aberta em várias passagens, mergulhado na incredulidade (à medida que pensava de imediato em casos políticos que já vi de perto!)

Mas não deixei de sentir muita empatia com o autor. Ele foi maquiavélico, sim, mas no sentido em que teve a coragem de pegar num assunto e confrontá-lo de uma forma muito, mas mesmo muito directa e sem suavizar as questões. 

Maquiavel foi apenas sincero nos conselhos que escreveu. O que outros fizeram depois, em actos, através das suas palavras, já é outra História. 


P.S. - já que estou a viver em Itália e como já visitei Firenze (2x), estive na própria cidade a ler este livro, visitei os locais em que o autor viveu... enfim, toda uma outra experiência!  E era só para me armar um bocadinho agora (ahah!).




sábado, 20 de fevereiro de 2016

Começa em C e acaba em O



Terça-feira.

Um dia qualquer numa semana ao acaso. Igual à terça da semana anterior. Um número num calendário que se arrastava sem grandes alaridos.

Mas aquela manhã era diferente.

As notícias mais recentes não eram muito positivas. O meu pai tinha um problema.
A sua saúde fraquejava.

Mas não era um problema qualquer. Aliás, antes dessa terça, não era sequer uma certeza. Era apenas um medo sufocante de que a palavra que começava em C e acabava em O entrasse de repente por dentro, sem pedir licença, derrubando tudo à sua passagem, deitando por terra as paredes do nosso lar sagrado.

Seria possível que algo nos invadisse assim?

Os primeiros exames apontavam para isso. Mas faltava a derradeira confirmação.

Eu já sabia. A mãe também. O olhar esquivo da minha irmã dizia-me o mesmo. E quando a minha avó pediu para eu ter muita força para o que estaria para vir, eu sabia.

Sabíamos todos.

E foi  por isso que nessa madrugada quase não dormi. Nessa manhã acordei cedo, mas não fui com o pai até ao hospital para saber a verdade. Tinha que ficar. E como não tinha descansado, arrastei-me pela manhã fora como pude.
Sem novidades. Ansioso. Sem um telefonema. Nervoso. Sem uma mensagem.

Liguei. Continuavam à espera. Tornei a ligar. A esperava prolongava-se.

E esperando, deitei-me na minha cama e cedi ao cansaço desgastante. Adormeci, se é que se pode chamar assim ao estado em que os meus pensamentos eram mais sonhos que realidade.
Por uma terrível injustiça, tinha aguentado a manhã toda, menos nos últimos momentos. E quando os meus pais chegaram a casa, eu estava adormentado, meio esquecido do mundo. No meu canto, onde ainda residia alguma esperança.

Assim, foi num estado inconsciente que senti a porta do meu quarto abrir-se lentamente, ouvindo depois a voz do meu pai dizer “Então filhote... estás a dormir?”. Ele não disse mais nada. Mas a voz tremia-lhe, saía-lhe sem força. 

Enquanto ansiava pela sua chegada, pouco antes de adormecer naqueles instante, eu imaginei que talvez pudesse não ser nada, que poderíamos estar todos apenas a ver o lado negativo.

Mas agora, de repente, como que a torturar-me por ter pensado assim, a sua voz dizia-me tudo. Não foi preciso ouvir aquela horrível palavra. Soube assim. 
Era verdade. Tínhamos razão. E eu pensava que estava preparado. Mas estava tão enganado. Ainda esperando algum escape, forcei a minha cabeça contra a almofada, esperei despertar de algum pesadelo. Mas sem efeito, era real.

Não chorei em frente ao pai. Abracei-o e não disse nada, pois se falasse não aguentaria. Cairia tudo.
Depois encontrei-me sozinho, saí de casa e procurei um sítio só meu. Subitamente senti-me mais pesado, como se a gravidade me puxasse mais contra a terra, sem conseguir expressar-me, rendido a uma sensação de fraqueza tão intensa como a vontade que tinha de gritar.
E no fundo, bem lá no fundo, gritei. E ninguém me diga que os nossos gritos mudos não conseguem fazer-se ouvir cá fora, pois conseguem, e de que maneira!

Até essa terça eu nunca tinha sentido tanto medo de perder alguém que amava. Esse pensamento tinha-me passado pela mente algumas vezes. Dava-me sempre arrepios.
Mas foi nesse dia que aprendi que ao tornar-se real, o medo dá-nos um propósito.
Não tínhamos como escapar. Uma doença assim era uma doença assim. Era impossível escolher-se entre enfrentá-la ou não.
E havia uma luta para começar.


Nesse mesmo dia jurei que não escreveria essa palavra. Não lhe daria esse gozo; não a essa palavra que parece matar só de se pronunciar.

E assim fomos todos à luta. E lutámos por tudo, juntos. Nunca foi fácil. Mas nem eu esperava que fosse. E mesmo assim eu nunca disse ou escrevi essa palavra.
No dia em que fomos ao hospital saber que podíamos enfim respirar de alívio, vi a face do meu pai transformar-se completamente. A angústia, o peso e a ansiedade deram lugar a um respirar tão calmo e sereno, de olhos brilhantes de alívio.

E nem assim eu consegui processar o sentimento e colocá-lo em palavras. Apenas sorri, ao mesmo tempo em que o abracei com toda a minha Força. Foi, sem precisar de grande justificação, um dos momentos mais felizes da minha vida.

Só 6 meses depois consegui falar de tudo isto com o meu pai. E mesmo assim ainda fraquejei quando tentei formular uma pequena frase sobre o assunto. Foi no último dia do ano, a poucos minutos de fazer a passagem e deixar para trás de vez aqueles dias. “Que grande luta tivemos este ano. E agora estamos aqui!”.

E depois de o dizer, abraçamo-nos os três. Eu, a mãe e o pai. Estávamos ali.

Daquela palavra nem quero lembrar.

Ela ainda me assusta.

E há palavras bem mais bonitas que também começam em C e acabam em O.

Digamos, por exemplo:

coração. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Serviço Voluntário - Portugal em Itália

Ragazzi in Italia!

Já tinha sentido isto assim quando os meus pais vieram cá visitar-me e estivemos juntos 5 dias em Roma, mas agora chegou a altura de escrever mais sobre uma nova fase a que sinto ter chegado no meu Serviço Voluntário Europeu.

Falo de algo que é um acréscimo, que não faria à partida parte obrigatória deste trajecto.

Há dias recebi aqui o Pedro, que é alguém muito especial para mim. 

E tal como aconteceu com os meus pais, tive oportunidade de andar com o Pedro por sítios que já conheço muito bem e de lhe mostrar as cidades pelas quais já me apaixonei

Mas também visitámos algo que eu ainda não conhecia. A cidade de Pisa

Depois partimos para Firenze (Florença) e ainda viemos a Forlì (a minha cidade).

Caminhar pelas ruas de Firenze com o Pedro ao meu lado, enquanto lhe explicava o porquê daquela casa ser assim, por que estava ali aquela obra de arte, por que razão a rua tinha aquele nome, foi - em suma - elevar-me a um novo estado de gratificação a que não tenho acesso todos os dias. Eu já tinha estado ali sozinho, mas agora foi completamente diferente.

Foi sentir novamente aquela felicidade súbita de mostrar às pessoas de quem gosto como já estou imerso nesta cultura e  a vontade que tinha de lhes fazer ver toda a História que aqui se conta.

Durante os 10 meses em que aqui estarei (e já lá vão 5!) esta parte era opcional. Eu poderia ou não receber a visita dos meus pais, dos meus amigos, etc; mas agora que isso já aconteceu (e mais pessoas virão), tinha que explicar-vos como encontrei uma nova forma de partilhar aquilo que tenho de mais precioso.

Não sou rico. Em dinheiro (como diz a outra). Não posso levá-los aos restaurantes mais caros, mas estou certo de que nada ultrapassará a partilha que se consegue assim, apenas através de uma caminhada, de palavras, gestos, emoções. Não é algo palpável, mas é algo que se sente e bem.

Ainda por cima o Pedro conheceu o Centro onde sou voluntário e nem sei bem explicar porquê, mas depois disso sinto que pertenço mais a este lugar. E ter direito a esta experiência a meio do meu Projecto de voluntariado é algo pelo qual terei que agradecer e muito.

Antes de ele voltar para Portugal, pedi que se sentasse ao meu lado e escutasse algo que eu tinha para ler.

Era uma passagem do livro O Principezinho e que, entre muitos bons ensinamentos, diz algo que em duas frases resume perfeitamente aquilo que quero dizer:

"Só se vê bem com o coração. 
O essencial é invisível para os olhos."

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Mas que mal te fiz eu?



Eu. Um indivíduo ao acaso numa sociedade qualquer.

Quanto mal te posso ter feito que te leva assim a sair à rua a gritar contra mim?

Mas alguma vez eu me importei se tu podias casar-te ou adoptar uma criança?

Pensas em mim quando escreves essas palavras de ódio nesses cartazes? Imaginas uma pessoa quando pintas essas letras? Ou idealizar um ser humano é demais para a tua compreensão? 

Que terei eu feito que despertou em ti essa fúria?

Eu. Uma pessoa qualquer num lugar aleatório. Eu, na minha vida, sem me importar.

Imaginas sequer o que sinto quando escreves esses comentários que desejam a minha morte?

Conheces-me? Ou conheces algum dos meus amigos? Alguém da minha família?

Conheces pelo menos alguém que ficaria triste se eu por acaso de repente fosse aniquilado pelo desrespeito que semeias?

E porque gritas contra mim

Eu já gritei contra ti

Alguma vez na minha intimidade eu me chateei sequer com a tua existência?

Eu quero lá saber quem és ou o que fazes! E tu, porque queres tanto saber de mim?

Porque não podes sequer seguir a tua vida sem interferir com a minha?

Que te importa se amanhã não me caso? Que te interessa se quero ter filhos como tu?

Porque tens de o exibir na TV, rádio, jornais...?

Mas que mal te fiz eu, afinal?

Eu, um indivíduo qualquer, numa comunidade, sociedade, lugar do mundo, sei lá, onde não quero ser mais do que eu próprio.

E tu: porque queres ser tanto nas vidas que não são tuas?

Já pensaste por acaso que nessa manifestação em que gritas ódio contra mim poderás também estar a mostrá-lo a algum dos teus, da tua família, dos teus amigos, colegas, que também os odeias?

Que mal te fizemos nós?

Respondes?

[ opinião ] JOY: a alegria de Jennifer Lawrence



Baseando-se numa história real, este filme conta como Joy Mangano (Jennifer Lawrence) se tornou uma das empreendedoras com maior sucesso nos Estados Unidos da América

De início, o filme adverte logo que se baseia nessa história, mas que tem algo de livre ao basear-se também nas vidas de outras mulheres igualmente desafiadoras e bem sucedidas (e anónimas). 

Depois entramos num drama que é muitas vezes elevado à comédia, com caracterizações hiperbólicas dos personagens ou situações que se aproximam do bizarro. Gostei especialmente da mãe que nunca sai do seu quarto porque está depressiva e sempre a ver telenovelas. Fez-me rir bastante.

Joy tem assim um tipo de humor que eu aprecio muito, mas não deixa de ser estranho que esse seja o ponto mais fraco do filme, pois muitas vezes o realizador deixa transparecer a ideia de que não se sabe muito bem para onde nos dirigimos, se para algo sério sobre a vida da mulher que inventou uma esfregona revolucionária (e só de pensar nisto, dá-nos logo para rir) ou se é suposto apenas olharmos para tudo sem grande importância.

Mas penso que é por isso mesmo que tantas vezes se chama dramédia a este género.

Vale a pena ser visto, principalmente pela actuação brutal da Jennifer Lawrence (nomeada para o Oscar por este papel) e que mais uma vez se assume como uma das melhores actrizes do cinema actual. Não esquecendo, claro, Robert De Niro e Bradley Cooper




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

[ opinião ] Bridge of Spies: Ponte dos Espiões



Um filme de espiões na Guerra Fria. Não nos parece que já vimos isto antes?
E a verdade é que vimos. Mas Steven Spielberg pegou neste filme à sua maneira, dando-lhe uma excelente produção, com momentos de tensão pulsante. 

Para isso contribui e muito também o excelente trabalho dos actores Tom HanksMark Rylance, principalmente o deste último, que é completamente sublime e brilhante naquilo que faz.

Bridge of Spies traz-nos aquela sensação de nostalgia, até de um certo déjà vu, mas não sem nos afirmar fortemente que as suas regras, clássicas de um antigo cinema americano, não estão esquecidas. Elas trazem-nos afinal a lembrança agora bem presente de um tipo de cinema que ainda brilha.

É aí que o filme atinge o seu ponto máximo.

Mas será também por isso que este não será agradável para todos, deixando um pouco de parte algumas gerações mais novas, de espectadores, que já não se encaixam neste desacreditar tão saudável desta forma de (re)contar uma História. 

Está nomeado para 6 Oscar, incluíndo o de Melhor Filme e o de Melhor Actor Secundário para Mark Rylance

Por mim, venceria nesta segunda categoria.