segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

[ opinião ] Rogue One: Uma História Star Wars




Para um fã... escrever uma crítica a um filme Star Wars é algo extremamente difícil. Ainda por cima sou daqueles (poucos) fãs que não odeia as prequelas e que vê em todos os filmes da saga algo de valor.


Foi, por isso, bastante ansioso que me sentei na sala de cinema para ver este Rogue One

Montes de SPOILERS a seguir. 

Com o início fiquei logo apreensivo e ao mesmo tempo entusiasmado. Afinal o filme arriscou a abrir logo de forma diferente, sem as tradicionais letrinhas amarelas a arrastarem-se pelo ecrã como uma nave espacial... e afirmando-nos logo que este sim seria completamente diferente dos filmes numerados da saga (actualmente dos episódios I ao VII)

E daí poderia vir algo mau ou bom, pensei.

A primeira hora do filme desenrolou-se sem grande êxtase para mim, mas mesmo assim estava a adorar os novos personagens muito carismáticos e originais (o lado negro e o lado da luz de alguns deles, a forma como não são só bons ou maus, é fenomenal). Só que faltava-me ali qualquer coisa... apesar de já ter havido alguns hints óbvios à saga (como a surpresa da presença do senador Organa, pai adoptivo da Leia)

Curiosamente, até a banda-sonora (sempre tão importante nestes filmes) não estava assim a deliciar-me tanto como deveria.

Mas é então que chega a grande reviravolta que veio tornar Rogue One num dos melhores filmes Star Wars.

Quando tudo se junta e a rebelião ganha Força, começa um festival de fan service como nem o The Force Awakens (TFA) conseguiu ter. Por fan service entenda-se algo como o filme fazer referências atrás de referências a personagens, eventos, locais, etc, que marcaram de tal forma o imaginário da saga que causam logo arrepios nos fãs à medida que vão aparecendo. 

Mas não vou debruçar-me sobre todos os easter eggs e cenas óbvias que ligaram este filme ao episódio IV (e restantes). 

A música melhora a partir da primeira metade do filme, enquanto este nos leva para uma das mais épicas batalhas espaciais (e terrestres) de sempre. 

Resta-me apenas dizer que para mim este foi o Star Wars mais negro que vi no cinema. Pela primeira vez senti mesmo medo do Darth Vader, pois o seu dark side foi levado para níveis que nem na trilogia original eu vi (por mais assustador que fosse nos episódios originais, nunca me pareceu totalmente cruel e malvado como vi nesta última cena). E depois da humanização do personagem que foi feita nos episódios I, II e III, conseguir torná-lo completamente terrificante ao fim de tantos filmes (de tantas décadas) é talvez o maior feito de Rogue One, do seu realizador e de toda a equipa brilhantes por detrás disto.




Há fãs e críticos que dizem que este é o melhor Star Wars de sempre. Não concordo nem discordo, por agora, pois apenas posso dizer que senti aqui muito mais liberdade criativa do que no The Force Awakens, o que acaba por ser um pouco estranho, visto que este filme estava entalado entre dois episódios e assim mais limitado em tempo e espaço, quando o TFA tinha muito mais por onde evoluir e seguir.

E atenção que eu amei o TFA e considero-o (ao fim de um ano) um sólido número 3 no meu TOP da saga.

Como não gosto de julgamentos no calor do momento, irei ver e rever este Rogue One e daqui a muito, muito tempo, decidirei onde irá encaixar no meu exigente ranking de fã. 

Mas posso já adiantar o seguinte, com toda a certeza, os fãs desta saga estão a viver tempos fantásticos. 

The Force is strong with this one!


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Supergirl, DC Comics e a visibilidade LGBTI



Para a editora e produtora DC Comics as questões LGBTI não são de todo uma novidade, tendo sido feitas já várias abordagens dentro desses temas nos seus variados produtos de entretimento. Assim de repente lembro-me de alguns personagens gay e lésbicas da série de tv Arrow, do livro Batwoman: Elegia (sobre o coming out da Batwoman), recordo-me do assumir da bissexualidade da icónica Catwoman e até da discussão sobre igualdade de género já referida várias vezes em Legends of Tomorrow (série de tv). No cinema, Ezra Miller fez história ao ser o primeiro actor openly queer a ser escolhido para protagonizar o super-herói The Flash, derrubando assim outro preconceito: o de que actores assumidamente lgbti não teriam esta oportunidade.

E há muitas outras provas de que a DC luta bastante pela visibilidade destes assuntos no seu vasto universo de heróis e heroínas. De facto há tantas provas disso que não sairia daqui hoje para as nomear. 




Mas hoje venho falar-vos de SupergirlAtenção aos SPOILERS para quem ainda não viu a season 2.  Sendo um programava de tv sobre uma rapariga que tem super poderes, ao ponto de ser quase invencível, esta série sempre teve desde o início um tom muito feminista, mais ou menos directo. Os produtores não esconderam de ninguém que tinham intenção de tocar em vários pontos da discriminação de género no local de trabalho (por exemplo). Portanto, logo aí foram dados passos em frente, fazendo do guião não só algo de puro entretenimento, mas também algo que poderia levantar questões e provocar o pensamento dos espectadores. 

Chegamos à segunda temporada. E a DC e o canal The CW parecem cada vez mais apostados em levar à frente a sua (super) luta pela igualdade.

Antes de continuar, convém dizer que já vi muitas séries e filmes onde foram abordadas situações de coming out. Mas penso que nenhuma cena me tocou tanto como a que vi recentemente em Supergirl.

O guião começou a desenvolver-se nesse sentido aos poucos, subtilmente revelando que uma personagem que já conhecíamos desde o primeiríssimo episódio poderia afinal não ser bem aquilo que todos tinham concebido dentro das nossas mentes mais ou menos estereotipadas (como de resto acontece na sociedade em geral).

As pistas para o que viria a seguira intensificam-se, quando num certo episódio essa personagem descobre que há um bar na cidade onde se encontram todos os aliens (neste caso, literalmente, seres de outros planetas), porque só aí se sentiam seguros... e longe do preconceito e da alienfobia que viviam lá fora. O paralelismo aqui presente é mais do que óbvio, certo?

Mas para não deixar escapar isso a ninguém, logo nessa cena uma outra personagem revela ser lésbica (num diálogo absolutamente natural) e deixa logo assente aquilo a que se propõe o show a partir daí.




Ao ser exposta a tanta liberdade e abertura de espírito, a agente Danvers (irmã da Supergirl) começa então a questionar a sua vida até então. E o espectador acompanha-a. De facto foi sempre uma personagem que desde o início nunca teve uma vida social para além da convivência com a sua irmã e amigos, sendo sempre muito focada no trabalho, sem grande tempo para nos dar sequer espaço para indagar sobre a sua vida pessoal mais íntima. E então tudo começa a fazer sentido. 

Ao perceber que afinal é também ela própria diferente da maioria, ao ver que há ali naqueles aliens algo que se aproxima de si, a agente Danvers leva-nos para algumas das cenas de coming out mais bonitas e tocantes de que há memória.

E porquê?

No vídeo que vou partilhar aqui podem entender melhor, ouvindo o diálogo das duas irmãs, mas aquilo que mais me emocionou foi ver que os guionistas tiveram a audácia de tocar aqui num ponto que muitas vezes é posto de lado, injustamente. E esse é o ponto de vista é o das pessoas a quem nós fazemos o nosso coming out, que nem sempre sabem como reagir (mesmo quando nos aceitam plenamente). Mas a Kara Zor-El, a Supergirl, vai mais longe e pede desculpa por nunca ter dado espaço para que no seu crescimento juntas pudessem falar naturalmente sobre a homossexualidade, mesmo quando ela própria vivia algo semelhante ao ter de esconder do mundo uma parte de si própria (afinal ninguém poderia saber que ela tinha superpoderes)

A vida é cheia de metáforas e artifícios que usamos para contornarmos várias dificuldades do nosso dia-a-dia, tornando-as assim muitas vezes mais aceitáveis. Não é que tenhamos um poder especial para o fazer. E aqui está uma das heroínas mais poderosas da terra a mostrar-nos que até ela não sabia como lidar com uma situação destas. O seu desconforto é perfeitamente justificado. 





Talvez muitos e muitas não saibam, mas a DC Comics sofreu um vil ataque nos anos 50 do século XX, quando o conceituado psiquiatra Frederic Wertham publicou uma tese em que afirmava que as histórias de Batman e Robin estavam a tornar as crianças homossexuais. Sim, isto aconteceu e foi dito e escrito por um dos psiquiatras mais reconhecidos da altura! E foi tão grave que a DC, para não perder nas vendas de livros,  teve que reformular os seus comics e introduzir à força a personagem Batwoman, como par romântico do Batman, de forma a afastar essas afirmações falsas de que haveria um romance gay entre o Batman e o Robin. Só que a introdução da Batwoman foi tão forçada que a própria DC decidiu matá-la anos depois... para a fazer reaparecer no seu universo, muitas décadas passadas (e já nos anos 2000), como uma heroína lésbica.

Não é brutal? A DC encontrou uma forma de se vingar de tamanha injustiça e não só o fez em grande estilo criando uma obra de referência, como aproveitou para afirmar com toda a garra que luta e lutará pela visibilidade das minorias.

Agora digam-me, como poderei não amar? Não escondo de ninguém, no mundo da banda-desenhada a DC e o Batman sempre foram os meus amores desde criança (se aquele psiquiatrazinho descobre isto!). Então imaginem o que é perceberes que a tua editora favorita tem vindo a mostrar cada vez mais apoio à tua própria causa? É que quando me apaixonei pelo trabalho que desenvolviam não fazia a mínima ideia de que um dia sentiria toda esta abertura em relação a temas tão frágeis. 

Os heróis são reais, afinal. E não me digam o contrário. Pois sei bem a esperança que pode significar, no seio de uma família, ver uma cena destas na televisão a mostrar-nos que não há nada a temer em sermos nós próprios... com super poderes ou não.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

[ livro em destaque ] Olhos de cão azul - Gabriel García Márquez



Todas as quintas-feiras vou trazer-vos uma sugestão de leitura, que pode ser de um livro clássico ou mais recente, independentemente do género ou autor, desde que não seja um dos livros mais falados do momento (vocês sabem, aqueles que geram o buzz mediático entre leitores). A ideia é dar destaque a obras que não devem ser esquecidas. 


Hoje trago-vos um livro de Gabriel García Márquez (prémio Nobel da Literatura em 1982)

Olhos de cão azul é uma colectânea de vários contos que o autor publicou entre 1947 e 1955, sendo que um dos temas principais destas histórias é a morte.

Pelo menos é essa a ideia com que ficamos quando já vamos a meio da leitura e começamos a entender que os contos parecem sempre debruçar-se sobre esse tema, de uma forma por vezes muito fantasiada e plena de imaginação, mas que ainda assim não escapa ao realismo das questões humanas que rodeiam a finitude da vida. 

Destaca-se uma escrita que penetra na consciência (pós-morte ou em vida) de alguns personagens, com um estilo a que nenhum leitor ficará indiferente.

É um óptimo livro para quem quiser experimentar pela primeira vez algo deste autor e ficar assim a conhecer melhor os seus devaneios sobre os problemas existenciais numa escrita embrenhada em fantasia realista. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

[ opinião - música ] Lady Gaga - Joanne




Em 2016 cumpriu-se a temida profecia, Lady Gaga afastou-se da Pop e trouxe-nos um álbum de rock (com muito country e indie-rock), deixando assim milhares de fãs desesperados pelo hino pop que não veio para agitar as pistas de dança habituais. O Apocalipse Pop chegou!

É verdade que Joanne é muito diferente de tudo o que já fez, mas não esqueçamos as suas incursões no jazz (ao lado de Tony Bennet) ou mesmo os diferentes estilos musicais que já tinham sido experimentados em Born This Way e versões live de alguns dos seus hits

E atente-se no seguinte. Gaga acaba de provar, mais uma vez, que é provavelmente a artista mais versátil destes tempos. Dona de uma voz poderosa, ela será também dona da sua carreira e este álbum parece ser mais uma afirmação disso do que um querer seguir as tendências musicais do momento.

Talvez seja injusto comparar trabalhos tão diferentes entre si, mas há algo em Joanne que se destaca logo. É a música Sinner's Prayer, muito melhor do que qualquer faixa do terrível ARTPOP.

A-yo, Diamond HeartDancin' in CirclesMillion Reasons são outras faixas que se juntam para justificar que este é um álbum magnífico

Não lhe escrevi uma crítica aquando do seu lançamento por uma razão óbvia. Tive logo a certeza de que precisaria de algumas semanas para largar a Gaga do Pop (que afinal nem me tinha convencido com os excessos electrónicos do último álbum). E assim Joanne começou a crescer em mim.

O facto de apreciar rock e algumas sonoridades do country ajudaram muito a que assim fosse.




Desengane-se quem achar que encontrará aqui a extravagância de outros tempos, seja a nível visual ou sonoro. Prova disso é a simples dive tour, desprovida do grande aparato, que fez pelos bares em Nova Iorque.  E talvez nenhuma canção se destaque ao nível de se tornar um hit intemporal como Bad Romance ou Poker Face (e lá vimos nós com as comparações!)

Mas a produção é de ouro, com melodias e letras que dificilmente nos largam.

E nisso devemos louvar-lhe o seguinte, não há uma única faixa que não tenha a assinatura Germanotta, como prova de que ela foi maestra desta criação.

Só o tempo dirá onde cairá este trabalho, se no esquecimento ou nos tops dos fãs (novos e antigos)

No meu top pessoal este fica, para já, só atrás do épico ep The Fame Monster.

E noutras considerações, nunca vi esta artista ao vivo porque não existia apelo suficiente, e se a oportunidade chegar, não deixarei escapar um espectáculo de promoção deste álbum. Com isto disto, escusado será acrescentar mais qualquer coisa. 

Hereee we go!







domingo, 27 de novembro de 2016

[ opinião - cinema ] Arrival: O Primeiro Encontro





"Doze naves extraterrestres chegam a vários pontos do mundo e uma tradutora e especialista em linguística é chamada pelo governo dos EUA para se deslocar com uma equipa ao interior de uma das naves, de forma a tentar entrar em contacto com os alienígenas e entender o propósito da sua visita. Vêm em paz? São uma ameaça?"


Arrival (O Primeiro Encontro) é provavelmente o melhor filme deste ano. E um dos filmes mais inteligentes que já vi. 

Dizê-lo assim pode parecer suficiente para levar qualquer um a vê-lo, mas agora entramos noutro campo. Este é um filme de ficção científica pura e dura, daquela que te obriga a pensar, que te dá mais questões do que respostas óbvias, mas que te faz sair da sala de cinema completamente atordoado.

Foi o que senti. Saí de lá incrédulo com o que tinha acabado de ver.

Não esperam explosões de 5 em 5 minutos nem naves supersónicas a sobrevoar os céus a cada cena. 

Elas, as naves, estão ali paradas... com a mesma inércia que o filme parece ter na primeira metade, quando tudo ainda nos parece estranho, confuso e escuro, ainda que empolgante. 

Depois vem a revelação final, quando o filme inicia gradualmente a ganhar mais cor e tu começas aos poucos a entender tudo o que te estão a contar desde o início. E é arrebatador.




Afinal esta poderá ser uma história mais sobre a família, a dedicação e a (in)compreensão humana. Mas debater isso aqui seria levantar demasiados spoilers e não o quero fazer.

Por ser uma obra de um género muito específico, esta película e as questões que levanta passarão ao lado dos espectadores menos atentos e que não buscam este tipo de filosofia numa sala de cinema. Mas aí está Arrival a dizer-nos que nem tudo está perdido no cinema americano das grandes bilheteiras.

Destaque ainda para a actriz Amy Adams e o actor Jeremy Renner, que nos trazem prestações de peso e ajudam a acrescentar muita densidade à história. E um grande aplauso também para a direcção e realização com planos e perspectivas que enchem a vista, sempre acompanhadas por uma banda-sonora de excelência. 

Para ver. Pensar. Rever. E repensar. 

E que venham daí as merecidas nomeações aos Globos de Ouro e Óscares. 


sábado, 26 de novembro de 2016

DEIXA-ME SER: comentário sobre o livro



Acredita quando digo que tenho recebido só amor e uma força muito positiva sobre o livro. Muitas mensagens foram escritas, daquelas de arrepiar. Muitas palavras me foram ditas frontalmente, sempre vindas de pessoas de lágrimas nos olhos, orgulhosas de puderem mostrar-me o seu apoio.

E a todas estas pessoas estou muito agradecido. Escrever é bonito. Publicar um livro, dá-lo a ler toda a gente, é muito mais do que bonito. É outro nível da tua existência como escritor. É receber pensamentos que te levam mais adiante, que te fazem questionar e repensar aquilo que tu próprio escreveste. Há uma certa magia nisso, sabem? Como se fosse alguma partilha transcendente entre quem inventou aqueles textos e quem os quis ler. Então neste livro, por ser de cariz biográfico, isto intensifica-se. E hoje trago-vos parte de um longo texto que me foi enviado por um dos leitores deste "Deixa-me ser".

Com a devida autorização, partilho-o aqui, juntamente com algumas informações. O Pawel, quem escreveu o que vão ler, é um jovem que eu não conhecia... até ao dia do lançamento do livro em Lisboa. Ele foi lá para assistir e comprou um livro no final. O Pawel não é português (já tinhas desconfiado pelo nome, não é?). Por que friso esse aspecto? Bem, tal como ele, eu sei muito bem o que é estar longe do teu país, da tua língua, da tua zona de conforto, etc. Também sei o que é chegar a outro país e de repente surgir aquele receio de "Como serão tratados os temas LGBT aqui? Que tipo de aceitação há? Que tipo de discussão se levanta?". É que nós, os diferentes, teremos sempre que pensar nesses pormenores, sabes? 

Logo tenho muito Orgulho de que ele tenha lido o meu livro numa língua que não é a sua... e de que me tenha dirigido palavras tão certas e tão bem redigidas sobre a minha obra. É disto que falei antes, de levantarmos novas questões, de analisarmos outros pontos de vista. E de assim andarmos todos juntos em frente.

A ele agradeço por tudo o que me disse, porque embora eu não seja religioso, devo reconhecer o seguinte: sou um ser muito abençoado. E quando lerem as palavras dele, já vão entender porque digo isto.

Seja sorte, resultado da minha luta, seja o amor. Ninguém me convence do contrário, há uma Força muito grande por detrás disto tudo.

E ele escreveu então assim:

"Caro Filipe,
Há duas horas terminei a leitura da tua autobiografia e, se não te importares, queria partilhar contigo algumas das minhas impressões e observações. (...)
A meu ver, todo o relato daqueles (quase) dez anos da tua vida é muito comovedor, especialmente as primeiras páginas onde descreves as tuas experiências que de todas as formas foram muito dramáticas. Nem eu desejava ao meu pior inimigo que tivesse passado por coisas parecidas. Graças a Deus, foste salvo, tanto por ti mesmo como pelos teus familiares e amigos, para realizar vários projectos de grande valor, entre os quais se encontra o teu livro.
(...) Primeiro, é um facto indiscutível que a homofobia e o discurso de ódio em relação às pessoas não-heterosexuais continuam a ser presentes na nossa sociedade, seja em Portugal, seja na minha terra natal, ou em qualquer outra parte do mundo. Felizmente, cada vez há mais pessoas como tu, que começam a falar em voz alta sobre a necessidade de reconhecer os direitos das pessoas LGBT para que elas sejam aceites plenamente na nossa sociedade. Tenho a certeza absoluta de que o teu livro será um grande apoio para muitas pessoas, ajudando-as a acreditar que ser pessoa LGBT é algo absolutamente normal.
Depois hei-de te confessar algo mais privado acerca das minhas observações: acredita... nunca tive problemas nem dificuldades por ser gay, seja em família, seja entre amigos. Sem dúvida, o maior contraste entre as nossas experiências consta na atitude do pai: o meu aceitou-me sem maior obstáculo. Claro, tenho a certeza de que ele preferia que eu tivesse uma namorada e, em seguida, um lar com futuros filhos que seriam seus netos, pois ele sempre sonhou em ter uma família numerosa. Mas sabe que a minha vida é só minha e que os dois precisamos um do outro.
O que quero dizer é que a leitura do teu livro me permitiu apreciar de maneira completa e evidente a vida e as experiências positivas que tenho tido nos assuntos que uma pessoa homossexual pode ter.
Termino já esta pequena redacção para não cansar demais os teus olhos. Fica a saber que és um grande herói, podes crer!
Mando-te um grande abraço."

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

[ livro em destaque ] A Democracia - Bernard Crick




Todas as quintas-feiras vou trazer-vos uma sugestão de leitura, que pode ser de um livro clássico ou mais recente, independentemente do género ou autor, desde que não seja um dos livros mais falados do momento (vocês sabem, aqueles que geram o buzz mediático entre leitores). A ideia é dar destaque a obras que não devem ser esquecidas. 


Começo por um livro que não é propriamente de leitura fácil, mas que é bastante desafiador do pensamento.

O autor, Bernard Crick, foi um teórico político inglês que dedicou parte da sua vida ao estudo dos vários conceitos... políticos. 

A Democracia é portanto um livro que debate sobre os significados da palavra que lhe dá o título. Com recurso a muita contextualização histórica, a obra passa pela antiguidade greco-romana, pelas revoluções francesa e americana, entre outros pontos bastante interessantes da História, como a queda do muro de Berlim.

Para além disso, não faltam referências ao trabalho de outros historiadores e filósofos como Jean-Jacques Rousseau e Maquiavel, ou mesmo à obra literária de George Orwell (1984). 

Apesar de ter vários tipos de contextualização, o livro acaba por ser difícil de acompanhar para quem não tenha boas bases da História mundial, mas por outro lado pode tornar-se um incentivo para fazer outras pesquisas ao mesmo tempo em que se faz a leitura. Atente-se que não é um livro muito extenso, apenas com 120 páginas, por isso sente-se que alguns dos temas podiam ser melhor aprofundados (ainda que esse trabalho possa ser feito pelo leitor, como já mostrei).

É de facto uma obra bastante rica, que nos ajuda a diferenciar os vários tipos de democracia e até a entender, ou não, o que está mal nos nossos sistemas políticos actuais.

Escolhi este livro como sugestão por motivos óbvios. Vivemos tempos de mudança no cenário político global (para melhor? para pior?) e assistimos cada vez mais ao ecoar de vozes de um certo tipo de populismo que parecia adormecido.

Não querendo levantar um debate político, fica apenas esta indicação de leitura, com a esperança que vos ilumine de alguma forma as ideias sobre um dos conceitos mais usados no mundo actual: a democracia. 


Encontra-se à venda na Fnac (não encontrei na Bertrand ou Wook por exemplo).

terça-feira, 22 de novembro de 2016

[ opinião - cinema ] O Herói de Hacksaw Ridge



Filmes sobre a segunda Guerra Mundial e patriotismo americano há muitos, mas haverá poucos que falem de um homem que foi para a guerra recusando-se a tocar numa arma que o ajudasse a matar.

Baseado na história real de Desmond T. Doss, O Herói de Hacksaw Ridge traz-nos a luta de um jovem que queria estudar para ser médico e não conseguiu, devido aos problemas financeiros da família, o que o levou mais tarde a alistar-se no exército norte-americano para assim participar na segunda Grande Guerra. Mas o seu objectivo era apenas salvar os seus companheiros, sem recurso a armas, desafiando todas as regras do exército. 

Este é um filme poderoso, ainda que na sua primeira parte assente demasiado nos cliché do género (como aquele do jovem que parte para a guerra e deixa a namorada em casa)

As convicções de Desmond são sobretudo religiosas e é daí que vem muita da sua resistência em pegar numa arma. Embora isso possa ser algo que à partida pode afastar os espectadores menos religiosos (como eu), é impossível não ficar emocionado ao ver a sua persistência em lutar pelas suas crenças e por aquilo que considera mais correcto.

É por isso, quando o filme deixa aquele território já muito explorado em películas de guerra, que a história deste homem ganha fulgor e se destaca. Curiosamente é também nessa segunda parte, a melhor, que tudo se torna mais violento graficamente, com cenas tão explícitas que fazem lembrar de imediato outra obra do Mel Gibson, o mesmo realizador de A Paixão de Cristo

Religião e patriotismos à parte, diga-se a verdade, estamos perante um dos grandes filmes do ano, que só não é épico do início ao fim por querer ser demasiado explicativo (e contextual) no começo. 

Ainda assim, a excelente realização, edição e banda sonora dos momentos cruciais da última parte são mais do que suficientes para o elevar ao patamar dos melhores filmes do género.

Destaque ainda para a brilhante interpretação do actor Andrew Garfield, que na perfeição retratou este homem determinado e firme na perseguição das suas convicções.






sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Itália: TOP 15 das cidades que visitei



Então... depois de muitos meses do meu regresso, finalmente, consegui fazer o meu TOP de cidades/sítios favoritos em Itália

Durante o tempo em que vivi lá (10 meses), visitei mais de 30 lugares... e acredita que isto foi muito difícil de fazer! 

Itália é um país lindíssimo e com tanta diversidade cultural e de património histórico que é quase impossível escolher um lugar favorito sem ser automaticamente injusto para com os restantes. Para isto quis destacar também cidades que não são tão turísticas, pois muitas vezes são tesouros escondidos, mas como vais perceber... o topo da lista é feito de cidades muito populares. A questão é... estas são bastante famosas por algum motivo e é impossível fugir a isso.

Mas vá... devo dizer que os primeiros 4 lugares foram os mais difíceis de escolher. E sei que muitas pessoas vão discordar do meu número 1, mas deixa-me deixar explicito que obviamente a minha opinião foi baseada naquilo que estes locais me fizeram sentir e por isso é extremamente pessoal.

E para contrariar um pouco isso decidi não usar fotos tiradas por mim e servi-me do google para obter as imagens usadas e manter isto o mais relatable possível, mas também para dar o mínimo de detalhes sobre cada lugar (só usei uma foto de cada, pois quero que descubram por vocês!).

Para facilitar dividi as regiões só entre norte, centro e sul (embora algumas sejam mais a nordeste, sudoeste, etc).





15 - PISA (região: Toscana)

Começando por baixo. Muitas pessoas pensam que Pisa só tem a torre inclinada para ver, blá, blá! A verdade é esta: Pisa é linda! Caminhando pela cidade poderás encontrar muitos pontos interessantes. Só na praça desta imagem há outro monumento brutal... que não está visível na foto. Vai! Vale a pena!





14 - MILANO (Milão, região: Lombardia, norte)

Oh... Milano! A cidade que todos amam odiar. Mas tens que ir e ver o Duomo e a Galleria Vitttorio Emanuele II. Esta é a galeria de lojas super caras como a Prada e a Versace, mas não acho que devas ir por uma questão de moda... e sim porque vais deparar-te com a magnificência da arquitectura (mais moderna). 





13 - PERUGIA (região: Umbria, centro)

Tens que subir e descer as ruas de Perugia para perceber quão fantástica é esta cidade (construída no topo de colinas). Eu fiquei maravilhado e surpreendido... também tens que visitar os fabulosos e históricos túneis que outrora faziam parte de uma verdadeira cidade subterrânea nesta localidade. Não digo mais, porque o giro é descobrir quando se chega lá!






12 - POMPEI (região: Campania, sul)

Falando de História... podes argumentar que aqui só há ruínas. E é verdade... mas olha com mais atenção, olha à volta e vê o vulcão Vesúvio logo lá ao fundo...e vais amar! Para além disso, a viagem de comboio até Pompeia mostra-te parte da costa do sul de Itália e chegado às ruínas da cidade poderás visitar o interior das casas e perceber como se vivia lá, antes da erupção vulcânica que destruiu tudo. 




11 - GUBBIO (região: Umbria, centro)

Simplesmente uma das vilas mais fantásticas onde já estive. É como viajar no tempo, senti como se estivesse dentro de um conto de príncipes e princesas muito antigo, onde cada rua e casa parecem ter sido mantidas de forma inalterada. Subir ao topo do monte e apreciar a vista sobre o vale e as montanhas é algo que não tem preço. Não é tão fácil de lá chegar... mas vale o teu tempo, acredita!





10 - ORVIETO (região: Umbria, centro)

Outra vila onde não é tão fácil chegar... apesar de não ser muito longe de Roma. A sua catedral é um das mais fantásticas peças de arte e da arquitectura que vi em Itália. Orvieto está no topo de uma montanha por isso espera uma paisagem de te tirar a respiração. E é outro dos locais que parece ter ficado brilhantemente parado no tempo.  




9 - RAVENNA (região: Emilia-Romagna, centro/norte)

Uma pequena cidade que tem muita importância. Aqui poderás visitar o túmulo de Dante (os dois túmulo aliás, numa história muito característica que poderás descobrir quando visitares o local). E aqui apaixonei-me por cada edifício que vi. É tão diferente, tão bonita! Curiosidade: Ravenna também tem uma torre inclinada como a de Pisa (e estas não são as únicas neste país).





8 - VITERBO (região: Lazio, centro)

Na parte antiga desta cidade senti como se estivesse no set de filmagens de um filme do Senhor dos Anéis (ou algo do género vá!). É realmente tão romântica e épica ao mesmo tempo que torna-se de imediato uma vaga de inspiração num simples caminhar por aquelas ruas. Acrescente-se a isso os vários contrastes arquitectónicos que este sítio tem e temos um selo de "obrigatório visitar". 




7 - TRIESTE (região: Friuli-Venezia Giulia, norte)

Esta foi tão diferente de tudo o que vi em Itália. Trieste é muito organizada, muito limpa e bonita em cada canto. Eu chamei-lhe a "cidade branca", devido às cores que imperam nas suas paredes, chão, etc. E fica na costa do mar adriático... o que lhe dá uma aura especial nas noites quentes de Verão. Acredita! Trieste é um tesouro escondido!





6 - BOLOGNA (região: Emilia-Romagna, centro/norte)

É muito injusto que Bologna não seja um dos pontos mais turísticos deste país, porque a cidade merece-o. Mas ao mesmo tempo é mesmo bom que não o seja, porque assim consegues visitar tudo sem o caos e confusão de turistas. É lugar mágico, cheio de História, mitos e edifícios seculares que te deixam a questionar como raio é possível que ainda ali existam assim em tão perfeitas condições. E tens que subir à torre mais alta das Duas Torres (uma também é inclinada e não dá para visitar por ser perigoso). A vista lá de cima, sobre a cidade, é inesquecível. 





5 - ROMA (região: Lazio, centro)

Fontana di Trevi, Coliseu, Piazza del Popolo... a lista continua e continua. Há tanto para ver e fazer na cidade eterna. Como não amar? Mas porque não é o meu número 1? O trânsito e caos turístico são um problema real em Roma... que não consegues ultrapassar facilmente. E isso prejudica muito a experiência. Mas é óbvio que tens de ir lá. Roma é única, não há igual, e vais amá-la de qualquer das formas.






4 - SIENA (região: Toscana, centro)

Siena. Antes de mais, devo ser completamente sincero nesta. Siena é sem dúvida nenhuma a cidade mais bonita que visitei em Itália. Foi a última onde fui e só estive lá um dia. Por pouco seria a minha número 1 nesta lista, mas o facto de ter estado mais tempo nas outras 3 pesou bastante... pois acabei por ter mais vivências e experiências nessas. Bem... ainda assim Siena foi uma enorme surpresa para mim. Eu não esperava sentir tantos arrepios quando cheguei à Piazza del Campo (no centro). É um local que te arrasa... pela forma como foi projectado, com tanta beleza, com o seu pavimento de pormenores únicos que te deixam sem... chão. Não há foto, vídeo ou palavra que façam justiça ao épico que é este lugar. 




3 - FIRENZE (Florença, região: Toscana, centro)

É o meu grande amor. Fui lá 5 vezes. E só isso diz muito sobre o sentimento que tenho por esta cidade. Ela é arte em cada passo, cada esquina, cada janela, cada detalhe. A praça do Duomo é de levar uma pessoa mais sensível às lágrimas quando ali se chega pela primeira vez, com um poder que transcende, baseado em tantos anos de História que ficaram ali marcados. Escapar das vias mais turísticas e perder-se nas vielas mais abandonadas pode levar a uma das melhores experiências da tua vida, que é descobrir que esta cidade é História em toda a parte. Mas claro, terás que ir aos locais mais icónicos e ver a perspectiva da cidade da piazza Michelangelo, subir à torre do Duomo, passar a Ponte Vecchio... e mais, e mais! 




2 - NAPOLI (Nápoles, região Campania, sul) 

Napoli. Muitos dizem que esta cidade é perigosa, por causa da Máfia e do crime, mas para mim o perigo real foi apaixonar-me desde o primeiro instante em que ali cheguei. Pode não ser a cidade com os monumentos mais bem conversados... pode ser mais suja... e até mais plena de confusão, mas a magia de Napoli está nas ruas apertadas onde passam 3 e 4 vespas de uma vez, conduzidas por alguém sem capacete, a magia é percorrer a costa junto ao mar e acabar num dos castelos históricos, é morrer de calor às 2 da manhã em Agosto, comer pizza por 2 e 3€ (o sul de Itália é muito barato em comparação com as restantes regiões). Bem... Napoli tem que se viver verdadeiramente, de mente aberta, aceitando a abertura tão natural da gente que habita uma das cidades mais pobres da Europa. E se Firenze é o meu amor, Napoli é a minha amante. Vê bem a paisagem que esta foto ilustra e tens aí todas as justificações possíveis. 




1- VENEZIA (região: Veneto, norte)

Mas não há duas sem três, então o meu primeiríssimo posto ficou reservado para Veneza, outra espécie de amor que ganhei em Itália. Está aqui no topo por uma simples da razão. Tal como Roma, Veneza é aquela cidade que tu pensas que já viste em todo o lado (nas fotos que o teu amigo partilhou, no cinema, na televisão, etc). É sim, uma cidade extremamente popular e disso não se pode fugir. Então quando lá cheguei já estava à espera de gostar bastante, pelo que já tinha visto e sabido, MAS a verdade é que eu não fazia a mínima ideia do que realmente é aquele lugar. Fui completamente arrasado, completamente surpreendido do início ao fim. A dada altura perdi-me por umas ruas mais estreitas e foi aí que entendi que até ali dá para teres alguns momentos só para ti, longe da multidão dos selfie sticks. Sair de um beco e dar com um posto onde te podes sentar e apreciar uma gondôla que navega pelo canal, onde mais o podia fazer? Sim, isso pesou muito para o grau de paixão que nutri logo por Veneza. Mais? A Piazza di San Marco é provavelmente o local mais épico que se pode visitar neste país. Pode não ser o mais icónico, mas devia-o ser, pois é de uma beleza rara, que não te larga facilmente. Para além disso nesta estadia fiz a viagem de barco às três ilhas de Veneza (Murano, Burano e Torcello) e bem, isso só serviu para me obrigar a colocar esta magnífica cidade no primeiro lugar deste TOP. Poderia escrever tanto sobre os monumentos ou as simples casas com portas para os canais... mas não sairia daqui hoje. Resumidamente: Veneza é uma cidade única, não há igual, nem outra que se aproxime minimamente do seu estilo (e não falo só do facto de ter canais de água). Mas o melhor é ir lá (de mente aberta) e descobrir exactamente porquê.