segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Diário de Bordo #9: regresso a Nápoles e subida ao Vesúvio



É a quarta vez em Nápoles e finalmente consegui subir ao vulcão.


A primeira vez que visitei (e me apaixonei) por Nápoles foi em Fevereiro de 2015, voltei depois em Junho do mesmo ano e mais tarde em Janeiro de 2018.

De todas as vezes apanhei nuvens no Vesúvio, o que não facilitou a visita ao icónico marco da paisagem napolitana. 

Desta vez fiquei só por duas noites. 

Aproveitei o primeiro para regressar às ruas históricas e me deliciar novamente com os sabores do sul de Itália. 

Parmigiana bianca, Pizza (claro), Pasta e Patate... e nem vou continuar com a extensa lista de tudo o que comi porque acho que vos aumentava o colesterol só com as descrições. 

Digamos que já conheço a cidade de trás para a frente, por isso afastei-me um pouco dos locais mais turísticos e perdi-me por ruas mais escondidas, onde se sente e vive o verdadeiro espírito napolitano e onde consegui misturar-me com os locais e ter conversas mais ou menos banais com eles (o facto de falar italiano ajuda muito, obviamente).

Há quem deteste esta cidade e eu sei exactamente porquê. É caótica e nisso o trânsito mete medo. É suja e nem os monumentos antigos estão bem preservados como noutras cidades italianas bem famosas.

Mas há algo nesta honestidade do não querer saber e no calor das pessoas do sul que me apaixonou desde o primeiro instante. 

E foi com essa paixão que no segundo dia me emocionei ao chegar ao topo do Vesúvio contemplando lá de cima a beleza natural e única do Golfo de Nápoles. A calma do mar Tirreno. As ilhas. Pompeia ao fundo. Enfim... uma paisagem de nos deixar sem palavras.

A subida custa um pouco, mas com calma até se faz bem. Optei por marcar com uma agência e assim fui numa carrinha com mais 7 pessoas. O motorista deixou-nos mais ou menos a meio da montanha, até onde podem ir os autocarros e depois tivemos que subir uns 2 km a pé. Fui aproveitando para descansar em certos pontos e apreciar a paisagem e tirar umas fotos (levem água e uns snacks para o caminho). Tínhamos cerca de 2 horas livres para a visita até o motorista nos ir buscar novamente no mesmo ponto. Diria que para subir foram cerca de 30 minutos e para descer um pouco menos. 

Chegar à cratera do vulcão é uma sensação sem igual ou pelo menos para mim assim foi, pois era a primeira vez a visitar algo do género e fiquei abismado com o tamanho e profundidade da mesma. Imponente e majestosa... no mínimo. Neste dia até estava a fumegar e foi impressionante ver isso.

Quero lá voltar, num mês de mais calor talvez, pois agora em Janeiro notou-se bem a diferença de temperatura da cidade para o topo do Vesúvio, cerca de 10 graus a menos...

Ainda assim, foi um dia inesquecível e já posso riscar esta da bucket list.

Depois desci e fui comer mais, porque ir a Nápoles e não se deixar perder pelo prazer de comer é praticamente um pecado mortal.

No dia seguinte deixei a cidade já só a pensar num futuro regresso. Nunca sei explicar bem isso mas a música talvez o faça. That's amore.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Diário de Bordo #8: doar roupa aos sem-abrigo em Berlim e o perigo de o fazer sozinho

foto: "Toleranz" by Sascha Kohlmann, flickr


Qualquer pessoa que já fez algum tipo de trabalho voluntário com os sem-abrigo ou pessoas em extrema pobreza sabe que uma situação aparentemente "simples" pode escalar rapidamente para a rejeição... ou até mesmo para a violência.

É por isso que esse trabalho é (quase) sempre feito em grupos.

As pessoas que vivem nessas condições têm por vezes um grande conflito de sentimentos quando são abordadas, muitas vezes apenas por vergonha, porque não querem sentir-se "expostas", etc.

E eu que já fui voluntário antes em acções com adultos e crianças sabia perfeitamente que não me devia aventurar nisso sozinho.

Mesmo assim decidi fazê-lo agora.

Aproveitando a mudança de casa, escolhi alguma roupa e sapatos que já não usava e aproveitei para limpar o antigo apartamento e levar roupa que outros colegas de casa foram deixando para trás nas suas mudanças. Tínhamos casacos de inverno, camisolas muito quentes e tantas coisas boas que estavam ali sem uso, como é possível não termos pensado nisso antes?

Juntei também bastantes garrafas de plástico. Aqui na Alemanha cada garrafa de plástico tem aquilo a que chamam um código "pfand", ou seja, pagamos 25 cêntimos em cada compra (por exemplo uma água custa 1eur, pagamos mais 25 cêntimos). E depois voltando ao supermercado existem máquinas para a reciclagem que lêem esses códigos e nos dão o valor total num voucher que podemos gastar nas compras ou trocar por dinheiro.

Muitos sem-abrigo e pessoas com muitas dificuldades económicas vasculham os lixos pela cidade à procura dessas garrafas pois é uma forma de juntarem algum dinheiro e comprar alguma comida no supermercado.

Por isso decidi doar as muitas garrafas que fui juntando no último mês. Fui à estação de metro mais perto da minha casa e lá conversei com um dos sem-abrigo que lá estava. Normalmente são um grupo grande mas desta vez só encontrei um deles que não teria mais de 30 anos. Dei-lhe 2 sacos com roupa e calçado e ainda um saco cheio dessas garrafas. Ele praticamente ignorou-me, com vergonha, e eu entendi isso perfeitamente. Mesmo assim agradeceu-me timidamente... e a chorar, algo que me partiu o coração... nunca irei habituar-me a isto, nunca. Para não lhe causar mais "pressão", afastei-me um pouco, mas já conhecendo como estas coisas funcionam, fiquei a observar um pouco de longe, porque já sabia que alguém iria tentar roubá-lo. E foi exactamente o que aconteceu.

Vi um rapaz, um pouco mais jovem que o primeiro, a pegar no saco das garrafas e sair dali. Fui a correr atrás dele. Tirei-lhe o saco e disse-lhe que não o tinha dado a ele... ao que ele me explica que era irmão do primeiro rapaz e que estavam juntos. Desconfiei. Obriguei-o a voltar lá comigo para o provar. Aqui vi a situação escalar para outro nível, ele olhou-me desconfiado, puxou-me o saco outra vez e recusou ao início, mas depois lá me seguiu. Eram mesmo irmãos. E fiquei mais descansado.


Sobre este assunto não posso senão recomendar o livro do George Orwell "Na Penúria em Paris e em Londres". Li-o no ano passado e é um dos meus livros favoritos dele, juntamente com "A Quinta dos Animais" e, claro, o "1984"


O livro é autobiográfico, conta os anos em que o autor viveu como sem-abrigo em Paris e Londres, antes do reconhecimento mundial, e fala exactamente destas terríveis condições de viver na rua, das "máfias" que se aproveitam e roubam os mais desfavorecidos e dos perigos de quem por vezes quer ajudar e mesmo de quem recusa ajuda.


Continua tão actual hoje como no dia em que foi escrito. Aprendi isso, mais uma vez.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Berlin b964: techno química underground



Não é que neste caso haja um dress code, mas escolho vestir só preto, porque, digo-lhe, "combina com o meu estado de espírito".

Ao local não posso chamar bar ou nightclub porque talvez seja uma mistura ambígua dos dois. 

A entrada é fácil, embora haja alguma selecção, e o espaço não é muito extenso. É escuro, muito escuro, quase labiríntico, quase um bunker, quase um esconderijo que sobreviveu a alguma guerra. Os meus olhos demoram a habituar-se à escuridão, pois na rua ainda havia alguma claridade. Lentamente deixo a luz esvair-se por completo.

O meu amigo pergunta-me se quero beber uma cerveja e eu digo que sim. 

Quando já vejo, a primeira impressão é que ninguém se importa contigo, como estás vestido, quem és, com quem entras. Há gente de todos os tipos e feitios.

A techno marca um beat pesado que faz estremecer a parede onde me encosto. E com uma leve surpresa é um som que acalma e não enfurece. 

Música electrónica não é o meu forte, mas faz todo o sentido aqui. A ausência de vozes que nos distraiam, permitem-nos falar e não demora muito até eu decidir avançar para o spot onde uma luz vermelha ilumina o chão e as paredes em várias rotações arrítmicas. As luzes são só vermelhas. Tudo é vermelho e preto. Não há outra cor. É o lado negro de uma cidade que vibra por isto. E eu vim aqui para entender porquê. 

Não passou nem meia hora e já sinto que conhecemos toda a gente, mesmo sem nos falarmos. Há algo sedutor num local que parece proibido, mas onde tudo é permitido. Há algo fascinante num local que não se identifica com x ou y, que não parece ter um código de conduta, que não é masculino nem feminino, nem rico nem pobre.

Ninguém tem de o dizer, basta observar. Há um rapaz que vem falar comigo. E é aqui que me apercebo de que o volume da música foi adequado para nos permitir interagir. Fala mal inglês e eu não falo alemão. Por isso a conversa não flui. Quando se despede de mim e tenta sorrir, vejo tudo nos seus olhos. A alegria e o entusiasmo, mas também uma alma apática, desprendida e solta. Há alguma substância que o mantém vivo. Qual, não sei. 

Há uma espécie de jaula no meio da pista, ou antes uma grade que faz de conta ser uma prisão. 

É tão simbólico para mim que arrasto o meu amigo para lá, colocando-nos separados. Um de cada lado. O meu sorriso malicioso confessa logo tudo. Estranhamente o metal nem é frio quando o agarro com as mãos fingindo ser um prisioneiro. E é aí que acontece o beijo, com uma grade que nos separa. Parece uma cena de um filme indie sem grande orçamento. Parece uma bonita metáfora para as nossas existências. Tenho de escrever sobre isso mais tarde. Começo a imaginar as primeiras palavras... mas a techno que nos envolve é tão forte que me perco nos meus pensamentos. Há nisto algum tipo de amor instantâneo, um sentimento subitamente tão forte que causa arrepios nos nossos poros, numa pele agora tão sensível ao toque. Há mesmo qualquer coisa de química nisto, tanto no sentido científico quanto no figurado.

E ninguém quer saber. Ninguém questiona. Ninguém deixa as suas danças para se importar. 

É como se toda a liberdade do mundo estivesse ali e pela primeira vez em muitas semanas sinto os meus músculos relaxar e uma espécie de felicidade que não me visitava há demasiado tempo. 

Antes de entrar disseram-me: "aqui dentro cada um faz o que quer...".

E eu só acrescentei: "...e ninguém é obrigado a nada"

Estava certo.

Quando volto a sair para a rua já não tenho a certeza se a luz violeta no horizonte é o amanhecer ou ainda o crepúsculo. Depois caminho sozinho em direcção à estação e meto-me num comboio que me leva a casa. 

A minha rua não é a mesma. Está diferente. Demoro algum tempo a perceber porquê.

Só entendo tudo quando a minha cama me abraça e olho uma última vez pela janela para ver as cores do céu antes de fechar os olhos.

Somos corpos vazios em caixas rectangulares que se conectam por estímulos exteriores e impulsos eléctricos que nos dão vida antes do cansaço nos derrubar. Tento sorrir ao adormecer. O meu corpo ainda vibra com o bass daquela música estranha que me embala. Deixo-me ir. Quando acordar saberei melhor quem sou. 











sábado, 13 de abril de 2019

Como cheguei aqui... e como foi o curso na easyJet?




Como cheguei à easyJet?

Esta história começa há muito mais tempo do que se imagina. Em 2017 trabalhava num hotel na ilha da Sardenha e juntamente com um grupo de amigos tentei o teste online (o primeiro passo) para me candidatar como comissário de bordo (cabin crew). Falhei esse primeiro teste. E aqui fica a primeira dica. NUNCA façam esse teste com outras pessoas e no meio de barulho e confusão de outras conversas. Façam-no sozinhos, concentrados e vão ver que é muito melhor.

Como sou muito teimoso, não desisti. Aqui fica a segunda dica. NUNCA desistam de ir atrás do que vocês querem realmente.

Entretanto tinha de esperar mais 6 meses para candidatar-me outra vez e  surgiu uma oportunidade de entrar na Ryanair. Fui à entrevista, passei e atirei-me a isso com toda a garra.

Em Abril de 2018 voltei a candidatar-me à easyJet. Na altura ainda só estava há um mês na Ryanair... mas o meu objectivo sempre foi só ganhar experiência e procurar algo... diferente. 

O convite para ir a um "open day" da easyJet só chegou bem mais tarde, em Novembro desse mesmo ano.

Esse dia aconteceu num hotel em Berlim e depois de passar em todos os testes de grupo, individuais, online e na entrevista final, foi-me oferecido um lugar na easyJet

No dia em que chegou a notícia estava a operar um voo com a Ryanair e foi depois de aterrar que abri o mail e vi que tinha sido seleccionado. Primeiro gritei eufórico. Depois chorei de felicidade. Afinal, tanto tempo passado, tinha finalmente conseguido o que queria. 




Como foi o curso de cabin crew?

Digamos que para quem já tinha feito um curso de comissário de bordo antes, não foi propriamente uma novidade. Mas existem várias diferenças. Começando pelo mais óbvio... os aviões. Antes trabalhava num Boeing 737 e passei para a família Airbus, onde aprendi as especificações para operar voos em Airbus 319, Airbus 320 e 320-186. Parece simples, mas acreditem que todos têm configurações diferentes e o mais difícil foi esquecer tudo o que aprendi antes no Boeing.

Na easyJet o curso teve a duração de 3 semanas e aconteceu no aeroporto de Gatwick em Londres. A companhia paga-nos o voo até Londres, o alojamento (neste caso ficamos no Hilton) e desde o primeiro dia somos funcionários da empresa e estamos a ser pagos enquanto fazemos o curso (maravilhoso, não é?)

Por questões óbvias de segurança não posso dar muitos detalhes sobre o programa do curso, mas posso dizer que as 3 semanas são muito bem divididas entre os temas de Segurança na Aviação, First Aid (Primeiros Socorros) e Customer Service

E temos que estudar muito. Muito. Normalmente as aulas aconteciam das 8 às 17h mas em alguns dias tínhamos alterações no horário. Tivemos 2 dias off e depois outro off, basicamente para estudar e rever matéria. 

Por estarmos na Academia easyJet o curso é muito prático e todos os dias íamos treinar para o simulador, que é basicamente um avião montado só para o curso. Mas os bancos, portas, etc, etc, simulam (lá está) um avião real e isso é excelente para aprendermos onde está o equipamento de segurança, onde são as saídas de emergência, como se combate um fogo dentro do avião, como se entra no flight deck, como devemos agir em caso de descompressão da cabine,  etc, etc.

Essas 3 semanas são muito intensas, principalmente porque passamos muito tempo fechados. E já sei que vão dizer que estou a queixar-me de ficar alojado num hotel Hilton (fancy!), mas acreditem que cheguei a um momento em que já não aguentava aquelas paredes. Safava-se o pequeno-almoço que era brutal. O melhor que já vi em qualquer hotel sem sobra de dúvida. E bem sabemos a energia que era precisa logo de manhã para aguentar tanta matéria.

Tivemos no total 5 exames distribuídos por essas 3 semanas. Dois exames sobre procedimentos de Segurança (Safety e Security), um sobre Dangerous Goods, outro sobre Primeiros Socorros (First Aid) e o final sobre Customer Service.

Quanto aos instructores que tive... só posso dizer coisas boas. Vou levar memórias muito bonitas para o resto da vida. Afinal foram eles que me deram toda a formação e inspiração para fazer o que estou a fazer agora.

Depois de completarmos a formação e passarmos em todos os exames, temos a graduação e esta carinha de felicidade aqui em baixo diz tudo o que palavras não conseguem dizer sobre o que senti nesse dia. Estava pleno, completo, realizado.

É tão bom estar aqui. Dei um passo gigantesco na minha carreira na aviação... e nem eu tinha muita noção do quanto iria ser diferente aqui na easyJet. Mas sobre isso falarei no próximo post.






domingo, 7 de abril de 2019

O meu bairro em Berlim.



Acho que nem podia ter sido de outra forma, mas vim mesmo parar a um bairro muito cool, artístico e alternativo em Berlim. 

Não é que não existam outros bairros mais na onda hipster nesta cidade, como o bonito Kreuzberg (do qual falarei mais tarde)

Mas o bairro de Wedding (lê-se "Ve-ding") é uma mistura única de passado e modernidade, de cultura alemã com cultura turca e de outros países.

Estima-se que 30% da população do meu bairro seja composta por estrangeiros. Muitos são estudantes, de passagem, muitos são artistas e freelancers à procura do sonho alemão. Outros viveram aqui uma vida inteira.

Outros são como eu e caíram aqui por acaso. Não foi nada fácil encontrar uma casa em Berlim e este sítio acabou por ser quase a última hipótese, mas tive sorte porque está bem localizado no que diz respeito a transportes para o aeroporto (onde trabalho).

Pelas fotos já dá para ver. Wedding tem muita cor nos seus edifícios. E também tem muitas casas velhas, mas que a arte urbana tratou de colorir. 

Quando se pensa na história de Berlim, é impossível esquecer que a Segunda Guerra Mundial aconteceu aqui e que a Guerra Fria e o Muro prolongaram anos de tensão e separaram uma cidade brutalmente. 

Esta região fazia parte da zona ocidental, mais concretamente da divisão francesa, e desde que o muro caiu (há 30 anos!) acredito que a reconstrução e transformação destes bairros deve ter sido uma constante. Nota-se que há zonas que ainda não decidiram muito bem se são modernas ou retro. 

Mas é por isso que gosto de viver aqui.

Vaguear por estas ruas num final de tarde de sábado é deixar-se levar pelos aromas fortes da comida dos restaurantes alternativos que estamparam a palavra vegan na porta, é desviar-se de bicicletas e skates que passam acelerados, é reparar nos estilos alternativos de quem passa e chegar a um ponto em que já nada te surpreende, é entrar no supermercado turco para comprar fruta fresca e sair de lá com 3 tipos diferentes de couscous e bulgur, é parar para fotografar prédios da arquitectura moderna do pós-guerra, sentindo que tudo parece ter parado no tempo e depois reparar no café hipster com a bandeira arco-íris na janela e apaixonar-se por esta incrível mistura cultural e de valores.

E isto é apenas uma pequena percentagem de uma cidade vibrante com 3,5 milhões de habitantes.

Ainda haverá tanto por descobrir.

Mas algo já descobri. Mesmo antes de viver aqui, este já era o meu bairro. 




segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Diário de Bordo #7: o jogo recomeça

imagem: flickr


"Ano novo, vida nova" - dizem por aí. 

Talvez eu tenha levado isso demasiado a peito. Ainda Janeiro começou e já estou com os pés na mudança. Deixo a cidade que me recebeu e acolheu nos últimos 10 meses. Deixo o meu local de trabalho, por minha decisão, exactamente um ano depois de ter começado o curso que fez de mim um comissário de bordo.

E deixo tanto mais para trás.

Há uma canção italiana que ouço frequentemente e que, traduzida, diz assim: "Leva-me daqui, se houver um muro demasiado alto para ver o meu amanhã".

E é isso. Mais do que um "ano novo, vida nova", é isso. Não acredito que o calendário nos imponha alguma obrigação de mudar, mesmo que subtilmente, acredito sim que quando sentimos que um lugar ou uma ocupação já nos deram tudo o que podiam dar, quando o tal muro é demasiado alto para nos deixar ver um futuro, aí sim, tenho a certeza de que uma Força dentro de nós faz com que se procure recomeçar.

Há quem diga que só estou bem assim. A mudar. E é verdade que nos últimos 4 anos tenho experimentado muito. E com muito orgulho. Tenho aprendido mais do que às vezes queria, é verdade, pois às vezes até sabe bem aquela confiança de já conhecer tudo e todos no lugar onde se está, mas no meio disso tudo tenho sido exposto a situações completamente novas e desafiantes. 

Lembram-se de 2017? Passei o Verão a trabalhar na Sardenha em Itália. E a expressão "parece que foi ontem" tem muito peso de cada vez que ainda hoje dou por mim a reviver intensamente momentos fortes desse Verão exaustivo. Só que daqui a pouco já lá vão 2 anos e parece que ainda nem tive tempo de me sentar para resolver esses conflitos de uma vez por todas. 


É como se, com o que acontece agora, estivesse sempre num certo modo de comparação em que pensamentos por vezes inofensivos se transformam em verdadeiras lições diárias.

E é claro que sinto saudades disso. Matava-me a trabalhar, sim, mas sinto falta de ser feliz assim. Tal como sinto falta de ajudar as crianças que fizeram parte do meu Projecto de Voluntariado Europeu em 2015/2016. E tal como provavelmente daqui a uns meses sentirei falta do que estou a deixar agora. 

Talvez sentir falta de alguma coisa que me fez feliz por momentos, ainda que por breve momentos, seja exactamente o que procuro.

Como diz outra canção italiana que aqui deixo, é mais ou menos isto:

"La città è piena di fontane 
Ma non sparisce mai la sete 
Sarà la distrazione 
Sarà, sarà, sarà 
Che ho sempre il Sahara in bocca"








terça-feira, 16 de outubro de 2018

Oktoberfest #2: Pânico a bordo do Flixbus!




O nosso meio de regresso de Munique a Frankfurt era uma viagem de 7h num dos autocarros da Flixbus


Era o nosso terceiro dia da nossa aventura no Oktoberfest. Estava meio ressacado, cansado e ainda chocado com os eventos anteriores no acampamento (que contei aqui). Só queria chegar a casa em paz. 

Tudo começou ainda em Munique, onde o autocarro já chegou com 1h de atraso. O motorista sai e começa a dar indicações sobre a bagagem e os lugares aos passageiros... em italiano! Estávamos na Alemanha, 70% dos passageiros eram alemães, outros portugueses, holandeses, etc... mas por acaso não havia um único italiano. Havia eu que percebo e falo italiano... mas... porque falava só nessa língua o motorista? Mesmo perante as caras confusas de todos os que estavam para embarcar, o homem não se importou muito que não percebessem uma única palavra do que dizia. Mas tudo bem. Eu lá traduzi o que consegui e ajudei umas pessoas. Seguimos viagem. 

Ao fim de 1 hora, já em alta velocidade na auto-estrada, começo a ouvir gritos vindos da parte da frente do autocarro. Gritos em italiano, claro está. Completamente descontrolado o motorista gritava a duas pessoas sentadas no banco da frente que tinham de se calçar porque cheiravam mal dos pés. Sim, isto. E eu podia acabar este post por aqui e já teria contado uma belíssima história mas calma que isto ainda não descambou por completo.  

Obviamente, essas pessoas não percebiam uma palavra da língua (eram alemães e falavam um pouco de inglês, mas zero de italiano, percebi mais tarde em conversa). 

No entanto o homem, nosso querido motorista, não falava mais nada além da sua madrelingua. E na sua mente, vá lá alguém entender porquê, gritar com as pessoas faria com que estas o entendessem. Ele lá lhes gritava que se calçassem e que cheirava a chulé (gente isto aconteceu!) e repetia que os punha na rua e que isto e aquilo, mas CRISTO SANTO... eles estavam completamente perdidos sem entenderem uma palavra. Eu estava atónito lá atrás. Mais ninguém percebia o homem e eu ia traduzindo para quem estava à minha volta. Faces confusas. Olhares de: "que raio se está a passar...". 

De repente uma travagem super perigosa, o autocarro desvia-se para a berma da auto-estrada em grande velocidade, pára, faz agitar toda a gente, acorda os que ainda não se tinham apercebido do filme. Absolutamente ninguém está a entender o que se passa (mesmo daqueles a quem eu já traduzi os acontecimentos parecem perdidos).

Buscando algum apoio, o motorista levanta-se e vem pelo autocarro fora a procurar alguém que fale italiano. Respondo-lhe eu a pedir que siga viagem, por favor, porque já estamos com atraso de 1h. Responde-lhe outro senhor, que fala mais ou menos um italiano estranho e que lhe grita na cara: "STRONZO!!!"

Pronto. Foi o fim. "Stronzo" em italiano significa algo como estúpido, imbecil... mas num nível muito mais ofensivo, é como chamar "as*hole" a alguém em inglês.

O motorista passa-se, começa a pedir o nome ao outro homem para apresentar uma queixa, que lhe responde só que se chama "signore"... e eu já só me ria com isto.

Entretanto os da frente lá percebem que têm de se calçar e seguimos viagem. Ainda não tinha passado outra hora quando todos ouvimos um anúncio feito através do microfone do autocarro: "O rapaz que fala italiano pode por favor vir aqui à frente?". Era para mim. As minhas amigas olham-me e uma delas diz-me "por favor vai lá mas tem calma com o homem".

E lá vou. Super calmo, entendo que o motorista quer o meu apoio porque sou o único que na verdade pode falar com ele. E agora fazemos uma pausa só para explicar isto. Estávamos na Alemanha. O Flixbus tem sempre 2 motoristas porque como são viagens longas eles têm que ir trocando de posição. Seria de esperar que pelo menos o outro motorista falasse alemão. Mas não. E pior, não falava nem italiano, nem inglês. Sinceramente já não lembro qual era a sua origem, mas era uma língua que não nos servia naqueles momentos difíceis. Inacreditável... mas nem os dois motoristas conseguiam comunicar entre si!!!

Bem... o italiano lá me diz que planeia chamar a polícia na próxima paragem (em Nuremberga) para expulsar os dois passageiros dos pés mal lavados... e o terceiro que lhe chamou "stronzo". Eu apelo a que não o faça porque isso só nos vai atrasar mais e irritar as pessoas contra ele e originar mais reclamações e revolta e etc etc etc. Digo-lhe na cara que nos pôs a todos em risco com aquela travagem súbita e que vou ter que escrever à empresa de transportes sobre isso. E por momentos acho que o homem está a ouvir a minha voz tranquila e razoável, percebo que ele fica mais calmo depois de conseguir finalmente comunicar com alguém na sua língua. Vejamos esta imagem. Eu sentado nos degraus lá à frente a ter uma conversa com o motorista que guia por uma auto-estrada alemã (onde nem há limite de velocidade). A certo ponto até lhe explico que o meu trabalho, embora diferente, também é o de lidar todos os dias com passageiros... e até brinco dizendo que se expulsasse todos os que se descalçam nos meus voos, os aviões iriam meio vazios. 

Depois de mais conversa, volto para o meu lugar. Explico tudo às pessoas que estão sentadas à minha volta. Ninguém quer acreditar no que está a acontecer. Mas talvez o homem não chame a polícia.


ERRADO!

Na paragem em Nuremberga chama a polícia e os passageiros são impedidos de seguir viagem a bordo. Isso causa-nos mais atraso e um sem fim de contratempos a todos. 

Isto foi tão injusto por motivos que nem consigo enumerar totalmente. E assim, por ser teimoso, mal-educado e completamente fora de controlo, este motorista deu origem à minha maior reclamação de sempre ao serviço do Flixbus

Ainda estou à espera de uma resposta. 

Mas... minchia! Sobrevivi!