segunda-feira, 18 de setembro de 2017

MILANO: corrida infernal pela estação central



Terça-feira, 12 de Setembro de 2017. Eu e outra amiga estávamos já em Milão. Uma outra amiga nossa chegaria de Portugal ao aeroporto de Bergamo, nessa manhã, para se juntar a nós e assim partirmos os 3 para Veneza

Tendo em conta os restritos horários, a ideia era esperarmos por ela na stazione centrale e almoçar por aí (tínhamos já comprado os bilhetes de comboio para Veneza e umas 2h para almoçarmos tranquilamente)

8 da manhã em Itália (7 em Portugal). O escuro do quarto do hotel ilumina-se com a luz do meu telemóvel que não pára de tocar com aquela música medieval que escolhi como toque de chamada. Nunca tinha percebido como era irritante... até este momento. Mas fosse esse o meu maior problema.

Inesperadamente ouvi a voz da minha amiga dizer: "Fi... a Ryanair acabou de informar que o meu voo vai atrasar 2h porque há uma greve qualquer em França, dos controladores aéreos..."

Ao início nem estava a acreditar, ainda meio a dormir. Depois o meu cérebro fez as contas. Se o voo atrasava 2h... ela não chegaria a tempo de apanharmos o nosso comboio.

Pânico! Combinamos manter-nos em contacto e a primeira coisa que faço nessa manhã é ir ao centro de apoio da Trenitalia na estação de Milão (por muita sorte, o meu hotel ficava mesmo ao lado!). Habituado a viajar com os comboios italianos, sabia que havia possibilidade de trocar o horário dos bilhetes, pagando a diferença. Mas também sabia que tinha comprado os bilhetes low cost (a Trenitalia tem vários tipos de bilhetes, que vão do economy, premium, prima classe, etc, etc). E a resposta que tive por parte do funcionário no balcão de atendimento foi exactamente a que já esperava: por ter comprado os bilhetes numa promoção, estes não se podiam mudar. 

Em Portugal o atraso da Ryanair mantinha-se igual. Em Itália o preço para comprar novos bilhetes de comboio para Veneza, à última hora, era altíssimo (no mínimo 50€ por pessoa!). Mas lá me lembrei de um serviço económico, que é o Flixbus: autocarros low cost que fazem várias ligações pela Europa (chegou há pouco tempo a Portugal, por acaso). E lá havia uma ligação Milão - Veneza por 9,90€. Demorava mais tempo a chegar e iríamos perder metade do dia para nada, mas pelo menos ela também chegaria a tempo de o apanharmos. Decidimos então comprar 3 bilhetes através da app, sem termos que nos descolar da estação (Viva o século XXI e a sua tecnologia!). Talvez até conseguíssemos ir no comboio, mas era melhor não arriscar mais, certo?

E eis que chega uma novidade: afinal o voo partiria imediatamente, reduzindo o atraso assim para pouco mais de 1h. ESPERANÇA!! Talvez chegasse a tempo do comboio então! 


regionais, intercidades, de alta velocidade, comboios para todos os gostos!


Aqui o que nos salvou foi que eu já conhecia Milão, a estação e os serviços italianos de trás para a frente (mais de 1 ano a viver lá teria servido para alguma coisa). 

Pus então em prática um plano estudado ao pormenor. A amiga que estava comigo ficaria com as malas à porta do Gate C, onde devíamos apanhar o comboio. E aqui complicava-se um pouco. Naquela estação não é só passar para o comboio e finito. Temos que passar o Gate, o portão de segurança, procurar a linha (de dezenas de linhas disponíveis!) e ainda mostrar o bilhete novamente antes de subir para o treno. Mas ok, relaxei-me, não seria nada. A outra amiga, que aterraria no aeroporto de Bergamo, iria chegar à estação num autocarro shuttle e pararia mesmo ali à frente. Então decidi ir comprar logo o nosso almoço para o fazermos depois no comboio. Focaccia, pizza, panino. Podíamos até perder o comboio mas fome não passaríamos. E depois disso posicionei-me estrategicamente à porta, onde paravam os autocarros. Daí teríamos só que atravessar toda a estação, subir 3 pisos numas escadas de mais de 50 degraus, passar a "sala de espera" e correr para apanhar o treno às 12:45h. SÓ ISTO!! 

A linda (e enorme) estação de Milano Centrale.

Ligo-lhe. Já aterrou em Itália. Ligo outra vez. Já está no autocarro. Este demora cerca de 1h a chegar ao centro da cidade. Ligo outra vez. Já está numa avenida de Milão. 12:25h. Mantemo-nos ao telefone. Conhecendo bem o tradicional ritardo dos comboios em Itália, começo a rezar para que o nosso se atrase pelo menos uns 15 minutos. O placar amarelo vai actualizando de minuto em minuto, há vários em atraso, mas o nosso? Nem um segundo de ritardo. 12:32h. "Como é a tua mala? Assim quando o autocarro parar, tiro-a logo do 'porão' e perdemos menos tempo". Parecia uma operação da Máfia Italiana. 12:37h. Faltam menos de 10 minutos para o comboio partir. Vejo um autocarro a fazer a curva para estacionar: "Diz-me que és tu, diz-me que me estás a ver, tenho o braço no ar!!". 

"ESTOU A VER-TE!" - diz-me ela. Ponho-me a correr em direcção ao autocarro enquanto grito "Sai depressa! VAMOS CONSEGUIR! VAMOS CONSEGUIR!". 

Parecia um maluquinho. O condutor desce, abre o compartimento das bagagens. Vejo logo a mala dela. Tiro-a, vejo-a a descer do autocarro. "Segue-me. Temos que correr. Não pares nem um segundo". Era a primeira vez dela em Milão, imaginem esta bonita recepção de boas-vindas.

Subo as escadas com a mala na mão. Primeiro piso, segundo piso, terceiro piso. A outra nossa amiga grita-nos toda contente quando nos vê ao fundo. A estação a abarrotar de gente, mas conseguimos esquivarmo-nos de todos à nossa rápida passagem. Passamos o Gate C. 12:43h. O comboio é enorme, enormeeeeeeee. Tem mais de 15 carruagens e a nossa é a número 11, mesmo ao fundo. Mais um corrida. Mas já mostramos o bilhete. E nem sei como mas já estamos dentro do comboio. Mal respiro, estou a suar, o coração acelerado, mas conseguimos. CONSEGUIMOS! Contrariando todos os atrasos possíveis e imaginários,  conseguimos! 

"Fogo... dá-me pelo menos um abraço agora", diz-me ela.

Não nos víamos há mais de 4 meses. E foi este o nosso reencontro. Inesquecível, não? :D

E sim, chegamos a Veneza (onde eu ia pela terceira vez). E o que me fez mais feliz foi chegar à Piazza San Marco e ouvi-las dizer:

"Isto é lindo. Estou sem palavras. Valeu todo o stress". 


Diria até que se pode repetir um dia destes, não?


Depois da meia maratona milanese, toda a tranquilidade de um spritz aperol na ilha de Torcello (em Veneza). 

sábado, 12 de agosto de 2017

O dia em que quase nos afundamos no mediterrâneo



Dia de folga. Eu e os meus colegas de trabalho decidimos todos que seria um bom dia para fazer um passeio de barco no mediterrâneo. 

Então fomos até à nossa praia favorita e alugamos um pequeno barco para 7.

 O mar estava super calmo, como sempre está aqui no sul da ilha da Sardenha. O sol brilhava. Tudo perfeito para uma tarde bem passada a descobrir praias selvagens ao longo da costa com o nosso barquinho fantástico. 

Dois de nós já tinham experiência a conduzir este tipo de barco, então muito simpaticamente no aluguer lá nos explicaram, os responsáveis, como chegar aqui e ali, o que fazer e o que não fazer. Até nos deram um mapa.

Agora vamos olhar para esta foto que tirei na praia momentos antes de embarcamos. O mar era este. Uma piscina, por assim dizer. 



Mas realmente durante a explicação de segurança... fomos avisados de que algures no lado direito da ilha poderíamos encontrar alguma turbulência no mar. Então...

Lá partimos. Sorrisos, sorrisos. Uma vista fantástica sobre a costa. E avançamos mar adentro.

Do mar tranquilo começam a surgir algumas ondas. A água tem de repente uma movimentação diferente. Em menos de 10 minutos já estamos todos molhados dos pés à cabeça. Mas ok, faz parte, pensamos. Ao fundo vemos já a praia escondida onde queremos chegar. Falta pouco. O mar agita-se mais. Vem outro barco, bem maior e mais imponente, que passa demasiado  próximo de nós, fazendo com que as ondas aumentem. 

Uma colega aperta-me a mão com medo e eu rio, digo que devemos estar tranquilos, que não é nada.

De repente vem uma onda tremenda e o barco enche-se de água. Os nossos pés estão imersos. E mais, cada vez mais água.

A tranquilidade no grupo está quase acabada, à parte de duas pessoas. Eu e outra colega... que decide estender-se na proa a apanhar sol... ENQUANTO O BARCO CONTINUA A METER ÁGUA! Curiosamente, de todo o grupo nós somos os únicos que por hábito fazemos meditação. Então acho que a terapia zen afinal tem mesmo efeitos práticos (tendo em conta que estava quase a morrer e não estava muito preocupado NÉ!).

A única foto que consegui registar na atribulada viagem.


Volto a rir, digo que pelo menos é divertido, enquanto tento mandar água de volta ao mar com as mãos em conchinha, com outro dois colegas. É um pouco ridículo mas estranhamente tem efeito. O volume de água diminiu. E já estamos a voltar para trás, fugindo da turbulência. O mar acalma. Vejo um saco de plástico das compras a boiar e uso-o para tirar litros da água aos nossos pés. Saco a saco, a água começa a desaparecer. Uma ideia de génio, se me permitem dizê-lo.

A tranquilidade parece voltar mas... o motor começa a fazer barulhos estranhos. De repente parece não querer avançar. A marcha torna-se lenta. E o barco pára no meio do mar! Ao fundo vemos a praia de onde partimos.

Tentamos ligar para o número de segurança. A rede telemóvel não funciona. Tentamos outra vez. Ouvem-nos mal. Parece um filme. Ficamos sem uma resposta e sem saber que fazer.

Já estava a imaginar tudo. O barco afunda-se, que nem um Titanic improvisado. "Jack, Jack..."
Penso se não será melhor abrir o facebook e escrever um post de despedida aos amigos e família... mas Oops, o meu telemóvel está todo molhado e não se liga sequer. 

Aceito o meu destino. Outro colega ri. Outros estão quase em pânico. "Não é mau de todo submergir no fundo do mar com uma panorâmica lindíssima sobre a costa sul da Sardenha..." - penso. 

E então vemos ao fundo uma moto de água que acelera na nossa direcção. É o nosso salvador, um dos responsáveis pela segurança dos barcos. Em poucos minutos já está connosco, abre tudo, examina, vê o motor, faz caras de preocupação. 

"É uma avaria. Temos que voltar a terra" - diz-nos.

E com uma corda atracada à sua moto de água lá nos vai puxando o barquinho, cujo motor insiste em não dar sinais de vida.

Desembarcamos. E aqui o verdadeiro medo chega. Será que vamos ter que pagar pelo arranjo do motor?!

Será que vamos ter que ficar a trabalhar aqui para resto da vida para pagarmos os estragos causados?

Não! Todos os responsáveis pelo aluguer nos vêm falar. Super simpaticos e preocupados, profissionais, de um cuidado que (nota-se bem) é parte de uma família que vive deste trabalho há muitos anos. 

Para além de nos devolverem o valor do aluguer, algo que nós nem pedimos, ainda nos oferecem um passeio num dos insufláveis e outro desconto para a próxima vez que alugarmos outro serviço.

É inacreditável. E logo aí sobem para o topo da nossa consideração. Acabamos em mil agradecimentos. Grazie grazie grazie!

Ao fim já rimos todos, meio incrédulos, meio em êxtase, mas seguros de que temos agora uma bela aventura para contar aos amigos... ou aos filhos e netinhos.

Lá confesso a minha alegria. "Finalmente tenho uma história para escrever no blog!! Há tanto tempo que não acontecia nada e eu bem pedi qualquer coisa que me inspirasse..."

É um coro: "FILIPE A CULPA É TUA!!!".

Se a culpa é por ter tido um dos dias mais divertidos aqui, então eu assumo. :)



sexta-feira, 16 de junho de 2017

19 dias a viver na Sardenha: primeiras impressões




O primeiro impacto aconteceu quando ainda estava a sobrevoar a ilha nos momentos que antecederam a minha aterragem no aeroporto de Cagliari.
Já com os pés assentes em solo italiano, dei por mim envolvido na emoção de regressar a um país que me roubou o coração no ano passado.
Sabia de antemão que este regresso e esta nova experiência seriam diferentes de tudo o que já tinha vivido aqui.

E essa diferença começa logo num factor físico ou geográfico,  pelo facto de estar na Sardenha,  uma ilha que em tudo é diferente daquilo que conheci em Itália  (continente).

Neste post não falarei do trabalho que estou a desenvolver e vou antes concentrar-me na natureza que aqui encontrei.

Praia Le Dune

Praia Le Dune.


Sem rodeios. De tudo o que vi nestes 19 dias e considerando que talvez tenho visto uns 5% da ilha (é enorme), posso afirmar que a beleza das paisagens sardas é algo que não tem comparação.

Das praias com água cristalina às montanhas que rodeiam a costa, onde se esconde o Sol ao fim da tarde, não há um único canto que não te deixe rendido. O verde contrasta com o azul claro do mar e estares a relaxar num banho na praia Sul Giudeu enquanto observas os montes altos que se estendem ilha adentro é uma sensação indescritível. Mas há mais. Caminhando para fora da areia branca, em direcção ao verde, encontra-se uma lagoa grande com flamingos. É difícil explicar e nem há fotos que lhe façam justiça,  mas vou tentar: a lagoa e o mar estão separados pelo areal numa pequena distância de 500 metros. Do mar vê-se a lagoa e da lagoa vê-se o mar. É absolutamente arrasador.

Algumas fotos da praia Sul Giudeu, na localidade de Domus Maria, Chia.



A lagoa!





Por curiosidade esta foi eleita a praia mais bonita de Itália no ano passado. E percebe-se exactamente porquê quando ali se chega.

Eu emocionei-me e rendi-me.

Toda a tranquilidade estava ali.

terça-feira, 16 de maio de 2017

"Até namorava contigo"



Certo dia... estava a jantar com dois amigos e a nossa conversa foi revisitar o capítulo que falava sobre nós estarmos solteiros

Essas passagens, para mim, tinham tanto de aborrecidas como de imprevisíveis. Sabia sempre o que vinha a seguir, mas podíamos terminar em lamentos ou em festejos. Um de nós podia estar perfeitamente feliz assim, enquanto outro podia ver-se perdidamente triste por não estar numa relação. 

Mas dessa vez houve uma frase que nos levou a uma profunda discussão, que espero não replicar. 

"Eu até namorava com ele." - disse-nos.

"Até? No sentido de que te submetias a isso? Como quem seria capaz de ir até aí só porque tem de ser?" - perguntámos. 

E daí veio então uma infinita desconstrução dos problemas mais ou menos sérios que podiam vir de um "até o fazia".  

Só concordámos que essa afirmação estava mesmo ligada a uma certa pressão para que tenhamos uma vida a dois. Mas nos nossos e em tantos casos não nos parecia muito aceitável essa ditadura do 1+1

Fazíamos outras contas. E o resultado nem sempre era 2. Variava muito, porque se tratava de uma ciência pouco exacta. 

E continuando com a matemática, já perdi as contas aos números de vezes em que alguém chegou e perguntou "Então JÁ namoras?", calcando novamente aquela obrigação de o fazer.

Muitas vezes respondo mas nem desenvolvo. Primeiro porque posso de facto estar numa relação e não ter que a declarar num género de actualização no perfil do facebook. E depois porque essa questão traz sempre muitos pressupostos que me chateiam. 

Tens uma certa idade. Tens isto, tens aquilo. Devias ter mais juízo. É porque tens medo. É porque sofreste no passado. É porque está na hora. É porque sabe-se lá porquê. 

E até é engraçado observar as razões que te apontam, quanto tu nem sabes exactamente justificar o quereres estar assim.

Mas isso de querer mesmo começar algo, a sério, não deve vir do teu íntimo? Não é um sentimento qualquer que deve despoletar isso? Ou é realmente um "até" baseado numa frágil regra social que deve levar-te ao refúgio em qualquer coisa só porque tens que entrar numa determinada normalidade formatada?

Será que a maioria das pessoas sabe que é possível ser-se feliz sozinho? 

Seriamente, às vezes coloco essa pergunta à minha frente e acabo sempre a rir de mim próprio e dos outros, porque parece-me demasiado rebuscado imaginar que uma maioria não chegou nunca a perceber tudo o que de bom há em viveres só contigo, embora isso possa ser mesmo efémero, como um ano, um mês, uma semana, umas horas. 

E isso pode até ser uma viagem, um descobrir de um lugar onde vais tu e onde aprendes algo novo, nem que seja que os teus pensamentos, ausentes dos ruídos e rumores de outras vozes, podem mesmo ser teus bons e fiéis companheiros. 

Basta que seja só o tempo suficiente para pelo menos descobrires que jamais deves deixar que o medo da solidão te guie por onde não deves ir. 

No fundo é básico. Cada um deve é estar como se sentir bem. E o resto são só aborrecidas contas que não resolvem problemas. 


terça-feira, 25 de abril de 2017

O mundo pode ser um lugar horrível



"13 Reasons Why conta a história de Clay Jensen, um rapaz que encontra na porta da sua casa um misterioso pacote com o seu nome. Dentro, descobre várias cassetes áudio. Ao ouvir dá-se conta de que elas foram gravadas por Hannah Baker, uma amiga que cometeu suicídio. Nas cassetes, Hannah explica que existem 13 motivos que a levaram à decisão de se matar. Clay é um desses motivos. Agora ele terá de ouvir tudo até o fim para descobrir como contribuiu para esse trágico acontecimento." (Wikipédia)

SEM SPOILERS


Ironicamente, a questão que tinha sempre era "Porquê?", exactamente o título assim escancarado na minha mente. Por que é que a Hannah tinha decidido morrer? As razões (as 13 cassetes) iam sendo reveladas e eu sabia que tinha que haver algo pior, muito grave, para o justificar. Quando chegas aos episódios finais só dá para ficares destruído, num limbo qualquer entre a realidade e a ficção.

Não é uma série que possa aconselhar vagamente a alguém. Vê, mas só se estiveres emocionalmente e psicologicamente preparado/a para o fazer. Há cenas demasiado fortes, que podem despertar sentimentos terríveis, principalmente a quem já passou ou está a passar por algo semelhante (como uma depressão). Mas por outro lado este é um trabalho excelente sobre a necessidade de chamarmos a atenção para um assunto tão delicado como o suicídio. E não só. Não quero fazer spoilers, mas há aqui tantos assuntos que são explorados de uma forma brutal.

Disseram-me que não devíamos permitir que jovens vissem esta série sozinhos. E há alguma verdade nesse erro de não querermos expô-los a estes temas. Mas talvez o devam então fazer com os pais, professores, amigos, etc. Talvez não seja apropriada para quem esteja a viver momentos em que questiona a sua própria existência. E o suicídio é afinal um tema de que ninguém sabe falar. Ninguém consegue falar-te directamente disso. E quando tu o fazes, é mais fácil camuflar e "get over it". E até isso é literalmente retratado num episódio.

Aconteceu comigo o mês passado. Estava num auditório a apresentar o meu livro "Deixa-me Ser", onde falo abertamente da minha tentativa de suicídio, e quando tirei um momento para falar disso à centena de alunos e professores ali presentes, instaurou-se logo um silêncio congelante. A minha confissão, o meu "sim, eu fiz isso" caiu como uma bomba que alterou subitamente as suas expressões, colocando-me logo naquele papel de não saber se devia insistir para ver se obtinha outra reacção ou se devia simplesmente fazer uma piada ligeira e avançar para outro assunto um pouco mais confortável.

Adivinha o que fiz.

Mas a verdade é que o assunto ficou lá, como algum alerta, não tenho dúvidas disso. 

E 13 Reasons Why deve ser vista exactamente como esse alerta, esse grito de compreensão e que apela a um trabalho conjunto mais eficaz entre filhos, pais, professores, psicólogos e... autoridades. 

Por vezes temos que chocar assim de frente com o realismo para sermos capazes de nos entender a tempo, sim, antes que seja tarde demais.




quinta-feira, 20 de abril de 2017

A homofobia mata: testemunho de uma mãe


Com a publicação do Deixa-me ser, um livro autobiográfico aberto e directo, tenho recebido muitos e-mails de outras pessoas que se revêem na minha história ou que simplesmente querem aproveitar para desabafar sobre as suas próprias histórias nesta sociedade que, embora muitas vezes se pense o contrário, continua a ser ainda muito homofóbica e transfóbica. Assim, recebi um testemunho muito tocante de uma mãe que faz parte da AMPLOS (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual). É uma "mãe da AMPLOS", com nós gostamos de lhes chamar, porque lhes dá logo um sentido mais terno, que nos aproxima, como se fôssemos todos uma extensa família. 

Com a devida autorização, partilho aqui o seu texto, sem referir nomes, datas ou locais, por questões de privacidade.

Da minha parte, um imenso Obrigado, pois é extremamente gratificante receber estas palavras e poder partilhá-las, sabendo que elas poderão ser a esperança de alguém que passe pelo mesmo. Que se reflicta, que se pense bem sobre a enorme injustiça que é uma família inteira passar por isto só porque uma maioria continua a achar correcto que se perpetue o preconceito. 

E a carta que me escreveu dizia assim:

“Enquanto lia as tuas páginas de vida, no teu livro, fizeste-me reviver o meu passado, devido às impressionantes semelhanças em quase todos os aspectos. Na mesma cidade onde tu viveste, também eu deixei o meu filho num apartamento a ser partilhado com mais dois estudantes. Foi nessa cidade que o P. com 18 anos descobriu quem era. Estava sozinho. Com 19 anos decidiu sair do armário e revelou-o à sua família. O pai não aceitou, tal como o teu. Assim, as portas do armário abriram-se novamente para entrar toda a família e ficarmos lá por um tempo, fechados.
O P. ficou muito doente. Focaste o espelho na tua história. O P. tinha um pequeno espelho que nunca largava e constantemente via o seu reflexo nele, mas nunca gostava do que via. Maquilhava-se, usava um batom vermelho vivo, mas tentava esconder-se, sempre de cabeça baixa para ninguém o encarar. Não se deitava sem o batom. Quando voltou para fazer o 2º ano, o P. estava num estado lastimável, todos os dias telefonava-me em pânico. Eu mandava-lhe mensagens a qualquer hora na tentativa de acalmá-lo. 
Nas férias de Verão o P. também fez o mesmo que tu, tentou suicidar-se. Tomou à volta de 60 comprimidos, antidepressivos, receitados pelo médico de família. Levei-o ao hospital. Quando os médicos me deixaram vê-lo, ele só queria que lhe desse o espelho e o batom. Teve de abandonar os estudos. Enquanto isto, a irmã dele sofria em silêncio. Senti que estava a negligenciar a minha filha, a minha atenção era toda para o P. Mas ela nunca me cobrou nada. Ela sem o saber dava-me ânimo para continuar a lutar. 
Imagino o que deve ter sentido a tua mãe, repara, lidar com a homofobia do marido, a preocupação de se tudo isso estava a afectar a filha e ter de cuidar do filho que se encontrava em sofrimento, doente. 
Por tudo isso, também cheguei ao meu limite (chorava de noite e de dia). Não aguentava mais ver o meu filho naquele estado de sofrimento. Não adiantou o tratamento nem o internamento no hospital psiquiátrico, de onde o P. chegou a fugir, imagina! Nada estava a resultar. Cada vez ficava pior. Eu já começava a desistir, sentia-me tremendamente sozinha. Uma vez falei com uma amiga e começo a chorar, ela sabia mais ou menos pelo que estava a passar, não tudo. Essa amiga só me dizia que eu não me podia ir abaixo pois eu era o pilar da casa, se eu desistisse a minha família desmoronava. Por essa altura já tinha contactado a AMPLOS e era muito apoiada moralmente. Davam-me força, mas claro, só eu podia resolver a minha situação. A homossexualidade não era problema para mim, o problema era a doença mental, depressão, que o P. tinha e que me estava a preocupar bastante.
(...) Resolvi levar o P. a outro psiquiatra. Por essa altura, ele não falava com ninguém, não saía de casa, fechava as persianas com medo de ver gente, mal comia, não dormia nem de noite nem de dia. Para sair de casa e se apresentar na consulta, usava uma camisola com capuz, amarrava o capuz para tapar o máximo da face dele e punha uns óculos escuros, não se via a sua cara. Na primeira consulta falei com o psiquiatra a explicar tudo. Quando acabei, o médico, em primeiro lugar diz que a homossexualidade não é considerada doença e que para isso não há tratamento algum. Também a medicação que o P. andava a tomar não seria a mais indicada, não se via nenhuma melhoria no seu estado de saúde depois de passado tanto tempo de tratamento. Posto isto, soube que estava em boas mãos. Aos poucos ele foi melhorando. Trocou várias vezes de medicação até acertar. Até hoje continua em tratamento.
A cumplicidade entre o P. e a irmã aos poucos foi restabelecida. Sempre foram muito chegados, mas com a doença até da irmã se tinha afastado.  A relação com o pai nunca foi muito chegada e continua assim. Hoje falamos abertamente uns com os outros, mas o pai do P. ainda só espreita através do armário. Isso entristece-me muito. Por isso, fico muito feliz por ti e pelo teu pai, por ele por fim ter aceite e se terem tornado mais próximos.
Chorei quando li aquela parte do teu pai em que muito simpaticamente cumprimentou o teu namorado como se nunca tivesse existido um passado desolador. Chorei quando mencionaste que foste fazer uma formação em Aveiro (formação de oradores para o Projecto Educação  LGTBI da rede ex aequo). Formação essa em que só havia pessoas como tu (como descreves no livro), mas onde não estavam sós, pois tinham ido duas mães e um pai da associação chamada AMPLOS. Foi o melhor fim de semana da tua vida (como o referiste). E para mim também foi. Nunca me tinha sentido tão à vontade num grupo, apesar de ser a minoria entre vocês. É uma recordação muito bonita que vou ter para sempre.
Hoje sinto-me uma afortunada de ter um filho gay. Se assim não fosse, desperdiçava a oportunidade de abrir os olhos e ver o mundo como realmente é. Nunca teria conhecido pessoas fantásticas como tenho conhecido até aqui. Tenho aprendido imenso. Obrigada por existires, a tua atitude perante a vida vai ajudar muitos jovens e vai ajudar a mudar mentalidades para melhor.”

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Links:
site da AMPLOS: http://www.amplos.pt/
site da rede ex aequo: https://www.rea.pt/

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Podia ficar




"Tu podias ficar".

É a frase que mais ouvi e mais vi nos olhos de quem se preocupa comigo e me queria ao seu lado. Nestas vésperas de ir embora e seguir outros sonhos é isso que mais escuto.

E é claro que sim, eu podia ficar. 

Podia evitar as despedidas e deixar-me estar no lugar de (quase) sempre. Podia perfeitamente não ter que passar por aquele imenso trabalho de fazer as malas e escolher todas as t-shirts de que mais gosto, mesmo sabendo que no fim nem vai caber tudo nos limites restritos da companhia aérea. 

Também fugiria ao peso das datas em que já não estarei por cá. No outro dia, ao caminhar pela rua, vi o cartaz de um evento onde queria mesmo ir e depois... a data. "Esquece. Já não estás cá", disse a mim mesmo enquanto revirava os olhos naquele recordar de que estou constantemente a passar por isto.

Mas porque quero. A minha mãe costuma dizer que desde que saí de casa, quando fui para a universidade, nunca mais me deixei ficar por muito tempo no mesmo sítio. 

Hoje já perco as contas sobre quantas vezes fui e voltei, de quantas malas desfiz, de quantos lugares quis conhecer pela primeiríssima vez sempre naquele misto de esperança e confusão sobre todas as novidades, os novos hábitos, novas pessoas... e até novas línguas. 

É óbvio que é incomparável o que foi ir viver para a Covilhã e o que foi voar até Forlì na Itália, só para pegar em dois exemplos.

E mais incomparável será este novo passo, que é voltar a Itália mas abraçando um projecto totalmente diferente de tudo o que já fiz.

Às vezes surge um leve sentimento de culpa, o de saberes que vais deixar outra vez tudo o que é teu, para procurares, sabe-se lá onde, algo mais que te venha a pertencer.

Mas depois lembro-me que a vida é tão curta para não correr atrás da aventura enquanto tenho condições para o fazer. E compreendo quem quer ficar, tal como tento compreender as mil e umas razões para eu não o fazer. Uma delas é bastante espiritual ou metafísica, tão forte quanto haver um ser que quer procurar novas energias que lhe tragam outro equilíbrio. 

E nesse equilibrar pesarão todas as saudades que irei ter. Aquela falta da família, dos amigos e da minha irmã vai voltar, mas com ela deverei (uma vez mais) aprender a conviver. Aprende-se tanto, mas tanto com isso. Digo-o com bastantes anos de experiência, posso até fazer um CV sobre isso se quiserem.

Mas como não tenciono escrever aqui um livro sobre o assunto, correndo o risco de justificar ainda mais esta leve loucura, rendo-me então a uma música italiana que diz muito sobre isto. Arrisco aqui uma pequena tradução que diz assim:

"Leva-me daqui
de cada ângulo de tempo onde não encontro mais energia.
Amore mio, leva-me daqui
se houver um muro demasiado alto para ver o meu amanhã
e me encontrares aos seus pés com a cabeça entre as mãos.
Leva-me, se entre tantas vias de saída eu me pergunto qual será a certa.
Quem sabe qual é?
É imprevisível". 

É... Imprevisível devia ser o meu nome do meio. :P